[Resenha] - Um Heroi Para Ela, de Lu Piras



      Sabe o que é legal? Quando você se surpreende com uma leitura. Lu Piras fez o favor de escrever uma obra assim, que foge do convencional sem, no entanto, perder a essência de romance para as apaixonadas de plantão (e por que não os apaixonados também?). É com um pouco desse amor sonhador, ela é capaz de inspirar as pessoas a buscarem esse sentimento nos lugares mais improváveis. 



Título: Um Herói Para Ela
Autora: Lu Piras
Editora: Novo Conceito
334 páginas - 2014

     Bianca Villaverde era uma jovem complicada como qualquer outra que só queria se apaixonar. Carioca, advogada por obrigação e amante da escrita, tinha o grande sonho de ser roteirista. Infelizmente era um desejo ofuscado pela falta de oportunidades no Brasil e, principalmente, pela insegurança e auto-confiança quase nula de Bianca. Foi por isso que seus pais, numa última manobra que exigiria todas as esperanças da família, decidiram fazer algo por ela: inscrevem-na num curso de roteiro em Nova York. 
      E assim Bianca pegou o voo para a cidade que nunca dorme. Mal sabia ela que aprenderia a escrever a própria história. 

"... Bianca baixou o vidro, deixando o vento desarrumar seus cabelos. O ar frio incomodava, mas ela precisava sentir a liberdade."
Página 46

      O ponto de partida de sua aventura é a promessa de uma amizade nada comum. Bianca acaba indo morar com duas garotas: Monica (a paulista) e Natalya (a russa com um gênio muito difícil). E, posso garantir, elas não seriam melhores-amigas-acima-de-tudo. Pelo menos não até passar por algumas situações que colocariam a prova essa amizade tão imatura. Mas é claro que nossa protagonista nunca iria ser completa sem o seu herói (ou seria o anti-heroi?). No curso de roteiro, ela conhece o jovem Paul, aparentava ser tão gentil quanto rico, além de famoso o suficiente para abrir as portas em Hollywood. Por outro lado, Bianca acabou conhecendo o jovem Salvatore, garçom de um bar italiano no Bronx. Para uma garota que, ao final de cada relacionamento, sentia-se cada vez mais solitária, aquela parecia ser sua chance de encontrar um amor que só se vê nos cinemas. 

"Ela nunca deixara de ser só. E o tempo, assim como ela, se consumia em sua própria essência e eficiência. Ele, rápido e cada vez mais rápido. Ela, sozinha e cada vez mais sozinha."
Página 73

     A obra escrita por Lu Piras vai te enganar. No começo, a leitura pode te levar a pensar que é mais um romance água com açúcar (o que não implicaria ser um problema, se assim fosse). Mas não é. Pelo menos não ao longo da leitura. Vamos imaginar que nessa água com açúcar ela tenha decidido jogar limão só pra deixar a trama mais agridoce. E foi exatamente essa mudança que me deixou cada vez mais curioso.
      Bianca acaba se envolvendo com muita gente perturbada, desde a péssima experiência de um quase abuso em uma boate, até o confronto de uma máfia e a possibilidade de não sair inteira daquela situação. Se por um lado a autora nos apresentou uma garota prestes a quebrar no início do livro, por outro ela conduziu a protagonista disposta a crescer e com uma resistência que nem ela imaginava possuir. Não só isso como - fazendo jus ao título - ela enfrentou a dúvida de quem era o homem que por duas vezes aparecera para salvar sua pele.
      É claro que ela encontra o amor da sua vida no final. Mas não podemos deixar de perceber que todos os seus pretendentes a enganaram. O grande diferencial foi qual o mentiroso digno do coração da nossa jovem protagonista em busca de uma história para ser escrita (isso não é spoiler, porque não é nem metade do que o livro promete!).
      Através de referências ao musical O Fantasma da Ópera e à músicas como as de Renato Russo, Lu Piras deu para a obra uma cara de romance contemporâneo mesclado da idealização de amor que vimos nos clássicos. E, o que mais me chamou a atenção, ainda teve muito espaço para ação. Ação de verdade, do tipo tiros e fuga! 

