[Resenha] - Lagoena - 1ª Temporada

   

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     Dizem que escondemos muitos segredos. O tipo de verdade que, nas mãos de muitos, poderia ser perigoso demais. No caso do Sr. Gornef, um joalheiro ranzinza e já muito idoso, seu mistério estava encerrado no andar superior de sua joalheria.
     Seu segredo? Sua neta, Rheita. Uma menina cuja marca nas mãos era escondida por uma luva e significava muito mais do que o pobre Gornef gostaria que fosse.
     Mas os segredos pareciam não ter fim. Na casa do joalheiro, debaixo do piso em um dos quartos, outro mistério mantinha-se sob os cuidados das teias de aranha e da poeira de anos e anos de solidão. A metade de um mapa, a fração cobiçada por um homem amaldiçoado que, se pusesse as mãos na segunda metade, colocaria em risco o equilíbrio de Lagoena, a Terra Secreta.

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Lagoena - A Terra Secreta

     Olá, amigos leitores!

     Finalmente, depois de muito tempo, consegui arrumar o meu tempo para terminar de ler Lagoena e fazer uma resenha no nível que essa história merecia. Afinal, a obra escrita por Laisa C. não poderia ser menos que incrível, animador, empolgante e fantástica. Claro que eu escolhi os melhores adjetivos pra definir Lagoena, ou eu precisaria de um post especialmente pra isso! =)
     Bem, vamos ao que interessa. Afinal, ninguém 'tá aqui pra me ver rasgando seda, e sim pra desvendar alguns dos mistérios escondidos em Lagoena!

Título: Lagoena - A Terra Secreta
Autora: Laisa C.
Publicado em: BookSerie - Seriados online no formato de texto!


Sinopse: Um cavaleiro cruel em uma floresta, a alma amaldiçoada de uma "Sua Alteza" em uma busca incansável pela metade do mapa. Enfim, a verdade. seu objeto de desejo estava no Reino do Vinagre. É exatamente onde nossa história começa...
   

     "Num lugar muito distante e pouco conhecido, existia um pequeno reino. Em todo mundo, pouco se falava sobre ele, devido a sua pequeneza e insignificância. Sua história passou despercebida pelos ouvidos curiosos da Humanidade, não tornando digna de nota nada que se referisse ao pequenino reino. Na sua trajetória de vida, nunca fora um grande país, com as pompas de feitos históricos como guerras, colonizações ou tratados. Nada que lhe fosse digno de atenção."
Episódio 3 - No Sopé das Montanhas Sem Cume


     Esse era o Reino do Vinagre, um lugar ao pé das Montanhas Sem Cume, próximo aos mares gelados do norte. Em meio a tantas casas, aldeões e afazeres, o Sr. Gornef vivia uma vida de dores e lamentos. Um joalheiro aposentado que, para passar o tempo, praticava o mau-humor, presente dado a ele quando sua filha, Enid, morreu. Mas ele não ficou só. A despedida de sua filha deixou uma lembrança, uma linda lembrança. Rheita, a netinha cuja mão carregava uma cicatriz em forma de 'S', um símbolo que despertava em Gornef uma preocupação tremenda quanto ao destino que levaria sua pequena.
     Assim cresceu a menina. Rheita, desde muito nova, fora "adestrada", sabia que deveria sempre usar uma luva para esconder sua cicatriz, mas jamais soubera o porquê, e fora ensinada pelo silêncio de seu avô a nunca perguntar sobre isso.
     Mas ela estava crescendo e, como toda criança, as curiosidades aumentavam. Rheita, no entanto, pouco conseguia do Sr. Gornef, mas sempre encontrava um jeito de chegar às respostas ou, pelo menos, farejar uma pista que fosse. era muito esperta para sua idade, ainda que não conhecesse nada além dos limites de sua casa.
     Mas o destino acabara de molhar sua pena e, cuidadoso, começou a escrever um novo destino para aquela pequena família. O Sr. Gornef convenceu-se de que seria uma boa ideia voltar ao ofício de joalheiro, e não tardou a abrir sua oficina novamente e, tempo depois, passou a buscar por um ajudante. E não tardou a encontrá-lo.
     Gornef contratou um sujeito que não era da cidade. Kaspar, um homem calado que escondia uma sombra de interesse no rosto. Rheita, desde o começo, não gostou do ajudante. Ela podia ver naqueles olhos algo muito mais perigoso do que a simples habilidade em reparar jóias. Adeliz, a confeiteira e amiga, também não via naquele homem um ar muito confiável, mas não se comparava à insatisfação da neta do joalheiro.
     Rheita, certa vez, flagrou Kaspar vasculhando a casa do joalheiro, e desde então descobriu que havia algo naquela casa, algo muito valioso que o sujeito queria. Alertar o avô estava fora de questão, ela jamais seria ouvida. A menina sentiu que precisava fazer alguma coisa.
     Em uma de suas caçadas, no intento de encontrar o que quer que fosse antes de Kaspar, Rheita entrou no quarto proibido, o lugar onde, um dia, servira de leito para a sua mãe. Em sua busca insistente encontrou, debaixo do piso, uma caixa verde. Naquele momento, descobrira um passado romântico que rondava Enid e Domik, os pais de Rheita. Não apenas isso, em meio ao pó e segredos, havia um mapa. Não um mapa completo, mas apenas sua metade. Era aquilo que Kaspar queria. Era aquilo que Rheita deveria proteger.
     O destino moveu sua pena, e permitiu, pela primeira vez, a liberdade da menina. Em um dia de muito aperto no serviço de Gornef, ele permitiu que a neta saísse de casa e fosse até o relojoeiro. Rheita, num frenesi inexplicável, sentiu seus pés tocarem, pela primeira vez, um chão que não fosse o amadeirado de sua casa. Era terra, e seus olhos vagavam pela multidão que enchia a Rua dos Artesãos, os mercados lotados e mercadorias à venda. Rostos, inúmeros, um mundo que Rheita jamais tivera permissão de conhecer.
     No caminho, a menina deu de encontro com um sujeito obscuro, coberto por uma capa e tomado por uma atmosfera de terror que a neta do joalheiro tão bem conseguia pressentir. Mas o homem desapareceu na multidão e ela retomou seu caminho, ainda receosa.
     Logo conheceu Kiel, o menino gago filho do sapateiro. Uma amizade estabeleceu-se no mesmo instante, com uma naturalidade simples e fácil, como dois amigos que prometem uma parceria cheia de aventuras um para o outro. O menino contou à Rheita sobre um sujeito de capa que caminhava pela cidade, o mesmo que ela havia esbarrado. Confidenciou ainda que Kaspar, o ajudante de joalheiro, encontrava-se com a figura estranha durante a noite, e ouvira coisas sobre a metade de um mapa, chaves escondidas em um homem de nome Domik. No mesmo instante Rheita reconheceu o nome como o de seu pai. O destino não deu descanso à sua pena, nem por um segundo.
     Ao lado de Kiel, Rheita decidiu que era hora de fazer alguma coisa. A simples ideia de poder ver o seu pai dava-lhe coragem o suficiente de abandonar o avô e sair em busca das chaves, antes de seu inimigo, e em busca de Domik, o pai que abandonara a filha por motivos que ela desconhecia.
     Munida de um mapa mágico, um cavalo de nome Bravo, algumas provisões e um amigo gago, Rheita precisa se enfiar uma jornada cheia de perigos e segredos, atravessar a Floresta dos Pinheiros e correr em busca das verdades. E vai descobrir que sua luva era apenas mais uma máscara para esconder outro segredo que a rondava.

     Lagoena é o tipo de história que sustenta todos os elementos que vimos nos clássicos da Literatura fantástica. Com uma narração densa e poética, Laisa C. consegue prender seu leitor e transportá-lo para um universo alternativo, num passado medieval fantástico com magia, segredo e criaturas sombrias. Em algumas vezes, enquanto lia, consegui pensar em Tolkien e Rothfuss. Para mim, Lagoena é a mais sólida prova de que a LitFan brasileira merece nossa atenção!

     Se você gostou da trama de Lagoena, eu tenho uma ótima notícia: você pode ler! A obra de Laisa C. tem seus capítulso publicados semanalmente no site BookSerie, um site voltado para a publicação de histórias que levem um formato similiar ao dos seriados te TV. O mais legal é que você pode acompanhar a história sem preocupação, pois cada capítulo, ou melhor, episódio é publicado por semana.
     Lagoena já tem a primeira temporada completa, com 14 episódios, e a segunda temporada já começou a todo vapor com 2 episódios. Clique aqui e leia essa incrível história!

     Meu próximo passo é fechar parceria com a Laisa, vamos torcer para que ela aceite^^! Não deixem de conferir!
   
     Grandea abraço, pessoal!
     Fiquem na Paz!  



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Editora Novo Conceito - Para Sempre, da estante para as telonas!

Alô, amigos inspirados!

     Pra quem curte um bom filme e, de quebra, ama um livro de não-ficção, Para Sempre é uma boa pedida!
     O livro foi escrito pelo casal Kim e Krickitt Carpenter, e relata um denso e dramático momento de suas vidas, quando ainda eram recém-casados.
     No dia 24 de Novembro de 1993, dois meses após o casamento, o casal sofreu um acidente, que lesou seriamente a jovem Krickitt. Ela acordou no hospital e, para surpresa de Kim, sua esposa não se lembrava dele. O período mais recente da vida de Krickitt fora apagado. Seu casamento, seu marido, nem ao menos conseguia se lembrar de tê-lo conhecido.
     Numa jornada que exigiria muita paciência e amor incondicional da parde de Kim, ele precisará reconquistar sua esposa novamente, tudo para não perder a mulher que escolheu para envelhecer ao seu lado.

     A hitória foi adaptada para o cinema, e o casal é protagonizado por Channing Tatum e a awesome Rachel McAdams. Confiram o trailer:



     O filme estreia no Brasil no dia 23 de março, mas se você não tem paciência pra esperar e, como eu, prefere conferir o livro antes de se aventurar no longa, há uma solução. O livro Para Sempre já está a venda, e leva a marca da Editora Novo Conceito!

http://www.cinepop.com.br/cartazes/vow_1.jpg
Cartaz do filme, exibido nos EUA

 Cenas do Filme:


http://www.cinemenu.com.br/noticias/wp-content/uploads/2012/01/Filme-para-sempre-imagem-Rachel-McAdams-Channing-Tatum-7.jpg http://www.interfilmes.com/FILMES/25400/25469/fotocena2.jpg 
http://media.adorocinema.com/media/film/images/7698/1328829142_parasempre5.jpg http://media.adorocinema.com/media/film/images/7698/1328829143_parasempre4.jpg http://media.adorocinema.com/media/film/images/7698/1328829142_parasempre1.jpg


Mais informações sobre a obra publicada, você pode obter no site da Novo Conceito. Clique AQUI e confira todas as informações do livro.

     É isso aí, moçada! Espero que tenham curtido. Para Sempre tem cheiro de sucesso, especialmente por ser baseado em fatos reais. Pra gente ver que bons romances não existem apenas nos rolos de filmes produzidos em Hollywood xD

AH, e fiquem ligados! Em breve teremos promoção do livro aqui no blog! 

Grande abraço a todos, fiquem na Paz!

Enquanto as Salamandras brincam


                O cheiro de dálias dançava no ar, acompanhado pelo hálito quente que brotava da garganta escura da floresta. Folhas amarelas brincaram na noite, seguindo fielmente o caminho indicado pelo vento. Pétalas azuis faziam o mesmo, misturando-se entre a fuligem cintilante. Uma carruagem, agora reduzida a carvão e lona puída, crepitava seu último fôlego de chama na encosta da estrada.  Ao lado, uma placa fincada às pressas indicava um caminho entre as árvores. “Simmeah”, era o que diziam as letras riscadas com pedras de calcário.
                Vultos disformes embrenhavam-se nas copas das árvores. Os galhos mais baixos guarneciam silhuetas humanoides cobertas por túnicas tão negras quanto a própria noite sem estrelas. Não era possível ver nada além das chamas tímidas que queimavam a madeira. No horizonte da estrada, uma luz amarela e rala aproximava-se em velocidade constante, indicando uma segunda carruagem.
                Os vultos estremeceram, e um chiado brotou da noite, como uma gargalhada rouca e malevolente. Uma coruja piou indiferente, mas bastou o ar assobiar para a ave cair dura no chão, um dos olhos perpassados por uma flecha confeccionada com penas de abutre. A carruagem aproximava-se a alegria doentia da noite aumentava.
                Já não era apenas uma luz no horizonte. As rodas de faia protestaram diante da estrada acidentada, aproximando a carroça cada vez mais das árvores cujos galhos abrigavam os vultos.  As cinzas azuladas misturaram-se na poeira levantada pelo carro e, num ímpeto calculado e já bem praticado, os vultos saltaram de seus postos, pousando no chão como se fizessem aquilo todos os dias. E bem o faziam. Não eram chamados de saqueadoras por mero capricho.
                Os cavalos assustaram-se com a aparição repentina da pequena quadrilha coberta de preto, e ergueram suas ferraduras, mas era inútil. Dois saqueadores, os maiores do bando, aproximaram-se dos animais e seguraram suas rédeas, e os cavalos cederam sem pestanejar. O Cocheiro, cujo rosto estava escondido por uma grande cartola de camurça, manteve sua cabeça baixa.
                Os saqueadores observaram a reação. Ficaram intrigados à princípio. Normalmente os cocheiros eram os primeiros a abandonarem a cena, correndo pela mata e aparecendo dias depois em um vilarejo próximo, onde passariam o resto de seus dias em uma taberna servindo brutamontes e bárbaros que lutavam em nome de seus reis.
                Mas aquele homem manteve seu posto. Um dos saqueadores aproximou-se, dando passos decididos. Ao que parecia, era o líder do bando. Sua cabeleira negra estava amarrada em um rabo de cavalo, seu rosto quadrado e áspero desenhado por um cavanhaque cheio de falhas. Seus olhos verdes e miúdos faiscavam nas órbitas, encarando o sujeito da carruagem. O líder ergueu um lampião a óleo, de forma que a luz banhasse o chão, mas mantivesse ocultas as faces, inclusive a do cocheiro.
                - Um homem de coragem – falou em tom debochado. A voz do saqueador era tão fria quanto a noite, e sua risada dizia que não se importaria em matar um cocheiro metido a herói, caso demonstrasse alguma resistência – Muita coragem, devo dizer. Mas, sabe, eu costumo cear coragem antes de uma boa noite de sono. Mantenho os covardes vivos. Normalmente eles fazem um chá de freixo como ninguém.
                Seus comparsas deram gargalhadas, e a noite inundou-se de risos estridentes. Mas nem mesmo as ameaças implícitas provocaram qualquer reação no cocheiro. Os risos cessaram, e o líder pareceu levemente irritado.
                - O que foi? – perguntou ele, adicionando uns dois passos à frente – o gato comeu sua maldita língua? Porque isso seria uma pena. Meu amigo Teru, bem aqui, adora comê-las. Mas tudo bem, diga-me para onde foi o gato, nós o defumamos e o deixamos partir em paz... Sem o seu ouro, é claro.
                Novas risadas abraçaram a floresta, e duas outras corujas piaram. Um guaxinim correu pela estrada, como se pressentisse o perigo. Na verdade, até mesmo a própria escuridão parecia se afastar da estrada, como se temesse ser engolida por algo muito mais obscuro do que o próprio breu.
                - Bem, permita-me. – o chefe da quadrilha pigarreou e desenlaçou sua capa de couro, deixando que o pano pesado caísse sobre a grama – meu nome é Felnor. O Grande Ladrao.
                E, dizendo isso, virou de costas, exibindo uma marca vermelha em sua nuca. Parecia ter sido marcada a ferro, como um gado é marcado para não se misturar aos outros. A carne avermelhada parecia pulsar.
                A cicatriz era um círculo cujo interior estava marcado por uma forma octogonal, como o brasão de um reino, ou uma infantaria. Era difícil saber, mas ainda assim, era intimidador. Felnor voltou-se para sua vítima, esperando qualquer coisa, um tremor ou uma súplica. Mas nada aconteceu. Ele esperou, e o cocheiro nada disse. De repente, seu silêncio e sua postura inquebrável parecia zombar da eficiência do Grande Ladrão e seus bárbaros.
                - Ora, seu patife! – o líder indignou-se. Nunca fora ignorado, sempre conseguia arrancar lamúrias ou protestos covardes de suas vítimas. Mas aquele homem não esboçava nenhuma reação. Estava congelado no assento. Imóvel – Quer morrer agora, ou prefere que eu arranque seus culhões e o faça engoli-los? Diga alguma coisa, homem!
                O líder ergueu o lampião, transtornado, e a luz banhou as dezenas de rostos. Inclusive o cocheiro.
Uma massa de pele. Era apenas o que havia ali. Lisa, sem olhos, nariz ou boca. Uma pele pálida e oval, como um rosto que não fora retocado com outros detalhes importantes, como a capacidade de falar, enxergar ou cheirar. Mas havia orelhas. Duas discretas fendas nas laterais do que deveria ser uma cabeça. O cocheiro, descoberto, ergueu o queixo, e a cartola escorregou sem cerimônia.
                - AREEEEEEEEEEEE!
                A floresta recebeu os gritos de espanto dos homens de bom grado. Provavelmente não queria contrariar a figura grotesca que ocupava o lugar de cocheiro. O líder, trêmulo, manteve suas mãos firmes, o lampião por pouco não caiu. Era um saqueador bem vivido, esperto, sabia como era importante a iluminação naquele momento. Se fosse preciso lutar, deveria saber onde estava enfiando sua espada.
                Lançando mão no interior de seu colete de malha de aço, Felnor desembainhou uma espada longa e fina, como um florete, porém levemente mais grosso. A espada respondeu ao movimento com um reflexo prateado dançando no ar, pronto para o ataque.
                - Criatura inferior! – bradou Felnor, nitidamente alarmado – somos muitos, não pode conter nossa fúria. Tome seu caminho, mas deixe-nos. Não nos obrigue...
                - Shhhh...
                Uma voz, não se sabia de onde, chegou aos ouvidos dos saqueadores.
                O pedido de silêncio viera do interior da carruagem, e o timbre da voz lembrava o de uma mulher, jovem e, curiosamente, morta. Eles não sabiam explicar como ou porquê, mas a sensação de estar ouvindo a voz da morte golpeou-os de forma inusitada. A novidade deixou-os aturdidos, incapazes de reagir.
                - A coragem é um elemento substituível, como o iodo em uma experiência que não deu certo – a voz feminina continuou, abafada por estar confinada dentro do carro, mas sabiamente escapava pelas frestas – um homem sem coragem alguma armado com fogo e pólvora enfrentaria um bando de ladrões. Mas a covardia... Esse elemento não se extrai de mineral algum. E ainda assim é como ferro derretido. Você pode forjar uma espada, ou pode produzir algemas. Pode usá-lo como arma, ou se prender na própria fraqueza.
                Os homens não ousaram responder. A maioria por ser burra demais para acompanhar o discurso sombrio. Felnor, por outro lado, sabia muito bem que a mulher, fosse quem fosse, usava de suas palavras para zombar do bando. O cocheiro estremeceu, e sua face lisa enrugou levemente, como se... Temesse algo.
                A porta da carruagem rangeu, e a fuligem fugiu de encontro às raízes das árvores. A voz soou, dessa vez mais nítida:
                - Peço que não se incomodem com Holt. Meu fiel cocheiro não pode vê-los, nem mesmo sentir o fedor de vocês. Mas consegue ouvi-los perfeitamente. Pode até ouvir o que estão pensando.
                A cabeça de Holt inclinou-se, afirmativamente.
                - Quem... – Felnor tentou buscar sua voz em algum lugar. Seu estômago formigou e ele suspeitou que estivesse ali, mas logo percebeu que estava com medo. Petrificado de horror – Quem é você?
                Um sapato vermelho reluzente tocou a terra úmida. O salto cravou em uma folha, galhos estalaram e a barra de um vestido vermelho e escarlate escorregou para fora da carruagem. A mulher acabara de deixar seu assento confortável no carro de faia. Ao fechar a porta, revelou-se uma jovem.
                Cabelos negros tão intensos que seu brilho azulado parecia vivo e indiferente à luz tosca dos lampiões, agora acessos por vários saqueadores assustados. Sua pele era branca como poderia ser o próprio mármore. Linhas arroxeadas revelavam veias pulsantes em seu rosto, assim como suas mãos e braços nus. Apenas um espartilho de couro cobria seu tronco, sustentando uma silhueta que, se não fosse em tais circunstâncias, seria sedutora. O vestido arrastava-se no chão a medida em que ela dava passos suaves à frente. Seus olhos estavam ocultos por uma máscara de ferro, cujos parafusos pareciam ter sido perfurados em suas têmporas. Uma linha de sangue seco marcava as orelhas expostas.
                Um dos homens de Felnor armou seu arco e apontou a seta na direção da mulher. Ela sorriu, encantada com a inocência do brutamonte imenso e barbado. Seu sorriso provocou a sensação de se estar vendo uma placa de gelo fendendo ao meio. Era frio, cruel e simples. Como a própria morte poderia ser numa noite como aquela.
                - Eu tenho muito ouro – a mulher falou, sua voz banhou as árvores e, em resposta, elas farfalharam – e jóias, vejam. – exibiu longos dedos finos e adornados com anéis pesados – ouro, diamante. Safiras e esmeraldas. Viajei mundo afora em busca de meu tesouro.
                - Não queremos seu ouro – falou, decidido, o líder do grupo – queremos ir em paz. Teru, abaixe essa maldita flecha.
                O grandalhão hesitou. Olhou de seu chefe para a mulher misteriosa, dos cavalos para o cocheiro sem rosto. era surreal, mas fácil. A flecha estava apontada na direção da mulher. Bastava soltar a corda, e aquela maldita voz mortiça se calaria para sempre. Era, pelo menos, o que ele queria.
                - Teru, seu imbecil – Felnor falou em tom urgente – abaixe esse arco.
                - Mas... Chefe... Eu a tenho na mira – ele murmurou, enquanto grossas gotas de suor formavam-se em sua testa porosa – é só dizer, e eu disparo.
                - Eu disse abaixe esse arco.
                Mas Teru não o fez. Seu ímpeto de guerreiro e medo inexplicável comandava seus nervos e tendões. Soltou a corda, e a flecha cantou no ar.
                Uma flecha poderia viajar muitos metros em um segundo, perfurar escudos e, com sorte, um tronco de árvore. Mas, em nenhum momento, ela poderia fazer uma curva tão sinuosa. Não como aquela. Não aquela curva rápida e irrepreensível, enquanto a seta mudava seu curso, e a ponta afiada atravessava o olho esquerdo de Teru, invadindo a órbita de seu crânio e fazendo um estrago interessante. A ponta de metal varou pela nuca. E o corpo imenso do saqueador pendeu para o lado, como um saco de feno. Bateu no chão com um baque surdo e não se mexeu mais.
                Não houve grito, ou ruído de pavor. Apenas expressões petrificadas, como se o próprio mal estivesse encarnado ali, bem na frente deles. Uma flecha não fazia curva. Homens não podiam não ter rostos... E a morte não deveria ser capaz de falar.
                - Eu não sou a morte – informou a mulher, rindo divertida – não é o tipo de cargo que me atice a tentação. Sabem, ser a morte é assumir o compromisso de respeitar as decisões, responder ao tempo certo de cada um, conforme suas escolhas. Eu... Bem, eu não me importo com o que as pessoas escolhem. Eu faço o que faço e ninguém me questiona. Eu sou Quantëe.
                Dito isso, um homem berrou. No meio do grupo de saqueadores, um dos ladrões fora arremessado para o alto, sumindo na escuridão. Todos se afastaram e, involuntariamente, Felnor abraçou sua lamparina, sentindo sua urina escorrer pela calça de pano.
                - Vocês são os homens que andam apavorando o trecho de Simmeah, não são? – perguntou Quantëe, entediada Simmeah é uma cidade maravilhosa, e me incomoda saber que outros viajantes sejam privados desse prazer, tudo porque uma escória como vocês precisam atender a caprichos gananciosos.
                - Nós não... – Felnor perdeu sua voz. Não por medo. Subitamente, sentiu sua boca formigar, e inúmeras e minúsculas perninhas escamosas começaram a tatear sobre sua língua pesada – gahhh...
                Sua voz morreu. No lugar dela saiu de sua boca inúmeras salamandras. Pequenas como uma jóia, reluzentes como os próprios cabelos de Quantëe, porém asquerosas como a própria morte o seria em seu estágio mais apavorante. Felnor sentiu seus joelhos cederem e, sem resistência, caiu. Tentou apoiar-se com as mãos, mas elas também formigavam. Sua pele revolvia como um lençol atiçado pelo vento, inúmeras salamandras caminhavam abaixo da derme do saqueador, perfurando seus vasos e mordiscando tendões, arrebentando os músculos e roendo as cartilagens.
                Felnor desejou ser capaz de gritar, mas sua boca estava entupida de pequenos anfíbios. Os olhinhos das salamandras refletiam uma luz verde tremeluzente, e na noite densa, a impressão era de que o saqueador estava vomitando vaga-lumes.
                A terra, fofa e umedecida pelo ar molhado, iniciou uma dança, um pequeno tremor que só se podia sentir com muita observação. O solo se abriu em inúmeras fendas, e outras milhares de salamandras minúsculas caminharam pelas pernas dos ladrões, agora apavorados.
                Ninguém se incomodou com o corpo inerte de Felnor, reduzido a ossos e pele carcomida, uma figura cadavérica. As salamandras abandonaram o corpo disforme do líder e correram, travessas, para as outras vítimas, que nada podiam fazer a não ser gritar e ter suas pernas decepadas por mordidas fervorosas.
                - Vamos embora, Holt – falou Quantëe, retornando ao seu assento na carruagem – deixe as salamandras brincarem, enquanto tomo um bom banho quente. O clima dessa floresta não favorece minha beleza singular.
                Holt acenou positivamente e, num chacoalhar rápido da rédea, os cavalos iniciaram a caminhada, passando pelos corpos devorados e ignorando as salamandras que queixavam-se antes de serem esmagadas por cascos pesados.


Trecho de Sioh, O espelho de Requiem
por Pedro Almada

               

Sorria


  E se esse fosse seu último dia, essa fosse sua última respiração, seu último momento? Com quem estaria? O que faria para se redimir? O que lhe esperaria? Será que suas crenças se provariam certas?



  A única coisa que podemos concluir neste minúsculo parágrafo é que o animal mais impulsivo de todo o reino, é extremamente frágil.
 
  Será que conseguirei terminar esse texto antes de algo acontecer? Talvez. Então viva, mas lembre-se acima de tudo o quanto você é submisso, frágil e indefeso.

  Arrisque, chute, tente acertar por mais impossível que pareça, afinal, você errou 100 % das flechas que não atirou. A morte vem para todos. Mas somente alguns conseguem se despedir dos seus amores. Então vá, e se redima, faça tudo para conquistar um sorriso.

 Dê um beijo como se fosse o último, dê um abraço como se fosse o último, sorria como se fosse o seu último sorriso. Porque, afinal, pode mesmo ser.
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos