Mercearia
Vila pequena, era o que havia por
entre aquelas bandas. Apenas uma praça, gente bem vestida,
coisa de interior
que só se vê em quadro pintado a óleo. Asfalto não havia, só rua cheia de
pedra, tão parecida era com pé-de-moleque, que dava vontade de morder a cada
passo. Poste, só se fosse lampião, mesmo porque eletricidade não se via por
ali. Quando o sol ficava dourado, como naquele dia, dava pra assistir, de
longe, o passeio que os pardais namoradeiros ensaiavam. Uns se faziam de
difíceis, outros logo cediam espaço entre as asas. 
Além da boa gente, tinha casa
acolhedora, simples, com janelas de madeira floreadas com cortinas tecidas
pelas beatas que, vez ou outra, abandonavam as agulhas para se espetarem em
suas próprias línguas. Entre uma casa amarela e outra não sei que cor, tinha uma
mercearia. Só uma, onde se vendia de nada um pouco, de tudo muito.
Na venda o
homem servia a todos, mas se lhe pediam o que não tinha, tratava logo de falar
“chispa” e já ficava carrancudo.
Veio tão
logo o menino, pequeno, ligeiro, inteligente como velho de muitas vidas, que,
como qualquer um da sua idade, gostava de falar e ser respondido. Se não tinha
a atenção desejada, logo insistia, até desistir de chatear. Naquele dia, porém,
não foi de boa vontade, foi ordem da mãe, que fez o menino deslocar, de casa,
até a mercearia.
- Seu môço,
me vê um pouco de simpatia, que é pra mãe faze o mingal.
- Tem não –
diz, carrancudo, o homem da mercearia – agora chispa que eu já vô fechá.
-Seu môço,
então me vê um cadim de alegria, que é pra mãe fazê compota.
- Tem não.
Agora chispa que eu tenho mais o que fazê.
- Seu môço,
vê então se tem um poquinho só de boa-fé, que é pra mãe fazê pão doce.
O seu môço
logo se impacientou.
- Tem aqui
não, diacho. Agora foge, se não chamo o delegado.
- Ô, seu môço.
Intão o que o senhor tem aí pra mãe cozê?
- Só sobrô
sardade, se ocê quisé...
Menino faz
cara de quem pensa muito, depois diz, sorrindo:
- Quero
não. Lá em casa ainda sobrô um cadim de esperança.
- Ah! –
logo sorri o dono da mercearia, já interessando no produto de seu intento – Esperança?
Sinhora sua mãe num vende não? Pago bom preço.
- Ah, não,
seu môço. Esperança tem, mas cabô de acabá o restim da boa-vontade que tinha.
E sai
rindo o menino, endiabrado, da cara do moço que tinha de nada um pouco, de tudo
muito.
Lindo conto...
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