      E, como já deu pra perceber, Lu tem uma queda pela música em todos os aspectos, por isso nada mais justo do que finalizar o post com uma boa música que, na minha opinião, tem cara de Um Heroi Pra Ela. Não um heroi de capa vermelha. Seria mais o tipo que sangra e comete erros todo o tempo.


      Boa leitura! Fiquem na Paz!      

[Resenha] Quando Tudo Volta, de John Corey Walley

Quando Tudo Volta é um livro que comecei sem muitas expectativas, justamente para não ter grandes decepções. Como a capa dele remete um pouco à John Green e livros que temos nos apegado ultimamente, eu preferi não esperar nada demais. Na verdade, eu nem mesmo li a sinopse: simplesmente abri o livro na primeira página e segui esse caminho. E não me arrependo. 
Nesse livro conhecemos Cullen, um adolescente que não vê nada demais em sua vida, que não consegue imaginar nada de genial acontecendo em seu futuro, que é meio tímido, trabalha em uma loja onde tem que atender todos que detesta da escola e que adora seu irmão mais novo. Gabriel, seu irmão, é um cara com uma visão da vida super otimista, que sempre vê tudo pelo lado cheio e que sempre está bem humorado. Os dois se dão super bem, e são verdadeiros amigos.


Além de Gabriel, Cullen tem um melhor amigo chamado Lucas, e a amizade deles é uma daquelas verdadeiras e que com certeza vão durar para sempre. E eles são o extremo oposto um do outro: enquanto Cullen é retraído e quieto, Lucas é o cara popular e sempre feliz, que adora fazer os outros sorrirem e é agradável com todos, mesmo que Cullen saiba que sua vida não chega nem perto de ser tão boa quanto ele faz parecer ser.

Eles moram em uma cidadezinha do interior e nada demais acontece por lá, até que um dos moradores diz ter visto uma espécie rara de pica-pau ao redor da cidade. Depois disso tudo se torna uma loucura, e todos ao redor parecem ficar obcecados com aquele pássaro. Estabelecimentos mudam de nome, pessoas passam a amar o bendito pássaro e a cidade começa a ter uma vida que nunca parecera ter antes. E Gabriel desaparece. 



Além disso, tem uma história paralela que acontece durante o livro, que é a de um cara fanático pela sua religião. E acabamos acompanhando a história dele se desenrolar em, o que descobrimos depois, um tempo diferente da história de Cullen. Enquanto ouvimos as histórias de Benton, esse personagem jovem que faz de tudo para orgulhar seu pai e por isso se dedica aos estudos da bíblia como ninguém. Sim, parece não ter nenhum sentido ao lado da história de Cullen, mas isso é a parte mais genial da história: como a história de Benton se une a de Cullen da maneira mais improvavél no fim do livro.


Lembra quando eu falei que Gabriel desaparecia? Imagina como fica a vida de Cullen e sua família quando uma parte tão importante dela deixa de estar presente. Ele não sabe como superar a falta do irmão, como lidar com os pais e como ter esperanças de um futuro melhor e longe daquela cidade pequena que parece não permitir que ninguém saia dali. Se ser adolescente já é dificil nas situações normais, imagina quando não se vê esperança nem tem seu irmão e melhor amigo ao seu lado.



Quando Gabriel desaparece, Cullen fica tentando descobrir motivos e criando teorias para o que aconteceu. E ele começa a fazer isso com tudo ao seu redor. As relações no livro ficam mais intensas, principalmente porque a carga emocional de todos os envolvidos fica muito mais pesada e presente. Eles tem que lidar com uma situação que ninguém deveria lidar na vida. Também fica mais presente o fato dele estar indignado que a cidade inteira esteja dando mais atenção ao aparecimento do bendito pássaro que ao sumiço de seu irmão.

O texto é muitas vezes bem humorado, obviamente um tanto melancólico, e perfeitamente contruído. John soube escrever essa história. Quando terminei o livro minha vontade era de abraçar o autor e dizer "obrigada, cara. Principalmente por escrever uma história despretensiosa e completamente apaixonante". Chega um momento da história em que você começa a ficar ansioso e tenta descobrir o desfecho das duas histórias - de Gabriel e de Benton, e quando isso finalmente acontece você sente a sensação de dever cumprido, gratidão e alegria. Porque, mesmo sendo despretencioso, o livro soube passar sua mensagem e cativar o leitor. De uma forma realmente sensacional.

[Inspire-se] Seja uma voz

      Quando você vê algo errado, e sente que precisa dizer alguma coisa, fazer alguma coisa... Quantas vezes você reprimiu esse sentimento? Quantas vezes você agrediu a si mesmo por medo, por não querer se meter, talvez por duas naturezas lutarem dentro de você: aquela que se importa, e aquela que não dá a mínima. Quantas vezes a indiferença prevaleceu?
      Quando as coisas estão erradas, você precisa falar. Se importar é o primeiro passo para mudar alguma coisa. Se tem algo a ser dito - algo que REALMENTE precisa ser dito - então fale. E se, em algum momento, você presenciar uma situação como essa, não seja aliado(a) do silêncio.  


      A decisão de calar é sua. A consciência também. Não seja cúmplice do bullying. Não seja como eles. Seja como ela. 

[Resenha] As Mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch



      Eu nunca fui do tipo de ter um livro favorito, até conhecer Locke Lamora e sua vida como Nobre Vigarista. Não, ainda não estou pronto para dizer "esse é o meu favorito", mas posso dizer que é uma das histórias mais incríveis que já li. Se algum dia eu cruzar com o autor por aí, vou dar um abraço no sujeito e dizer "Scott Lynch, obrigado, cara! Obrigado!". 



Título: As Mentiras de Locke Lamora
Autor: Scott Lynch
Editora: Arqueiro
463 páginas - 2014

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"Velhos pecados nunca são enterrados tão fundo que não possam tornar a surgir quando menos se espera."

      Locke Lamora era órfão - mãe falecida e pai desaparecido - e aos cinco anos, já se mostrava um prodígio na arte de assaltos teatrais. Quando o Aliciador o encontrou (para ser justo, foi Locke quem o procurou), percebeu que os talentos do garotinho para a vigarice eram selvagens demais para serem controlados, e foi por isso que o vendeu para um padre de araque, o Correntes, conhecido como Sacerdote Cego (tão cego quanto eu, que no máximo tenho uma miopia ali e um estigmatismo aqui). Era no Templo de Perelandro que Correntes criaria os Nobres Vigaristas, ladrões que um dia seriam o pavor para os bolsos dos ricos.
      A cidade onde nos aventuramos é Camorr, um lugar onde a Paz Secreta reina. Segundo esse termo, as gangues de ladrões não poderiam assaltar casacas-amarelas (soldados de alta patente) ou nobres, o que significa que deveriam roubar do povo menos abastardo. Aquele que fosse contra essa lei, pagaria com a própria vida. Capa Barsavi, o homem por trás de todas as cem gangues, prezava sua Paz e assim seria pelos próximos anos... Até que os Nobres Vigaristas finalmente estivessem prontos para zombar de sua lei.
      Locke recebeu os ensinamentos de Correntes, assim como Jean, a jovem e ausente Sabeta e os gêmeos Galdo e Calo (anos depois Pulga, a figura mais irreverente da história!). Cada um com seu talento, foram treinados para assumirem qualquer disfarce, dominarem suas emoções e realizarem verdadeiras encenações.
      Anos depois, Locke seria conhecido como Espinho de Camorr, a assombração que limpava os cofres dos ricos sem deixar pistas. Em meio a tantos envolvimentos, no entanto, o caminho dos Nobres Vigaristas acabou cruzando o do Rei Cinza, um assassino vingativo poderoso o suficiente para armar uma cilada inevitável. Munido de soldados e um Mago-Servidor, Locke passaria pela maior humilhação de toda a sua vida e, a maior perda também. Vingança, então, seria sua meta a partir de então.

"Primeiro as chamas, depois os gritos."
página 304

      Escrito em terceira pessoa, As Mentiras de Locke Lamora alterna os capítulos entre dois momentos: quando Locke era criança e treinado por Correntes; Já grande, após assumir o controle dos Nobres Vigaristas e ganhar a fama de Espinho de Camorr (claro, as autoridades não sabiam que era ele o responsável por perpetuar essa lenda). A ambientação é bem alternativa, cruza com a nossa Era Medieval, quando a fé é movida por dogmas e medo, e as pessoas davam moedas em trocas de bênçãos para si e suas gerações. Claro que, dito isso, não dá pra deixar de mencionar o caractere religioso da história. São doze deuses conhecidos, e um décimo terceiro deus, aquele que convenientemente protege os vigaristas. O elemento fantástico na história é bem diluído, não chega a tomar o foco da trama, sendo mais usado como um complemento pra enriquecer a obra.

      Bem... O que dizer de Scott Lynch que mal conheço e já considero pacas? O sujeito criou não apenas umas das histórias mais extraordinárias que já li, como também os personagens mais carismáticos e apaixonantes, e posso dizer que não foi fácil deixá-los partir com o fim da leitura. Para nossa satisfação - quase um alívio, na verdade - trata-se de uma tetralogia, com três livros já lançados (ainda não aqui em terras tupiniquins) e o último em andamento.
      Lynch me fez sorrir com sua narrativa divertida, ácida, com personagens bem humorados - especialmente Pulga, o mais jovem dos Nobres Vigaristas, com mais ímpeto do que todos eles juntos, inclusive - e Jean, o pergonagem que, na minha opinião, teve o crescimento mais marcante na história, pois de filho gorducho e abobalhado de comerciantes ricos, passou a ser um dos mais peritos na arte da luta, além de ser um matemático nato. Claro que vê-lo órfão não é uma coisa boa, mas não tem como negar que nada nessa história é mais lindo do que a amizade entre Locke e Jean. A maneira como o companheirismo entre os dois surgiu e cresceu foi incrível e muito bem desenvolvida, era como se seus talentos se complementassem aos poucos e, juntos, fossem imbatíveis (pelo menos esperamos que sejam). Claro que os gêmeos Calo e Gardo não são menos incríveis. Na verdade, é melhor colocar todos em um saco e levar pra casa, porque não dá pra escolher um preferido não. Só não espere muito de Sabeta, a vigarista que roubou o coração de Locke e, no entanto, não aparece em nenhum momento, apenas em menções durante diálogos dos personagens. E, vejam só, isso só me deixa mais curioso para a continuação. Não dá pra mensurar a vontade de conhecer a única pessoa que conseguiu roubar do Espinho de Camorr o que parecia ser infurtável.
      Mas deixo avisado: As Mentiras de Locke Lamora não é só sorrisos! Lynch criou uma trama que abraça todos os sentimentos, provoca todas as sensações e, com certeza, nem sempre é coisa boa: da raiva à compaixão, da alegria à tristeza mais desoladora. Não é à toa que os nomes mais expressivos da literatura ficcional da atualidade - Patrick Rothfuss e George R. R. Martin - consideraram essa obra um verdadeiro primor!
      Hã, se eu recomendo? Vou só ali rapidão ver se macaco quer banana e volto já pra responder!
      Leiam, galera! Eu não tô só recomendando, eu tô pedindo!


 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos