Imagine você vivendo numa favela ambientada na Idade Média, em um universo alternativo em que a ordem é regida por um Clã de Magos. Agora se imagine no meio da multidão que brada contra os magos, enquanto estes passam pelo povo bancando a egípcia por trás de seu campo de força mágico. Encarnou? Beleza, agora atira uma pedra contra o escudo. Imagine-a atravessando o campo de força e desacordando um dos seres mágicos... Pronto, você acaba de descobrir que também é um mago, um dos selvagens! Agora, "pernas, pra quê te quero", os caras estão atrás de você e é melhor se sconder. Não existem magos fora do clã, eles dizem.

Tudo isso aconteceu com Sonea, uma garota que para o resto do mundo não era ninguém além de uma criança pobre que vivia com os tios. O grupo de magos, a pedra atirada, a descoberta surpreendente. Ela era apenas uma criança, uma maga cujos poderes eram selvagens e completamente sem controle. O maior problema: Sonea era um perigo para qualquer um a sua volta, e até para ela mesma.
A história gira praticamente em torno da protagonista fugindo do radar dos magos e tentando controlar sua magia, ao lado de seu amigo Ceryni e uma horda de ladrões que se escondem nos esgotos da cidade de Irmadin, a boa e velha cidadela de ares medievais que compõe nosso cenário fantástico.
Durante algum tempo travei uma batalha comigo mesmo, me perguntando se, afinal, havia ou não gostado da história. No fim das contas, decidi que estava curioso pela continuação (pra quem não sabe, O Clã dos Magos é o primeiro livro da trilogia O Mago Negro), o que podemos entender como: sim, eu gostei.
Narrado em terceira pessoa, a história nos transporta para um universo particular de Trudi Canavan, em que tudo - desde hortaliças à animais selvagens - foi inventado por ela. Sonea, a nossa protagonista, começa como uma garota das ruas, fazendo trabalho para os tios, tentando levar a vida em sua favela (a princípio achei estranhíssimo o livro usar o termo "favela" em uma ambientação medieval, mas por fim acabei me acostumando). Mas o evento com os magos acabou levando-a a tomar escolhas difíceis. Além de abandonar os tios, precisou se aliar a alguns ladrões da cidade, e inclusive buscar um mago banido que, secretamente, ainda mantinha seus poderes. Claro que as coisas foram bem mais fáceis depois que seu bom e velho amigo, Ceryni, decidiu acompanhá-la nessa fuga.
A narração é bem fluida, sem obstáculos, mas houve momentos em que me senti levemente decepcionado. Dá pra notar que a autora tem uma veia imaginativa bacana, coisa fina mesmo, mas falha um pouco ao explorar o mundo que ela mesma criou. Em alguns momentos, a falta de aprofundamento em seu universo inventado se faz ser bem notado - o que não é nada bom - e tudo fica a cargo de um glossário ao final do livro, uma coisa que, se o próprio enredo não te prender, não vai te fazer virar todas as páginas até saber do que se trata aquela palavra desconhecida.
Por outro lado, Trudi Canavan conseguiu criar um gancho interessante entre o primeiro e o segundo livro, aquele tipo de sensação que, por fim, você admite "é, estou interessado em saber o que, afinal de contas, vai acontecer".
E aí, amigos leitores? O que acharam?
Boa leitura, fiquem na Paz! =)