[Resenhas] O Retrato, de Charlie Lovett

     Pense em uma pessoa que não sabe se relacionar bem com as pessoas, e por isso encontra uma válvula de escape na página dos livros. Esse é Peter. Recluso, nada sociável, ele não era de interagir com as pessoas até que conhece Amanda, a única pessoa que o fez mudar e interagir. Mas, quando sua esposa morre, Peter fica sem chão; volta a ser a pessoa que era antes de conhecer sua espora, e não consegue imaginar um futuro sem ela. Mas depois de alguns meses e de muita insistência para que ele retomasse sua vida, Peter vai para a Inglaterra e para uma nova atividade: trabalhar com livros raros.  


     Enquanto trabalha com aqueles que são, desde sempre, o apoio que Peter podia ter, ele encontra o retrato de uma mulher incrivelmente parecida com sua amada e falecida esposa. Só que a imagem tinha sido pintada há muitos, muitos anos, num passado longínquo. Obviamente curioso com tamanha semelhança, ele começa a pesquisar tudo o que pode sobre o retrato. Só que, além de tentar descobrir mais sobre aquela imagem, ele também esbarra em outra descoberta fascinante, que nada mais é que uma obra perdida de Shakespeare. E assim, sozinho, Peter precisa descobrir a história por traz do retrato e encontrar essa raridade em forma de clássico da literatura, para fazer com que seu trabalho seja reconhecido - e eternizado.

     Em O Retrato, temos uma história imersa no universo da literatura. Se você ama esse mundo das artes e das letras, vai se encantar. A história é dividida em épocas diferentes, então temos diversos personagens que acabam se entrelaçando de alguma maneira, mesmo que suas existências tenham sido separadas por séculos. O livro se passa em 1995, mas os acontecimentos de séculos antes desvendam muitas coisas no presente, e é quando isso começa a acontecer que o leitor fica irremediavelmente preso à história. Enquanto o leitor sabe o que aconteceu e o que levou certas situações a acontecerem, a tendência é querermos arrastar Peter para os lugares onde sabemos que está o que ele procura. Porque, enquanto temos todos os lados da história, Peter só tem o dele.           

     O livro, dividido em três épocas - entre os séculos XVI e XX, na década de 80 e na década de 90 - é um livro recheado de suspense e de mistério, e ao mesmo tempo nos conta uma história de amor encantadora. Com tudo para dar errado em um enredo tão diverso, foi bom ver que O Retrato teve um desfecho incrível - e um enredo viciante.

[Inspire-se] Não seja indiferente



      Não é novidade. Todo mundo já presenciou - ou viveu! - uma situação parecida: alguém se depara com uma situação que necessita de uma intervenção, alguém precisa fazer alguma coisa... Mas ninguém faz. E quando fazer o certo parece ser difícil, porque precisamos sair da nossa zona de conforto, aí sim o certo parece impossível. Mas quando a gente abre mão de nós, de nosso conforto, em prol de algo que valha a pena, aí tudo faz sentido.


      Ser bom não é fácil. Ser bom é difícil. Porque, às vezes, é preciso quebrar alguns ovos. Ou janelas. 
      Mas, quer saber? Vale a pena. 

[Resenha] Boneca de Ossos, de Holly Black - Especial de Sexta-Feita 13!

 
     Quantas vezes você já pensou em ser criança outra vez (ou continuar sendo)? Parece que, a medida que crescemos, acabamos nos esquecendo do que movia nosso imaginário infantil. Mas com Boneca de Ossos, de Holly Black, eu consegui fazer esse regresso feliz, quando o monstro que vivia debaixo da minha cama era o maior dos meus problemas. Quando deixei minha criança interior sair para brincar com a boneca de ossos, o resultado não poderia ter sido melhor. 

       Com Zach, Poppy e Alice, encontramos um caminho para as fantasias que morreram (ou dormiram por um bom tempo) quando crescemos. Acontece que essas três crianças são parecidas com muitos de nós, quando nos reuníamos nas casas de nossos amigos e, munidos de bonecos de luta e vários outros brinquedos, criávamos um universo onde éramos nós os heróis, onde sabíamos em quem podíamos confiar, onde eramos os tecelões de nosso destino. Zach tinha o Capitão William, um pirata que liderava o Pérola de Netuno. Alice manuseava Lady Jaye, e Poppy sempre estava no controle das histórias, e adorava o ponto dramático em ser uma vilã. E, embora fossem verdadeiros amigos, eles sabiam que estavam crescendo. Uma hora, todas as fantasias seriam guardadas.

      Zach tinha o esporte na escola e tinha tudo pare ser o popular pelos próximos anos, por isso tinha vergonha de brincar de faz-de-conta com as duas amigas, ou pelo menos não queria que ninguém soubesse. Alice estava começando a compreender o que era gostar de um garoto e como agir para chamar sua atenção. Enquanto isso, tudo o que Poppy gostaria era de se ver criança para sempre e, com ela, seus amigos. Apesar disso, quando se reuniam, eram apenas capitão William Lady Jaye e a Grande Rainha, protagonizada por uma boneca de ossos que sempre ficou na cristaleira, onde a mãe de Poppy proibia qualquer um de pegá-la. Você já pode imaginar o estigma criado em cima da boneca: intocável, feita de ossos, com um olhar semicerrado como se encarasse a tudo e a todos. 


      E, como toda boa história, sempre há questões familiares, como Zach, cujo pai ausente acaba estragando a felicidade do filho ao jogar fora o capitão William, pensando que isso poderia fazer o garoto ser mais homem. Alice, que vivia com a avó, passava seus dias com medo de desagradá-la e receber um castigo que a poria longe dos amigos por um bom tempo. Poppy, com seus irmãos mais velhos sendo, bem, irmãos mais velhos, numa relação de atrito e amizade. Tudo isso permeia a trama, até que... O sobrenatural acontece!

      Poppy decide conversar com os amigos e explicar, que em uma noite, recebeu ordens da Grande Rainha, ou melhor, da Boneca de Ossos, que deu de querer aparecer para ela em seus sonhos, trazendo uma mensagem: enterrar a boneca onde estava seu corpo. Ao que parece, a boneca não era feita de ossos de animais, e sim de ossos de uma garotinha que morreu há muitos anos. Carregados por uma suposta aparição do além, os três amigos acabam caindo de cabeça em uma grande aventura, que promete transformá-los para sempre, talvez para melhor. 


      Quando comecei a ler Boneca de Ossos, me peguei divido. A história, escrita em terceira pessoa, tem uma voz narrativa muito poética e melancólica, e isso aguçou demais o meu lado de leitor apaixonado de 23 anos. Por outro lado, não tinha como sentir aquele frio na barriga em alguns momentos muito bem encaixados, coisa que teria mais efeito em uma criança. O timming era perfeito, a colocação das cenas que deveriam causar um arrepio foram inseridos quando o leitor parece "baixar a guarda", quando ele esquece por um momento que é adulto e decide se vestir de criança para embarcar na aventura. Holly Black criou uma bela história que, mais do que tentar nos assustar, ela tenta nos lembrar do que esquecemos quando crescemos, que são as fantasias, a crença fácil em coisas que são absurdas para gente mais velha, uma tentativa de resgatar a infância em pouquíssimas 220 páginas. 
      A diagramação está incrível, e as ilustrações captam muito bem a essência da história, além da capa, com as cores certas pra trazer ao leitor a ideia de uma história infantil com teor de suspense. A leitura vale muito a pena, tornou-se um dos meus preferidos desse ano em disparada. Muita coisa não foi dita aqui, mas por ser uma história de poucas páginas... Bem, acho melhor você descobrir por você mesmo o quanto essa aventura pode te encantar e, quem sabe, você não permita sua criança interior sair para brincar mais uma vez.       
       

Dias Melhores Virão, de Jennifer Weiner

      Seis anos depois de muitas tentativas e, finalmente, Ruth Saunders recebe o telefone que mudará sua vida para sempre. O que esse telefonema diz: que seu roteiro, para uma série de comédia foi aprovado, e irá ao ar. O roteiro é baseado em sua vida: uma mulher que vive com a avó e que está tentando descobrir seu próprio espaço no mundo. Porque essa é a história de vida de Ruth que, desde os três anos de idade, vive com sua avó. Seus pais morreram em um acidente de carro ao qual ela sobreviveu, mas não sem grandes sequelas. Sequelas essas que são físicas e emocionais. Só que as físicas ficam bem óbvias para qualquer um que a veja, já que as feridas que o acidente deixou acabaram transfigurando seu rosto e seu corpo. E, por isso, Ruth passou boa parte da sua infância internada ou passando pela mão de diversos médicos, tentando diminuir a dor que sentia e tendo que ser submetida à diversas cirurgias.         

      Sendo rejeitada por todos ao seu redor, menos por sua avó, Ruth acaba se apaixonando por uma de suas atividades com a avó: assistir à seriados na televisão. E, como uma válvula de escape, ela começa a escrever, sendo sempre incentivada por sua avó. E foi por isso que ela decidiu escrever seu roteiro: para mostrar para outras pessoas como ela, sem amigos ou que são excluídas da sociedade, que ser uma pessoa normal não é um absurdo. Que não é preciso ser extraordinário para se ter algum espaço. E, então, finalmente seu projeto é aprovado. Só que nem tudo era tão fácil assim.



      Mal tinha conseguido comemorar a aprovação de seu roteiro quando descobriu que teria que mudar diversas coisas para adequar sua série aos desejos da editora, mudando o sentido de sua série. E, além disso, ela é obrigada a lidar com todo tipo de gente; roteiristas, atrizes que não sabem lidar com suas vidas, executivos que querem ser sempre paparicados. E, para melhorar, ela ainda precisa lidar com o lado emocional de sua própria vida, porque ela não consegue se sentir bem sendo quem é. Seu recente namoro acaba, ela é recusada por um dos roteiristas e ainda tem que ver sua avó planejando um novo casamento. As coisas estavam boas, até que não estavam mais.              

fonte da imagem: http://samyaquino.blogspot.com.br/

      O livro me chamou atenção por ser uma grande lição  de moral. Sabe aqueles romances que sempre mostram uma garota de baixa autoestima que se acha super feia e desinteressante mas na verdade não é, e que se apaixona pelo cara popular, bonito e charmoso e, juntos, ela descobre que na verdade é incrível e ele descobre as coisas simples da vida? Pois é, chega uma hora que você cansa dessas histórias, né? E Dias Melhores Virão mostra que você pode ser feliz e se dar bem no mundo mesmo que a sua vida seja mesmo mais cruel que a dos outros. E, na verdade, o livro é uma grande crítica à industria cinematográfica. O livro mostra muito bem tudo que acontece nos bastidores desse mundo e que, na verdade, eles não criam o conteúdo que o público quer ver. Eles criam o conteúdo que eles, os grandes empresários desse mundo, querem vender para o público. Um livro muito bem escrito e que foi um bom ponto de vista diferente dos livros clichês (que eu amo, não me entendam mal) de hoje em dia.

 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos