[Inspire-se] O mundo não tá quebrado. Nós estamos.



      O problema não é agredir o nosso planeta, o problema não são as guerras, o problema não são as outras pessoas. O problema somos nós. Todos nós, isso e a nossa falta de fé. Mas, talvez, se olharmos com mais atenção - sim, para as pessoas que amamos, por exemplo - talvez isso nos faça pensar um pouco. Hoje tudo o que toca o coração é considerado drama adolescente. Mas, pensando bem, é quando crianças que nos enchemos de esperanças, de expectativas e vemos algo de bom por trás de tanta porcaria no mundo. Quando crescemos, tudo fica preto e branco. Talvez a gente precise sonhar como criança, fazer discursos adolescentes. Talvez precisemos de fé. 



Não, talvez não. Definitivamente, precisamos de fé.

[Resenhas] O Retrato, de Charlie Lovett

     Pense em uma pessoa que não sabe se relacionar bem com as pessoas, e por isso encontra uma válvula de escape na página dos livros. Esse é Peter. Recluso, nada sociável, ele não era de interagir com as pessoas até que conhece Amanda, a única pessoa que o fez mudar e interagir. Mas, quando sua esposa morre, Peter fica sem chão; volta a ser a pessoa que era antes de conhecer sua espora, e não consegue imaginar um futuro sem ela. Mas depois de alguns meses e de muita insistência para que ele retomasse sua vida, Peter vai para a Inglaterra e para uma nova atividade: trabalhar com livros raros.  


     Enquanto trabalha com aqueles que são, desde sempre, o apoio que Peter podia ter, ele encontra o retrato de uma mulher incrivelmente parecida com sua amada e falecida esposa. Só que a imagem tinha sido pintada há muitos, muitos anos, num passado longínquo. Obviamente curioso com tamanha semelhança, ele começa a pesquisar tudo o que pode sobre o retrato. Só que, além de tentar descobrir mais sobre aquela imagem, ele também esbarra em outra descoberta fascinante, que nada mais é que uma obra perdida de Shakespeare. E assim, sozinho, Peter precisa descobrir a história por traz do retrato e encontrar essa raridade em forma de clássico da literatura, para fazer com que seu trabalho seja reconhecido - e eternizado.

     Em O Retrato, temos uma história imersa no universo da literatura. Se você ama esse mundo das artes e das letras, vai se encantar. A história é dividida em épocas diferentes, então temos diversos personagens que acabam se entrelaçando de alguma maneira, mesmo que suas existências tenham sido separadas por séculos. O livro se passa em 1995, mas os acontecimentos de séculos antes desvendam muitas coisas no presente, e é quando isso começa a acontecer que o leitor fica irremediavelmente preso à história. Enquanto o leitor sabe o que aconteceu e o que levou certas situações a acontecerem, a tendência é querermos arrastar Peter para os lugares onde sabemos que está o que ele procura. Porque, enquanto temos todos os lados da história, Peter só tem o dele.           

     O livro, dividido em três épocas - entre os séculos XVI e XX, na década de 80 e na década de 90 - é um livro recheado de suspense e de mistério, e ao mesmo tempo nos conta uma história de amor encantadora. Com tudo para dar errado em um enredo tão diverso, foi bom ver que O Retrato teve um desfecho incrível - e um enredo viciante.

[Inspire-se] Não seja indiferente



      Não é novidade. Todo mundo já presenciou - ou viveu! - uma situação parecida: alguém se depara com uma situação que necessita de uma intervenção, alguém precisa fazer alguma coisa... Mas ninguém faz. E quando fazer o certo parece ser difícil, porque precisamos sair da nossa zona de conforto, aí sim o certo parece impossível. Mas quando a gente abre mão de nós, de nosso conforto, em prol de algo que valha a pena, aí tudo faz sentido.


      Ser bom não é fácil. Ser bom é difícil. Porque, às vezes, é preciso quebrar alguns ovos. Ou janelas. 
      Mas, quer saber? Vale a pena. 

[Resenha] Boneca de Ossos, de Holly Black - Especial de Sexta-Feita 13!

 
     Quantas vezes você já pensou em ser criança outra vez (ou continuar sendo)? Parece que, a medida que crescemos, acabamos nos esquecendo do que movia nosso imaginário infantil. Mas com Boneca de Ossos, de Holly Black, eu consegui fazer esse regresso feliz, quando o monstro que vivia debaixo da minha cama era o maior dos meus problemas. Quando deixei minha criança interior sair para brincar com a boneca de ossos, o resultado não poderia ter sido melhor. 

       Com Zach, Poppy e Alice, encontramos um caminho para as fantasias que morreram (ou dormiram por um bom tempo) quando crescemos. Acontece que essas três crianças são parecidas com muitos de nós, quando nos reuníamos nas casas de nossos amigos e, munidos de bonecos de luta e vários outros brinquedos, criávamos um universo onde éramos nós os heróis, onde sabíamos em quem podíamos confiar, onde eramos os tecelões de nosso destino. Zach tinha o Capitão William, um pirata que liderava o Pérola de Netuno. Alice manuseava Lady Jaye, e Poppy sempre estava no controle das histórias, e adorava o ponto dramático em ser uma vilã. E, embora fossem verdadeiros amigos, eles sabiam que estavam crescendo. Uma hora, todas as fantasias seriam guardadas.

      Zach tinha o esporte na escola e tinha tudo pare ser o popular pelos próximos anos, por isso tinha vergonha de brincar de faz-de-conta com as duas amigas, ou pelo menos não queria que ninguém soubesse. Alice estava começando a compreender o que era gostar de um garoto e como agir para chamar sua atenção. Enquanto isso, tudo o que Poppy gostaria era de se ver criança para sempre e, com ela, seus amigos. Apesar disso, quando se reuniam, eram apenas capitão William Lady Jaye e a Grande Rainha, protagonizada por uma boneca de ossos que sempre ficou na cristaleira, onde a mãe de Poppy proibia qualquer um de pegá-la. Você já pode imaginar o estigma criado em cima da boneca: intocável, feita de ossos, com um olhar semicerrado como se encarasse a tudo e a todos. 


      E, como toda boa história, sempre há questões familiares, como Zach, cujo pai ausente acaba estragando a felicidade do filho ao jogar fora o capitão William, pensando que isso poderia fazer o garoto ser mais homem. Alice, que vivia com a avó, passava seus dias com medo de desagradá-la e receber um castigo que a poria longe dos amigos por um bom tempo. Poppy, com seus irmãos mais velhos sendo, bem, irmãos mais velhos, numa relação de atrito e amizade. Tudo isso permeia a trama, até que... O sobrenatural acontece!

      Poppy decide conversar com os amigos e explicar, que em uma noite, recebeu ordens da Grande Rainha, ou melhor, da Boneca de Ossos, que deu de querer aparecer para ela em seus sonhos, trazendo uma mensagem: enterrar a boneca onde estava seu corpo. Ao que parece, a boneca não era feita de ossos de animais, e sim de ossos de uma garotinha que morreu há muitos anos. Carregados por uma suposta aparição do além, os três amigos acabam caindo de cabeça em uma grande aventura, que promete transformá-los para sempre, talvez para melhor. 


      Quando comecei a ler Boneca de Ossos, me peguei divido. A história, escrita em terceira pessoa, tem uma voz narrativa muito poética e melancólica, e isso aguçou demais o meu lado de leitor apaixonado de 23 anos. Por outro lado, não tinha como sentir aquele frio na barriga em alguns momentos muito bem encaixados, coisa que teria mais efeito em uma criança. O timming era perfeito, a colocação das cenas que deveriam causar um arrepio foram inseridos quando o leitor parece "baixar a guarda", quando ele esquece por um momento que é adulto e decide se vestir de criança para embarcar na aventura. Holly Black criou uma bela história que, mais do que tentar nos assustar, ela tenta nos lembrar do que esquecemos quando crescemos, que são as fantasias, a crença fácil em coisas que são absurdas para gente mais velha, uma tentativa de resgatar a infância em pouquíssimas 220 páginas. 
      A diagramação está incrível, e as ilustrações captam muito bem a essência da história, além da capa, com as cores certas pra trazer ao leitor a ideia de uma história infantil com teor de suspense. A leitura vale muito a pena, tornou-se um dos meus preferidos desse ano em disparada. Muita coisa não foi dita aqui, mas por ser uma história de poucas páginas... Bem, acho melhor você descobrir por você mesmo o quanto essa aventura pode te encantar e, quem sabe, você não permita sua criança interior sair para brincar mais uma vez.       
       
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos