Requiem - O Relojoeiro da Rua dos Inválidos

'Simbora", moçada! Hoje eu tô animado, porque, afinal, consegui finalizar um capítulo de Requiem - O Relojoeiro da Rua dos Inválidos. Para quem não viu, eu já tinha falado um pouco (remotamente, na verdade) sobre a história, uma que comecei a escrever semanas atrás.
A atmosfera dela é bem ampla, pois gira em torno do fúnebre, o cômico, a aventura frenética, enfim... Uma mistura que, penso eu, combina muito bem xD
Se você não viu a matéria anterior, dá uma conferida '>aqui<'!

E, claro, eu não poderia deixar de compartilhar isso com vocês. Por isso dessa vez eu vou postar o primeiro capítulo. Se você gosta de ambientações mais frias, vai gostar dessa aqui!

 Requiem
O Relojoeiro da Rua dos Inválidos

               


Capítulo 1 – Descanse em paz

                Quantas e quantas vidas miseráveis caminham por trilhas tortuosas todos os dias, travando batalhas que não podem ser vencidas, submetendo sua resistência às fraquezas humanas. Para todos esses males, dizem que cada um possui um protetor, um anjo da guarda, talvez. Alguns possuem asas, outros estão presos ao chão. Alguns caminham, outros cavalgam. Correndo ou voando, no entanto, há aqueles que esperam por ajuda, mas ela nunca chega.
               
Na mansão de quase duzentos anos de existência no subúrbio de São Paulo, construída na orla do Parque da Cantareira, o protetor esqueceu-se de sua tarefa. Foi quando Verônica percebeu que precisaria sujar as suas mãos se quisesse viver. Ou, pelo menos, não morrer.
                O sol decidiu não acordar, deixando a tarde à mercê do cinza opaco que encobria a cidade como um manto fúnebre. A promessa de chuva era ume co distante, mas, quem quer que olhasse o horizonte, facilmente saberia que o eco em breve seria um grito descomunal a desabar em grossas gotas de tempestade.
                As portas da mansão estavam fechadas, assim como as janelas estavam protegidas por cortinas escuras. A claridade vespertina estava impedida de penetrar nos domínios da residência, e a mesma cortesia era aplicada aos olhos curiosos. Não se podia ver nada além de uma construção antiga com janelas e portas de madeira negra, paredes desgastadas e um longo corredor de terra ladeado por folhagens desde a entrada - um grande portão de ferro chumbado num muro de tijolos nus - até a varanda onde um pequeno balanço branco e samambaias faziam a decoração de forma simplista.
                Sombras no interior da casa eram vistas passando de um lado a outro através das cortinas, cuja obscuridade era comprometida por luzes amarelas que brotavam de alguma luminária. Do outro lado da porta, salvo da curiosidade da pequena vizinhança, um homem caminhava pelo saguão. Suas feições eram duras, com prováveis cinqüenta anos desenhados em rugas sobre os lábios e no contorno dos olhos. A julgar pelo seu passo apressado e cíclico, ele parecia impaciente, ou talvez preocupado. Por vezes deslizava a mão sobre os cabelos grisalhos, fechava os olhos e, quando os abria, o tom castanho de suas íris cintilava cheio de expectativa.
                - Eles vão nos alcançar... – murmurava o homem, andando em círculos – vão nos alcançar... Depois disso, céus! Não sei mais o que fazer! Sinceramente não sei! Verônica! Verônica, minha filha! Vamos logo com isso!
                O homem voltou-se para a escada e, gritando contra o segundo andar, chamava por Verônica. Não havia resposta, o que deixava o homem ainda mais ansioso. Ele socou o corrimão, arrependendo-se logo em seguida quando a dor atravessou os nós dos dedos e chegou o cotovelo. Havia mais medo do que ira em seus gestos, e o atraso de Verônica piorava a situação.
               
                Entrementes, uma garotinha no quarto, no patamar superior da casa, vasculhava um pequeno baú encapado com couro cru, em busca de qualquer coisa mais importante do que o chamado eufórico do pai. A primeira coisa que suas mãozinhas tocaram foi um pequeno espelho circular de moldura em ouro. As bordas reluziam em resposta à luz tênue do quarto, exibindo linhas florais desenhadas que se encerravam nas asas de uma pequena harpia de ouro acima do espelho, pousada eternamente e compondo a moldura de luxo.
                Verônica fitou o próprio reflexo, e não viu alegria alguma no rosto infantil que chorava. Os cabelos levemente acobreados pendiam em forma de cachos, os olhos castanhos estavam cobertos por uma cortina de lágrimas. O rosto enrubescia a cada tentativa frustrada de contê-las, mas rendeu-se logo. Sua visão ficou turva e nem mesmo os gritos de alerta do pai poderiam impedi-la de se entregar ao seu particular momento.
                Verônica não entendia os motivos da mudança, tampouco aceitaria ser arrancada de sua cidade e carregada contra sua vontade até uma província minúscula na Escócia. Não queria, jamais, ir ao lugar onde enterrou sua mãe, não queria abandonar a única casa que lhe dava a sensação de estar segura. Ali, em São Paulo, o único lugar onde receberia proteção. Isso era o que ela pensava.
                Recolocou o espelho dentro do baú, prendeu-o com um pequeno cadeado e reforçou com uma fivela vermelha. Com a caixa em mãos,lançou um último olhar ao seu quarto, despedindo-se silenciosamente.
                - Meu coração, minha mente... – murmurou ela – estão aqui. Eles sempre estarão não importa o que eu faça, não importa o quão longe eu esteja... Mamãe entenderia, se ela estivesse aqui.
                Verônica olhou pela janela, onde o quintal, agora reduzido a terra revolvida, trazia em sua mente boas lembranças, quando a árvore secava-se e o chão era tingido de amarelo, as cigarras cantavam e os sons dos bem-te-vis ecoavam pelas copas das árvores ao embalo do vento. Seus olhos voltaram-se ao papel de parede lilás com flores branca, sua cama com forro de tom salmão e sua escrivaninha de sucupira. Seria a última vez que aquele cômodo se enquadraria em seu campo de visão. Seria o último dia de sua vida em que possuiria um lar e, para Verônica, era um fato que pedia tempo para ser absorvido.
                Mas o destino não lhe deu tempo algum.
                O som estridente de algo se quebrando chamou a atenção de Verônica. Ao que parecia o som provinha da varanda, que poderia ser vista parcialmente pela janela. A garota correu até o beiral da janela e procurou pela movimentação do lado de fora da casa. Não viu nada, mas avistou a luminária do jardim quebrada. As faíscas tremularam antes se extinguirem completamente, prometendo ao jardim uma noite de breu total. Verônica colou o rosto no vidro, mas sua respiração rápida e nervosa embaçou a visão. Esfregou furtivamente a superfície lisa para enxergar melhor, e prendeu a respiração para não comprometer a visibilidade. Observou, então, que alguém estava na varanda. Um vulto alto e troncudo parecia esperar na porta, ou parecia forçar a maçaneta, era difícil dizer àquela distância.
                - Papai! –Verônica gritou contra a porta, sem tirar os olhos da figura invasora – Papai, tem alguém na porta! Papai?
                Ela não obteve resposta. Tentou mais uma vez, dessa vez chamando por outro nome bastante familiar.
                 - Cassandra! Cassandra, você está aí?
                Não houve resposta.
O silêncio tinha dois significados na vida de Verônica.
O primeiro era paz, mas ela sabia que, desde o assassinato de sua mãe, o termo “paz” fora extirpado de sua vida permanentemente. O segundo era o mais provável, o que fez seu estômago revirar. O segundo significado do silêncio era morte.
                Já não lhe valia de nada o vulto à porta. Fosse quem fosse ele não era o único e, naquele momento, depois de ouvir o silêncio de todos os cômodos em protesto ao abandono, Verônica compreendeu que alguém mais estava em sua casa. E não era uma visita amável.
                - Papai! Papai!
                Com seu baú infantilmente decorado debaixo do braço, a garota correu corredor a fora, abandonando seu quarto sem uma última despedida, disparou pela escada e, lançando seus pés degrau após degrau, ela chegou ao saguão. Seus olhos dançaram pelo cômodo, ignorando os quadros antigos, a mobília antiquada e o papel de parede fúnebre. Desprezou o grande elmo de ouro que reluzia sobre a lareira e nem se deu ao trabalho de admirar o lustre de cristal que pendia sobre sua cabeça. Ela procurou desesperada, até que, finalmente, encontrou quem procurava. E seu mundo perdeu as cores. Era tudo cinza, gelado, de tal forma que até mesmo os mínimos sons foram varridos de sua mente. Ela havia mergulhado em um mundo terrível.
                Seu pai estava caído no chão, inerte. O homem que, minutos atrás chamava por seu nome, tinha sido sentenciado com a pior das punições. A morte. Mas o castigo não era dele. Verônica era a ré de tamanho juízo que cobria sua casa e, aos poucos, seu coração.
                Verônica correu em direção ao pai, atirou-se ao seu lado, deixando de lado seu pequeno baú, que já não tinha tanto valor. Ela temeu aproximar-se mais e, ao olhar o rosto do pai, descobrir o pior.
                - Cassandra! – gritou Verônica em completo desconsolo, pouco se importando com as lágrimas que enchiam seus olhos – Cassandra! Por favor! Cassandra...
                A voz da menina foi morrendo aos poucos, como se o volume de um rádio fosse abaixado gradativamente até não sobrar nada além de um sopro discreto provocado pela estática. Verônica fitou a porta de entrada, agora aberta, onde uma figura imensa oculta pelas sombras encarava a criança debruçada no corpo do pai. Verônica arriscou outro clamor em nome da governanta da casa, mas suas cordas vocais perderam a batalha contra o medo.
                O vulto deu um passo, não com violência, mas cauteloso, como se esperasse pela reação da criança. A resposta de Verônica foi a mais esperada. Ela estremeceu, encolhendo-se sobre o peito do pai, e o desconhecido pareceu achar graça daquele gesto desesperado e impotente. No momento em que Verônica inclinou-se em direção ao seu pai, alguma coisa espetou-a, algo pontiagudo no interior do bolso do casaco de seu pai. Ela parou por um breve momento, sentindo a fisgada incômoda e uma sensação ainda mais mortiça do que a presença de um invasor assassino.
                - Criança... – a voz do desconhecido era arrastada e sibilante, como um pesadelo turvo no meio da noite – A criança...
                - O Que você quer? – sussurrou Verônica, percebendo que fracassara miseravelmente ao tentar entoar uma voz furiosa e desesperada. Não havia fôlego. – O que você quer...
                O homem aproximou-se mais, dessa vez rindo uma gargalhada gutural, como se viesse de todos os cantos da casa. Verônica sentiu-se acuada, não havia para onde correr, e não seria capaz de deixar o pai ali, estirado no chão, ainda que estivesse morto. Mas esse fato não chegou a pesar no coração da menina que, naquele instante, estava tomada pelo pânico.
                - Não se aproxime... – murmurou ela, enfiando a mão no bolso do paletó de seu pai, e sentiu seus dedos tocarem uma superfície gelada e lisa de textura metálica. Um fio de esperança perpassou o coração da menina, certa de que o objeto era uma faca, algo que pudesse protegê-la do invasor, caso o homem se atrevesse a avançar os passos.
                - Não vou... Matá-la... Criança... – a voz ganhou um tom mais humano, mas permanecia intimidadora – não eu... Não hoje...
                O assassino aprumou o corpo e, num movimento rápido e perito, deslizou na direção de Verônica. A garota puxou a lâmina do bolso e, num movimento de puro reflexo, direcionou a lâmina contra seu adversário, pronta para cravar a ponta da faca no rosto de seu atacante. Mas não foi isso que impediu o estranho de avançar.
                Um som de um disparo surdo retumbou pelas paredes, o eco se propagou pelos corredores, dando a impressão de que outros disparos eram realizados, cada vez mais longe. Mas fora um único e certeiro tiro, suficiente para abrir um buraco carnoso no peito do inimigo, que tombou sobre os joelhos, encolheu-se em posição fetal e gemeu infantilmente, enquanto sua imponência assassina esvaía na medida em que o sangue escorria do peito lacerado.
                A criança, debruçada sobre o corpo vazio do pai, encarou a cena com pavor, assistindo, pela primeira vez, um homem agonizando de dor, desejando estar vivo. Ela perguntou a si mesma se seu pai sofrera o mesmo tratamento antes de ser silenciado.
                - Verônica! Céus, Verônica!
                A voz feminina e urgente chamou a atenção da garota, que se virou, apavorada, para encarar uma mulher esbelta na entrada do saguão. Era morena, de olhos negros muito vivos e alarmados, trajava um vestido verde-oliva e sandálias de couro que lhe davam a impressão de ter passado o dia em um parque ensolarado. A mulher segurava uma espingarda bem apoiada sobre o ombro, manuseando a arma com certa experiência.
                - Cassandra! – Verônica se permitiu sorrir, mas engasgou ao perceber que não era um motivo convincente para esboçar qualquer alegria – Cassandra, você...
                A mulher correu em direção à menina, abandonando sua arma no meio do caminho, e abraçou Verônica, como se isso pudesse carregá-las para bem longe da tragédia. Mas a postura maternal da mulher fora diluída ao ver o dono da casa caído inutilmente, feito um boneco de trapos. Os olhos de Cassandra correram sem rumo pelo saguão, desejosos por encontrar algo que Verônica não sabia, até pousar decididos sobre uma adaga embainhada por uma capa de couro, nas mãos de sua protegida.
                - Isso estava com o seu pai? – perguntou Cassandra rapidamente, lançando um olhar para o corredor dos fundos quando o som de porta se batendo ecoou – Essa agada, querida, estava com o seu pai?
                - Sim, Cass. – respondeu a menina, atordoada – e eu, por um momento, queria ter enterrado a lâmina nesse...
                Sua voz sumiu. Ela se deu conta do que estava prestes a dizer, mas não ousou terminar sua frase. Um peso instalou-se sobre seus ombros, era uma sensação antes desconhecida que pressionou seu corpo contra o chão, um peso de culpa e cheio de julgamento. Verônica sabia que, se tivesse tido a chance, teria matado aquele homem, e estremeceu diante da ideia remota de ter gostado da possibilidade. Foi a primeira vez em que esteve tão perto de cometer um assassinato.
                - Verônica, minha querida... – Cassandra chamou a menina, que encarava a bainha da adaga com completo pavor – Verônica, olha pra mim...
                Mas a menina não respondeu aos chamados assombrados da governanta. De repente o corpo de seu próprio pai e do invasor misturaram-se em sua mente, formando um turbilhão de cores onde o escarlate prevalecia, ora em forma de gotas, ora em uma fonte interminável de hemorragia. Ela, sem se dar conta, estremeceu.
                - Verônica! – Cassandra bradou, segurando o rosto da menina com as duas mãos e forçando-a a encarar o rosto lívido da governanta de sua mansão, agora um lar sem nenhuma segurança – Verônica! Ouça, querida! Você precisa ir! Agora, entendeu bem?
                - Eu não posso... – as mãos da menina prenderam-se ao braço do pai, mas ele não sentiu nada, nem mesmo um toque – Eu não vou deixar meu pai...
- Verônica... Olhe bem para o seu pai. Querida, o seu pai está morto – as palavras de Cassandra foram tão eficientes quanto qualquer lâmina apta a rasgar o peito da menina.
Verônica soube, no instante em que vira seu pai, que não havia mais uma alma naquele corpo. Era apenas um pedaço de carne, a mesma carne morna que a segurou nos braços e acalentou-a no colo. Seria ódio, ou medo, ou todos os sentimentos confusos misturando-se na mente de Verônica, mas algo dentro dela provocou-lhe o ácido desejo de trincar os dentes, apertar os pulsos. Esse último gesto trouxe-lhe de volta a presença da adaga em suas mãos, ainda com o punhal reluzente.
- Querida... – a voz de Cassandra guardava uma urgência que, mais tarde, seria compreendida pela criança – querida, eu quero que você saia daqui... Escuta-me, por favor... Deixe essa casa, leve a adaga. Preciso que entregue-a a um homem chamado Pascoal Benevide. Peça abrigo, também... Ele mora no Rio de Janeiro,  na rua dos Inconfidentes.
- Cassandra! – Verônica chorou, afinal, era apenas uma criança, fraca e apavorada, seus únicos pertences eram um baú, uma adaga e o corpo inóspito que lembrava muito o seu pai – eu não posso... Rio de Janeiro! Me leva com você, Cassandra... Me leva...
A governanta deu outro abraço na menina, mas não era um gesto de compaixão. Era uma necessidade, silenciar a garota para que esta pudesse ouvir atentamente às instruções que seriam deixadas a ela. Naquela noite seu protetor estava dormindo, Verônica estava sozinha e tinha, agora, uma tarefa para cumprir.
- Essa adaga representa tudo pelo que seu pai lutou, Verônica - o tom severo, imperativo desarmou o choro da órfã – não seja covarde, menina! Não agora! Faça como digo! Leve até a rua dos Inválidos, na cidade do Rio de Janeiro! Entregue ao relojoeiro Pascoal Benevide! Ouviu bem, menina? Acha que pode se lembrar?
Verônica não respondeu. Na verdade mal entendia uma palavra da governanta, mas não sabia como reagir.
Desde o começo, quando sua vida se resumia a laços de cetim e longos minutos penteando os cabelos, Verônica sabia que o pai tinha um segredo. Desde o dia em que deixaram a Escócia, havia um segredo pairando a família Drummond, um segredo que Verônica, inúmeras vezes, tentou desvendar, mas havia uma barreira intransponível aos seus recursos limitados. Ela estava presa em um mistério que, naquele momento, acabara de matar Kirk Drummond e deixara órfã a sua herdeira. Era Verônica, a criança com uma adaga sinistra.
O ruído estridente de algo desabando nos fundos da casa sacolejou as paredes, apavorando governanta e menina. Cassandra abraçou mais forte o corpo trêmulo de Verônica, que soluçava em meio ao choro e o desejo de carregar Cassandra consigo.
- Eu não posso ir sozinha... – chorou a menina – Ainda que eu vá...
                - Você irá! – Cassandra afastou a menina, decidida, ergueu-se nas pernas trêmulas e apontou para a porta da frente que, aberta, deixava o vento mortiço invadir a casa – Se formos as duas, eles nos pegarão. Ficarei para mantê-los ocupados, e você correrá e levará a adaga! Ouviu bem, Verônica!
                A menina desistiu de questionar. Os olhos da governanta reforçavam as palavras decididas e, logo, Verônica percebeu que nada que dissesse ou fizesse mudaria a ideia de Cassandra. Ainda que mudasse, não haveria tempo.
                Um homem surgiu no corredor. Seu rosto estava coberto por uma máscara de gás cujos olhos eram duas enormes lentes espelhadas. Cassandra correu em direção à sua arma, mas não foi rápida o suficiente. Ainda que fosse uma mulher de nervos resistentes, não era párea para enfrentar o homem sinistro. Ele disparou em direção à espingarda e chutou-a com violência, e a arma escorregou ao longo do corredor, perdendo-se no escuro.
                - Ela é só uma criança! – Cassandra berrou, lançando-se contra o homem, uma atitude de desespero completo – ELA SÓ TEM DOZE ANOS!
                As mãos raivosas da governanta fincaram no braço do inimigo, o homem escorregou para trás e, atrapalhado, sentiu que a mulher dificultava seus movimentos. Cassandra estava desarmada, mas tinha uma fibra da qual Verônica sentiria falta.
                - Corra, Verônica! – Cassandra berrou – CORRA!
                Não era sua vontade, ou mesmo uma atitude pensada. A simples ordem jogada ao vento despertou em Verônica um terrível desejo em correr. Com a adaga seguramente presa à fita de seu vestido e o baú infantil arrastado pela fivela, a órfã correu porta a fora, tropeçou nos estilhaços da cadeira de balanço, onde seu pai costumava se sentar e apreciar a sombra projetada pelo toldo da varanda. Mas não havia nada de familiar, nem mesmo as cores despertavam a menor das lembranças na menina, que desconhecia aquela casa. O lugar parecia ter perdido o sentido. No fim, foi melhor assim, apenas tornou mais fácil a decisão da menina em deixar sua casa. Para sempre.

                A sapatilha de Verônica rasgou logo nos primeiros passos. Saltou sobre o lance de escadas da varanda e, apertando ainda mais forte a fivela do baú no punho fechado, arrastou-o com dificuldade, lutando para não ouvir o duelo travado no interior da casa.
                A passos rápidos ela se dirigiu par ao portão de metal, aproximou-se dele e empurrou-o com força. Ele não se moveu.
                O coração de Verônica entrou em frenesi. Não havia como sair, o portão era alto demais e a menina jamais conseguiria saltar. Entrar novamente na casa estava fora de questão e, quando a situação parecia tenebrosa, outro evento complicou consideravelmente o impasse. Atrás de Verônica a grama chiou, como se algo arrastasse por cima dela. A menina olhou para trás, atônita.
                Um terceiro homem, menor porém mais corpulento, caminhava em passos mancos na direção da órfã. O rosto estava coberto por um pano negro que escorria pelo chapéu de palha com fiapos desgrenhados. Em uma das mãos o homem puxava um machado reluzente, feito de um tipo de pedra azulada, enquanto a outra mão mantinha-se fechada, insistente.
                Não era uma figura muito ágil, a menina logo percebeu. Um fiapo de esperança nasceu a partir dessa constatação, talvez fosse possível fugir do invasor manco. Os olhos infantis de Verônica correram de um lado ao outro e, numa busca interminável pelo escape, ela vislumbrou o que poderia ser sua única saída. O muro da mansão, que divisava o lote de sua família e o Parque da Cantareira, estava aos escombros e, entre os fragmentos, um Ford Mustang 67 de cor branco pérola obstruía a passagem. Não havia ninguém dentro e, a julgar pelas portas abertas e o som estridente que ouvira momentos atrás quando estava dentro da casa, aquele veículo pertencia aos invasores.
                - Menina... – a voz do homem estremeceu e, com ela, o vento sibilou – Menina... A adaga...
                - Me deixa em paz, coisa asquerosa! – Verônica apanhou uma pedra no chão e atirou-a contra seu inimigo.
                Sem esperar e assistir ao resultado de seu arremesso, Verônica correu em direção ao carro, aflita, arrastando seu baú que, a cada baque com o chão, estalava. Subiu no para-lamas, escorregou pelo capô e, entrando no carro, virou a chave, grata por estar na ignição. Mas nada a conteceu, a não ser um leve protesto do motor que, inutilmente, grunhiu e engasgou. Ela insistiu mais, chutou o acelerador, sentindo o desespero engolfando-a, acompanhado por lágrimas insistentes. O fiapo de esperança arrebentara-se.
                - Droga! – berrou ela, socando o volante – Droga! Droga! Drog...
                Em seus acessos de fúria e medo, o carro deslizou. O freio de mão estava solto e, no ímpeto, as rodas cederam às queixas da menina. O homem caminhava em direção ao carro, agora com o seu machado erguido no ar. O carro, lentamente, deslizava para trás, movido apenas pela inclinação do relevo.
                - Vamos, carro estúpido! – chiou Verônica, batendo com o próprio corpo contra a poltrona – Vamos! Não é hora pra morrer! Nem eu, nem você!
                Seu esforço para ligar o carro foi em vão, mas foi suficiente para que o carro deslizasse, pela força da gravidade, barranco abaixo. A terra lamacento aumentou o atrito com as rodas do carro, mas apenas serviu para atrasar o que estava prestes a acontecer.
                Quando o machado do homem baixou contra o vidro, fazendo Verônica, o carro andou. Escorregando ao longo do terreno acidentado do parque, Verônica apenas girava o volante e tentava não se chocar contra uma árvore. O Homem com o machado pareceu cada vez mais distante, uma vez que não era capaz de acompanhar a velocidade do carro.
                Alguns trancos no carro fizeram Verônica bater com a cabeça no teto, mas não foi o suficiente para fazê-la desistir. Ainda com o rosto cheio de lágrimas teimosas, a órfã girou o volante mais uma vez, escapando de três árvores, mas sua experiência como motorista era quase nula. O pneu do mustang travou na lama e, num giro rápido, o veículo acertou a árvore. E Verônica não conseguiu escapar.
                A árvore balançou com o impacto, folhas choveram sobre o capô e, em algum lugar, um corvo grasnou. Os pássaros que descansavam na copa da árvore levantaram voo, irritados, enquanto uma coruja assobiou inutilmente quando precisou abandonar seu repouso.
                Verônica ouviu tudo com muita calma, sua cabeça girou e, por um momento, desejou gritar quando um pássaro chocou-se contra o para-brisa. Mas voz alguma saiu de sua boca. E a menina percebeu que faltava-lhe ar nos pulmões.
                As mãos trêmulas de Verônica desprenderam-se do volante e, por um momento, uma dor aguda inundou seu estômago. Num movimento instintivo ela levou os dedos pequeninos ao foco da dor e, então, sentiu algo úmido sujar suas mãos.
                A garota encarou o próprio ventre. A adaga, antes presa em sua fita, atravessara seu abdome no impacto. O sangue escorria lentamente, como se não tivesse pressa em deixar o corpo jovem. Verônica empalideceu e, numa segunda tentativa, tentou gritar. Mas a voz já não existia, apenas a dor e o vermelho de seu próprio sangue que manchava o ambiente cinza que a envolvia por completo.
                Suas mãos agarraram o punhal e, num movimento brusco, removeram a lâmina, mas foi uma péssima ideia. A dor cruciante inundou o seu corpo, provocando espasmos até mesmo nas pontas dos dedos. Incapaz de resistir à dor, ela deixou que a adaga escapasse de seus domínios. E Verônica desmaiou.
                Debaixo do banco, a lâmina, antes, negra, começou a se desbotar, dando lugar a uma lâmina branca e sem vida, sem reflexo. Apenas uma coisa reluzia, as escritas em sangue seco, “Requiescat In Pace”.

                O estranho assassino com o machado na mão levou algum tempo para descer o barranco lamacento. As árvores farfalhavam ao comando do vento e, subitamente, o silêncio inundou o parque, como se todas as aves e animais fossem afugentadas por aquela presença nada amistosa.
                O homem mancava em direção ao veículo branco que emitia um reflexo metálico, metros à frente, enquanto o machado era arrastado pela terra e desenhando uma linha reta no chão. A figura arrastou-se por mais alguns minutos até, finalmente, tocar com sua mão livre e robusta a lataria amassada. A passos frustrantes e apressados, o invasor fitou a lateral do carro. A porta do motorista estava aberta. Não havia ninguém lá dentro, a não ser uma mancha de sangue enegrecida sobre o estofado de couro.
                A figura grunhiu em protesto, como se estivesse confusa. Onde estaria a menina?, provavelmente ele havia pensado. Era difícil saber se algo como aquilo pensava.
                Decidiu procurar um pouco mais pela criança. Ao virar-se, ele a encontrou.
                Verônica estava de pé, a poucos passos de distância de seu inimigo. Os cabelos, antes cacheados, estavam enegrecidos e ensebados. A pele do rosto, ainda mais pálida, era manchada por dois olhos muito negros e lábios finos. Pequenas veias arroxeadas estavam desenhadas abaixo de seus olhinhos e ao longo da testa saliente. Seu vestido estava manchado de vermelho. Em uma das mãos ela puxava seu baú.
                Então, subitamente, o homem estremeceu. Ele tinha medo. Aquela não era Verônica. Não a menina que perseguira minutos atrás.
                Ela deu um passo. O machado caiu.

                O grito masculino, como uma fera sendo açoitada, ecoou ao longo do parque, e, em meio ao berro, um corvo grasnou.

Capítulo 10 - Aparição - o Clown di Douprèe


 
            A noite caiu antes do esperado. Afinal, estiveram tanto tempo presos em uma realidade absurda que, se fosse possível negá-la, o jovem Charlie diria apenas que foi um sonho longo e realístico. Mas não era, e ele sabia disso. Charlie e o irmão decidiram que seria melhor não contarem aos pais que faltaram à aula. Se o fizesse, seria provável que o irmão mais velho arcaria com a responsabilidade, cem porcento de culpa. Não era uma situação incomum, pensou Charlie, desanimado.
            Munphus pediu que esperassem um pouco mais, e foi difícil perceber se ele estava sendo realmente caridoso ou se era simples curiosidade nos dois rapazes invasores. O bibliotecário pediu que Andrew permanecesse na sala e analisarem a mão bizarra, enquanto Charlie, Helena e Ernesto encaravam-se sobre o balcão da biblioteca já fechada.
            Na mente de Charlie, uma desculpa começou a se formar, tudo para evitar um comentário ácido do pai que se queixaria quando chegassem tarde da noite em casa. Mas a situação o fez lembrar-se do que lhe ocorrera em suas últimas mentiras. Não, não seria esse o caminho que ele queria trilhar novamente. Decidiu focar toda a sua preocupação no irmão caçula que, naquele momento, deveria estar praguejando contra o braço disforme, presente das sombras do armário.   
            - Não se preocupe – avisou Helena – meu tio ligou para sua mãe, disse que vocês ficaram aqui conosco. Disse, também, que os levaria pra casa.
            Charlie abandonou seus pensamentos por um momento, grato por não precisar mentir, mas sentindo-se culpado por ter feito Munphus mentir em seu lugar.
            - Ele não vai nos levar, ou vai?
            Ela riu, negando com a cabeça. Charlie sorriu, desanimado ao perceber que teria de caminhar a pé até sua casa. Boa, velhote, pensou Charlie. Se vai mentir, faça direito, o segundo pensamento veio com um ar de ironia.
            O silêncio poderia ter sido uma boa companhia naquela noite, mas as histórias que Charlie ouvira ainda enchiam sua mente com perguntas que desejavam uma resposta direta. Não sabia por onde começar, mas sabia que deveria começar de algum jeito:
            - Então... Quando irei ver, de fato, o Literadouro?
            Helena trocou um olhar de desdém com o primo, que fez questão de mostrar sua insatisfação com a pergunta.
            - Não tão cedo. Já não foi o suficiente encarar a Rainha de Kanwitcha?
            - Não, acho que não. – admitiu ele, surpreso por não ter tanto medo da situação quanto o medo de jamais ter uma resposta sobre o mundo que o cercara todo esse tempo e ele jamais pôde explorar - Eu tenho ainda algumas perguntas para o seu tio. Por exemplo, depois que ele descobriu quem era o verdadeiro Charlie Galahan, ele me olhou com... Hesitação, ou algo mais. Por quê? Quer dizer, é só um pseudônimo, certo?
            - Bem, acontece que você é um dos melhores escritores que o tio Munphus já viu e, quando um Inspirado escreve ou pensa, ou sonha (ou seja lá o que vocês fazem) tudo isso fica registrado no Literadouro, nos galhos da grande Árvore.
            - Grande Árvore? Que Grande Árv...
            - Não interrompa, eu ainda não acabei. – Helena fez um gesto brusco e, num pigarro, prosseguiu sua explicação - Bem, quando se usa a Inspiração, a criação torna-se real. E, de todos os personagens, o meu tio era um admirador dos seus... Grimos, os inimigos Imperador Gregorius e Rei Theodore...
            Charlie lembrou-se deles. Os dois últimos foram criados naquele dia em especial, a primeira vez em que entrou na biblioteca, sem saber o que estava escondido, quando ainda não conhecia a si mesmo.
            - Acontece que nunca vimos isso acontecer. É a primeira vez que o pseudônimo é usado em lugar do verdadeiro nome. Na sala de livros, atrás daquela porta, tem uma estante só com “histórias, pensamentos e contos de Charlie C. Galahan”. Entende, Galahan. Não Logan. Tio Munphus está preocupado, mas não podemos fazer muito, os Corsários ainda não nos deram nenhuma direção. Eles só nos trazem as mensagens quando consideram pertinentes.
            - Mas meu pai – continuou Ernesto - sempre teve muita hesitação por Charlie Galahan, por causa do...
            - Sobrenome? – completou Charlie.
            - Exato – ela murmurou, pesarosa – ele nunca encontrou Charlie Galahan em sua busca pelos Inspirados, então começou a acreditar que, talvez, se tratasse do próprio Northon, escondido, tramando alguma coisa. Acho que quando ele leu a sua carta, todas as teorias dele sobre “como Northon fugiu do Vazio” foram por terra. Mas á dúvida persiste, porque ele continua sem entender como um nome de alguém que não existe pode estar contido no acervo de criações da Inspiraçao.
            - Sinto muito...
            - Tudo bem, meu tio deve estar feliz por saber que você não é Northon. Mas acho que ele ainda desconfia de muitas coisas... Por que você adotou esse nome, é o que ele deve estar se perguntando agora.
            Charlie escondeu seu temor. Não havia uma resposta para essa pergunta se eles esperavam que Charlie a tivesse. Ainda que cavasse fundo em suas memórias, não conseguia lembrar-se de onde viera a ideia súbita de um nome fictício. Simplesmente, um dia, estava assinando um pseudônimo no lugar de seu verdadeiro nome. Seria, mesmo, algo para se preocupar? Charlie preferiu desviar o assunto para qualquer coisa que não se referisse a ele mesmo.
            - Esse tal Andarilho do Tempo... O que ele faz de tão especial?
            Helena deu um sorriso sarcástico.
            - Ele é só a Fabula Prima do Meio-Termo. Ele vagou por todos os mundos, colhendo informações, obtendo conhecimento sobre tudo, sobre todos. Ele não precisa que aconteça o Despertar do Vazio, o Doomsday ou o Hagnarock pra conhecer todos os mundos e transpor os limites que nos cercam. Ele acabou descobrindo como viajar no tempo. Alguns dizem que ele avançou no tempo, e nunca mais voltou. Ele é a forma mais fácil de se obter a resposta para o Despertar do Vazio... E como impedi-lo também.
            - Ele é do mal? – Charlie arriscou a pergunta, mas logo sentiu a infantilidade em seu tom de voz. Era patético, no entanto ele não saberia definir os lados, a não ser “bem” e “mal”. Ele logo percebeu que, em verdade, não saberia definir nada do novo mundo que estava para descobrir.
            - Claro que não! Ele nos salvou das ideias macabras de Northon! Mas não sei se isso faz diferença. Ele nunca mais foi visto. Alguns se atrevem a dizem que o Andarilho é só um mito bobo. Mas eu acredito. Sei que o Andarilho está por aí, em algum lugar...
            Charlie pôde vislumbrar uma luz intensa nos olhos de Helena, uma mescla de esperança e medo, traços de sentimentos que ele tão bem entendia.
            O rapaz aproveitou o silêncio para absorver a informação. O rapaz não se lembrara da última vez em que exigira tanto de sua sanidade e equilíbrio psicológico, e temeu não tê-los em quantidades suficientes. Mas poderia ele escapar dessa situação? Depois do ocorrido com Ophelia, ele duvidou disso.
            - O que vai acontecer com meu irmão, agora? – perguntou Charlie em nítida preocupação. Não importava que suas intenções tivessem sido as melhores possíveis quando abandonara o irmão no corredor da escola. Tudo o que ele queria era proteger o irmão caçula, mas ao invés disso, deu a Andrew um sofrimento inesperado.
            Dessa vez foi Helena quem deu de ombros.
            - Não tenho ideia do que seu irmão tem. Nunca vimos nada parecido. As sombras vivas, como vocês disseram, são novidades para todos nós.
            - Provavelmente meu pai está lendo suas histórias nesse instante – falou Ernesto – procurando pelas tais sombras.
            - Eu não as criei. – protestou Charlie, em sua defesa.
            - Logo vamos saber... Tudo o que você escreve é “arquivado” no Literadouro... Logo saberemos de onde, raios, vieram essas sombras, e se podemos ajudar seu irmão. Só espero... Oh, não.
            Ernesto parou de falar, olhando, apreensivo, em direção a uma janela da biblioteca, no ponto mais alto. Havia uma pequena fresta aberta, o suficiente para permitir a entrada um pombo. Mas não foi uma ave que passou pela janela.
            Um besouro, ligeiramente menor que os demais, sobrevoou o teto da biblioteca, parecendo eufórico demais para um inseto pacato. Girou no ar duas vezes e, por fim pousou sobre o balcão, agitando as frágeis asas brilhantes. O minúsculo animal ressoava um ruído metálico, como se agulhas chovessem sobre uma placa de alumínio.  
            - Isso é um Corsário? – perguntou Charlie, reconhecendo o totem do bibliotecário.
            - É um dos espiões dele – avisou Ernesto – papai solta alguns de seus corsários pela cidade para vigiarem as movimentações, digamos, anormais. Esse aqui está muito inquieto. Com certeza foi uma aparição.
            Charlie fez uma expressão de dúvida.
            - O Meio-Termo cuspiu alguma coisa – explicou Helena sem delongas – é nosso trabalho devolver a aparição ao seu lugar.
            - Como fizeram com o meu dragão?
            Mais uma vez, Helena e Ernesto trocaram olhares ilegíveis.
            - Isso é outra coisa que precisamos explicar depois. – avisou ela – vamos.
            - Vamos? – Charlie fitou a garota – vamos aonde?
            - Ora, você vem com a gente. Ou, por acaso, não está interessado em ver uma aparição?
            Charlie ficou de pé. Como antes, estava tomado pela curiosidade.
            - Mas vou logo avisando – Ernesto falava em tom de ameaça, apontando o dedo em direção às fuças do rapaz – fique longe, apenas olhe, e tente fingir que não está lá. Isso seria ótimo.

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            - Basicamente, eles ficam desorientados quando chegam aqui – explicava Helena, enquanto os três jovens pedalavam pela avenida principal.
            O vento estava morno apesar da noite fria, o céu salpicara-se de estrelas amarelas e a lua exibia seu perfil contorcido pelas ralas nuvens. Era uma noite paradoxal, percebeu Charlie, divagando em pensamentos ao passo em que ouvia vagamente as palavras de Helena. As bicicletas rangiam, desafiadoras ante o silêncio sepulcral da noite.
            - A mudança de ambiente pode desestabilizá-los um pouco, uma vez que o Vazio e o Meio-Termo possuem densidades atmosféricas diferentes, isso por causa da carga de Inspiração contida no ar. Quando entram em nosso mundo, ficam sonolentos, por isso, geralmente, conseguimos neutralizá-los antes que criem grandes problemas.
            - Como sabem para onde ir?
            - Siga o besouro – Ernesto apontou para o alto, onde uma bolinha verde reluzente sobrevoava apressada – mas não o perca de vista, ele não se importa se é, ou não capaz de vê-lo. Corsários podem ser muito temperamentais. Vamos, chega de papo!
            O inseto os levou até uma enorme praça, rodeada por prédios, onde centenas de pessoas caminhavam, muitas delas apressadas. O céu negro fora intimidado pelos arranha-céus de concreto, era quase impossível ver uma única estrela boiando acima de suas cabeças. As sombras das imponentes construções projetavam-se na calçada. Nem mesmo o passar das horas intimidava os nova-iorquinos, que, tranquilos, ainda enchiam as ruas da grande cidade.  
            As correntes das bicicletas chiaram um choro que minguava na medida em que desaceleravam, guiados pelo ritmo do inseto cor de esmeralda. O besouro rodopiou em um frenesi irritante, pairou alguns segundos e, enfim, ficou imóvel no ar. Charlie percebeu que esse era o sinal, a aparição deveria estar por perto.
A praça em que chegaram tinha uma fonte circular onde três belas mulheres de pedra esvaziavam seus jarros que transbordavam eternamente, ou até que a companhia de água desligasse o fluxo de água. Nas bordas da fonte algumas pessoas sentavam-se e molhavam os pés em suas águas límpidas, enquanto outras mais desocupadas atiravam moedas e sonhavam seus mais íntimos desejos. Os bancos espalhados pela praça eram todos de concreto e, por mais que as árvores se esforçassem, simplesmente não conseguiam afastar o ar extremamente urbano, o que era óbvio, se tratando de Manhattan. Ainda assim o aroma agradável de flores e grama molhada conseguia fazer-se notado.
            - O que deveríamos estar procurando? – perguntou Charlie.
            - Sinta, Charlie. Apenas sinta – avisou Helena – a vibração deles é diferente, e nós somos capazes de sentir. Apenas feche os olhos e deixe que a própria aparição o atraia. Não precisa fazer esforço algum... Basta ser guiado pela Inspiração.
            Charlie ouviu, atentamente, mas, como se o desejo fosse ainda mais forte, ele riu. Uma atitude imbecil, ele logo se deu conta, mas toda aquela tagarelice de “sinta a energia” era um clichê cuspido na cara e, ainda que sua vida em menos de uma semana tivesse sido aventuras para uma vida inteira, aquela baboseira soava infantil e tola.
            - Foi mal, galera... – ele soluçou as palavras entre risos – mas, guiado pela Inspiração? Sério mesmo? Quer dizer, eu tenho que entrar em contato com o meu chi e abrir os portões da minha aura? Isso é lindo, sabem. Lindo...
            - Esse imbecil não deveria mesmo ter vindo – Ernesto cruzou os braços, encarando Charlie com profunda desaprovação – Ele acha que isso é uma brincadeira, Helena!
            - Charlie, quando uma aparição estiver ao seu encalço, sei lá – um dragão, quem sabe! – você pode começar a rir. Se isso te ajudar, então eu vou rir junto com você!
            - Não, não foi isso que eu...
            - Você quer rir, Charlie? – Helena caminhou em direção a Charlie e, com autoridade, meteu-lhe o dedo no peito, pressionando com agressividade a cada palavra minuciosamente pronunciada – Ria quando seu irmão estiver estrebuchando com uma mão deformada, e um dragão quiser fritar o seu traseiro! Você pode rir incansavelmente quando mil sombras estiverem atrás de você! Eu tenho certeza que você que você se sairá muito melhor sem a Inspiração! Não é mesmo, Charlie Galahan?
            Não eram apenas palavras e gotas de saliva que acertaram o rosto ruborizado de Charlie. A própria ofensa se materializara a sua frente e, agora, personificada em uma ruiva atormentada, tentava furar-lhe o peito com um dedo inquieto.
            - Ok, Helena, sinto muito... – ele balançou as mãos em defesa, sentindo sincera vergonha por ter zombado da situação – eu não quis...
            - Tudo bem, Charlie – e então Helena afastou-se, agora com uma expressão leve, mas séria – Você ainda tem muito o que aprender... Só espero que sobreviva até saber o que precisa.
            Ela sorriu antes de dar as costas ao rapaz e concentrar-se em qualquer coisa que não fosse no ceticismo de Charlie. Aquele conflito fora o suficiente para que o rapaz se sentisse um trapo fedido, nem mesmo Ernesto dignou-se a chutar cachorro morto e triturado.  
            Resignado e seguindo a dica de Helena, Charlie fechou os olhos na tentativa de sentir a tal Inspiraçao. Sentiu-se um imbecil, mas saber que ninguém o observava tornou o ato menos constrangedor. Aos poucos ele foi se entregando às sensações provocadas pela noite e pela discussão acalorada, deixou que apenas sua respiração influenciasse seus pensamentos, sentindo o ar entrando e saindo pelas narinas mornas, enquanto a pouca brisa atiçava seus cabelos. A princípio, nada aconteceu, e queixou-se mentalmente por não ter uma resposta rápida. Seria ele realmente capaz de sentir a Inspiração? Afinal, isso existia de fato, ou era tudo uma fantasia que o prendia num sono profundo? Ele desejou acordar em casa, no conforto de sua cama, sabendo que mulheres-gato não comem gente e dragões só existem em contos de fadas. Mas a solidez daquele dia gritava contra esse pensamento tímido. Não havia como escapar. Munphus era um bibliotecário cheio de mistérios e, para o bem ou para o mal, Charlie fazia parte desse grande segredo escondido dos olhos curiosos do mundo.
Quando estava prestes a desistir de ser guiado pela tal Inspiraçao, foi engolfado por uma súbita rajada de ar frio, que parecia circular a sua volta, detendo-o ali mesmo. A sensação dançava pelos cabelos eriçados de seu braço, caminhava pelo pescoço e enchia seu pulmão de um ar quente. Era uma vibração tão nova, uma sensação jamais sentida antes que, ele pensou, não se incomodaria em ficar preso à esse estado pelas próximas horas. Se aquilo era a Inspiração da qual Helena falara, ele definitivamente gostava.
            - Estou sentindo algo! – Charlie sorriu, eufórico, com os olhos abertos e em alerta. Pela primeira vez, sentiu-se diferente, destoante de seu mundo normal e com sentimentos previsíveis, uma experiência nova que mexia com todos os seus sentidos de forma sobrenatural – uma brisa! Ela está ganhando todo o meu corpo! É incrível
            - É o nosso alvo! – avisou Ernesto – vamos, sigam a corrente!
            Eles começaram a correr pela praça, fazendo caminho em meio às pessoas que esbarravam, e retribuíam com um palavrão. A presença da aparição condensava-se e, a cada passo, tornava mais real. Era como se Charlie mergulhasse numa banheira cujo sabor das águas despertassem no paladar um gosto jamais conhecido pelos homens. Não importava se jamais pudesse ver uma aparição sequer. A simples presença dela dava-lhe a certeza de que seu mundo era muito mais extraordinário por trás das cortinas da normalidade.
            - Lá! – exclamou Helena, detendo os dois rapazes pelo braço – vejam!
            Logo à frente, havia uma mulher com uma criança num carrinho de bebê. Ambos estavam próximos a uma árvore de galhos longos e recheados de folhas abertas. Mãe e filho eram entretidos amistosamente por uma figura curiosa. A aparição era um homem coloridas e espalhafatosas, com tiras de tecidos presas nas mangas compridas do collant berrante. Seu pescoço comprido e magro dava a impressão de uma cabeça flutuante. Suas costas eram adornadas com penas azuis e amarelas, semelhantes à cauda de um pavão. As feições da aparição lembravam a de um palhaço de circo, porém de forma bastante escandalosa. Os lábios finos eram exageradamente pintados de preto, o rosto alvo como floco de neve era maculado por duas bolas amarelas pintadas nas bochechas, enquanto as sobrancelhas eram vermelhas e grossas, como uma lagarta.
            - É ele? – Charlie perguntou – Ele não parece muito... Humano.
            - E não é mesmo... Vamos, temos que ser cautelosos, não sabemos o que ele é capaz de fazer.
            - É uma aparição do Meio-Termo, com certeza – falou Helena, decidida – O Vazio não costuma mandar aparições tão dóceis.
            Enquanto caminhavam em direção ao palhaço, a mulher se despedia com um sorriso, empurrando o carrinho do bebê. A aparição fez uma reverência cordial e acenou, contente com o riso da criança. O rosto do palhaço iluminou-se de contentamento e, alheio ao trio que caminhava em sua direção, girou pelos calcanhares em comemoração.
            - Ele me parece gentil – comentou Helena.
            A criatura sentou-se ao lado de um homem e pôs-se a fazer gestos com as mãos, lembrando muito a linguagem de sinais. Para espanto do trio, o homem respondeu da mesma forma, gesticulando com habilidade e, logo perceberam, travara-se um diálogo entre aparição e homem, uma linguagem silenciosa, mas cheia de sentido. Então o habitante forasteiro de um mundo fantástico também sabia falar com surdos-mudos, além de mulheres e crianças! Aquela figura não era mais um mistério para Charlie. A aparição representava tudo o que o rapaz queria conhecer, tudo o que sempre sonhara. Suas mentiras, suas complicações trazidas pelas invenções imaginárias exageraras, nada disso era real. Suas mentiras, afinal, não eram mentiras. Charlie sentiu-se, pela primeira vez, como a pessoa que deveria ser.  
            - Hei! – gritou ele, correndo em direção ao alvo, num impulso instintivo – Hei, senhor...
            A figura o encarou, confusa.
            - Não se aproxime dele, Charlie!
            O aviso de Helena não foi ouvido. Charlie saiu em disparada, desvencilhando-se da mão alerta de Ernesto. A aparição recebeu o rapaz com um sorriso simpático, dando a ela um aspecto ainda menos humano. Mas isso não foi um fator para afugentar Charlie. Era, agora, a única coisa que o jovem Inspirado queria, conhecer um pedacinho, ainda que ínfimo, do mundo que tornara dele alguém importante, e não um mentiroso problemático.
            - Jovem encantador... – as palavras do palhaço soaram gentis e suaves, como se cantasse, assim que Charlie aproximou-se da aparição – Que bela presença tens!
            A reação do ser fantástico surpreendeu Charlie. Seria assim, tão simples, conviver com as criaturas do Meio-Termo? Charlie desejou viver nesse novo mundo.
            - Ahn, obrigado – Charlie sorriu, sem saber o que dizer, ou mesmo se deveria dizer alguma coisa – eu digo o mesmo.
            - Charlie! – a voz de Helena ecoou ao longo da praça, afugentando as aves dorminhocas que se aninharam na copa das árvores.
            - São amigos seus? – perguntou a figura – Pois são belos e de presença fantástica! Como a sua própria! Lindos, vocês são! Esse mundo é lindo, se me permite dizer.
            Charlie riu. Não por haver uma explicação, ou por achar engraçada a forma singular como o palhaço conversava. A simples presença da criatura parecia ser um motivo para se estar feliz, e logo Charlie percebeu que, talvez, fosse um dom natural do ser tão espetacular à sua frente.
            - Olha, senhor... – Charlie começou a dizer, sem delongas – Sei que o senhor deve estar admirado com o meu mundo, mas... Nós viemos te buscar, se não se importa.  
            O palhaço o encarou mais uma vez, não tão confuso como antes.
            - Oh, então é verdade! Não estou em Douprèe, estou?
            O rapaz fez que não com a cabeça, sem saber, ao certo, o que, exatamente, era Douprèe.
            - Aqui é Manhattan.
            - Oh... Manhata? – a voz do palhaço soou etérea e divertida - Lindo nome, tem gosto agradável.... Manhata, Manhata, Manhata... É doce, não? Lembra-me lírios, mas não brancos, pois estes crescem em nas terras longínquas de Garssaf. Lembra-me muito Doroteia, mas sem as mulheres de pedra, aquelas que jogam fora toda a água de seu povo...
            Charlie não pôde evitar o segundo desejo de rir. O palhaço mostrou-se ainda mais divertido diante da reação do rapaz.
            - Chamo-me Clown di Douprèe, ao seu dispor. Vim das colinas de Miohratnak... – a aparição apontou para o céu numa reverência exagerada, lançando ao negro da noite um olhar cheio de generosidade - Eu estava dançando para os jovens da vila, quando, de repente, uma luz enorme e igualmente encantadora me cegou. Foi como se me levassem para longe... E eu acordei aqui... Vossa Bondade seria capaz de me mostrar o caminho de volta?... Gosto do povo de Manhata, mas... Quero voltar pra casa. Não me sinto bem aqui, ainda que seu povo seja bastante acolhedor e de fáceis sorrisos.
            - Tudo bem – Charlie falou, enquanto Helena e Ernesto paravam diante deles – Vamos ajudá-lo, não é, pessoal?
            O Clown fitou o trio, em especial para a ruiva que ofegava , e com um gesto de submissa reverência, agradeceu.
            - Eu seria eternamente grat...
            - Charlie! – berrou Helena, furiosa, ainda arfando devido ao esforço – nunca mais faça isso!
            - Fazer o qu...
            Charlie não completou a frase. O colarinho de sua camisa fora brutalmente agarrado por duas mãos furiosas. Ernesto deteve Charlie com uma facilidade que assustou até mesmo Helena, mas ela não se queixou, estava exasperada com a atitude irresponsável do amigo.
            - Eu avisei! – Ernesto trincou os dentes, e Charlie percebeu que o primo de Helena fazia mais força para conter o ímpeto de socar o rapaz no rosto do que erguê-lo pelo pescoço – Eu avisei para agir como se não estivesse aqui! Mas você não ouve! Voce sim-ples-men-te não ouve!
            - Cavalheiros, cavalheiros! – Clown di Douprèe aproximou-se, alardeado, segurando os jovens pelos ombros – um soco dura um segundo, mas reverbera o corpo por dias, se me permitem dizer. Seria mais fácil resolver os problemas com uma música, não seria?
            - Música? – Ernesto ignorou Charlie por um segundo, fitando o palhaço com desdém – vou te mostrar a música, seu pomposo, quando enfiar meu pé no seu trasei...
            BAM!
            Foi o som surdo que interrompeu o discurso colérico de Ernesto. O acontecimento que se seguiu foi tão repentino, não houve meio de reagir ante a situação.
            Clown de Douprèe caiu, estatelado, com o rosto pregado no chão, puxado pelos calcanhares. Charlie nem percebera o que acontecera até visualizar a cena: uma densa mancha negra cobria todo o chão e estava arrastando o Clown o mais longe possível do trio.
            - Hei! – gritou Charlie – Que droga... As sombras! Helena, as sombras!
            O palhaço começou a ser arrastado ao longo da praça, como se puxado por uma corda invisível enganchada no seu calcanhar. Tão logo Charlie reconheceu. As sombras estavam envolvendo as pernas do Clown di Douprèe.
            - Salva-me, criança! – berrava o palhaço, chamando a tenção dos transeuntes, que  assistiram à cena, atordoados – Não deixe que me levem! Isso dói!
            Um rastro de sangue começou a ser deixado por onde o Clown passava. Estavam ferindo a pobre aparição, e as sombras eram completamente apáticas às queixas de dor de Clown. Charlie empurrou Ernesto para longe e correu em disparada, rumo à aparição. Era como, pela segunda vez, ter roubado pelas sombras o direito de ser ele mesmo, o direito de viver o mundo que a Inspiração lhe prometia. Charlie não queria permitir que isso acontecesse novamente, mas seu corpo era fraco demais para alcançar as sombras ágeis e sorrateiras. O palhaço fora lançado em direção aos arbustos, e a aparição foi completamente coberta pelas folhagens.
            - Não! – berrou Charlie, se lançando contra os arbustos.
            Enfiou a mão entre os ramos, revirando tudo. Arrancou galhos, cortou a palma das mãos, mas nada encontrou. Ernesto e Helena estavam ajoelhados ao seu lado, afastando os galhos e procurando pelo palhaço do Meio-Termo. Mas não havia nada. A aparição, simplesmente, sumira.
            Todos à volta começaram a aplaudir, alguns paravam sua habitual caminhada para se admirarem com o espetáculo. “Como fazem isso?”, murmuravam uns. “Esses artistas de rua... Gostam de se exibir...”, outros mais amargurados diziam.
            O que ninguém havia percebido, no entanto, era que não se tratava de uma encenação. Literalmente Clown di Douprèe fora tragado pelas sombras.
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos