Capítulo 4 - A Carta de Um Estranho Dr. Sanguinetti


            Quando, enfim, Charlie havia cruzado a esquina da sua rua, os primeiros pensamentos vieram a sua cabeça em um súbito choque de pavor. A princípio tudo parecia uma aventura, um pequeno deslize dos seus ratos e o seu suco de uva. Mas, depois de uma longa caminhada a pé e um pouco de reflexão, começou a se lembrar de algumas coisas como, por exemplo, os ratos não eram seus, e nunca tinha visto nenhum se converter em suco de uva, justamente no dia em que não havia nenhum suco dentro do seu armário quando, na verdade, deveria haver.
            Seus pensamentos confrontaram um único e poderoso pensamento: aquilo devia ser loucura. Um surto de insanidade, um distúrbio de hormônio típico da sua idade. Nada disso parecia explicar o ocorrido.
            Depois de pensar, cogitou que, talvez, possuísse uma espécie de dupla personalidade travessa, responsável por todo o derramamento de suco. Convencido de que isso não explicava a aparição dos ratos, descartou a hipótese.
            Assim que atravessou a cerca branca do seu jardim, Charlie se permitiu esquecer, mesmo que por alguns segundos, do incidente na escola. Não queria transparecer preocupação, sua mãe sentia esse tipo de coisa à distância. Depois de muito tempo, Lauren aprendeu a decifrar as expressões de seu filho peralta.
            - Cheguei! – ele gritou assim que passou pela porta da frente.
            Jogou a mochila molhada sobre o sofá e o casaco, secou a sola dos sapatos e caminhou rumo às escadas, ignorando o cheiro de pão fresco. Estava quase alcançado o patamar superior, quando uma porta do segundo andar se abriu com estrondo. Um Andrew muito ofendido saiu do quarto, nitidamente nervoso.
            - Não é justo, Char! – disse ele, bufando – Primeiro você me deixa de fora durante o recreio...
            - Intervalo.
            - Que seja... Depois ainda me deixa plantado no ponto de ônibus, e chega a uma hora dessas. Isso não é do seu feitio.
            - “Do seu feitio”? – Charlie arqueou uma sobrancelha – você anda lendo um bocado.
            - Não seja idiota. Quer saber, se não quer a presença do seu irmão, é só avisar.
            Charlie estava prestes a retrucar, quando a porta do último quarto do corredor se abriu. Era Michael Logan. Seus cabelos eram loucos acobreados, de olhos ligeiramente castanhos, quase amarelos, e uma pele nem tão branca, porém nada bronzeada.
            - Você tem evitado seu irmão na escola, Charlie? – perguntou Michael.
            - Não, pai, não é... – Andrew tentou argumentar, mas foi interrompido quando o pai esticou a mão em sua direção, pedindo por silêncio.
            - Você não me respondeu, Charlie – Michael ainda estava olhando para o filho mais velho.
            - Sim – disse Charlie, sem delongas – já tenho muitos problemas meus para resolver.
            - Não deveria tratar seu irmão assim – disse Michael – ele pode te ensinar algo sobre se relacionar com pessoas. Você fica enfurnado todos os dias no seu quarto, escrevendo e escrevendo, e nunca deixa ninguém sequer tocar nas suas coisas. Às vezes parece gostar do seu irmão, mas, às vezes, você parece não querê-lo por perto.
            - Não quero ofuscar o brilho dele, pai. A propósito, achei que era exatamente o que quisessem de mim. Não foi pra isso que serviram as terapias? – Charlie deu de ombros. Entrou em seu quarto, fechou a porta enquanto o pai falava sozinho.
            Naquele momento, deixou que toda a frustração desaparecesse, e o ocorrido do dia voltara à tona. Ratos e coisas inexplicáveis. Não gostava de não ter explicações. A primeira coisa que fez foi se sentar de frente ao computador e digitar um amontoado de palavras que pudessem explicar os “fenômenos” em sua escola. No entanto, quanto mais tentava expressar em palavras, mais a situação parecia ridícula, e mais ele acreditava estar ficando louco.
            - Você precisa relaxar, chapa – falou ele para si mesmo – tem estudado demais.
            De fato. As férias não foram um tour memorável. Tudo o que ele tinha feito, além de escrever fragmentos de histórias, era estudar. Até o seu primeiro ano no colegial ele tinha compulsão por escrever. Sua inspiração vinha de todas as partes e, algumas vezes, de lugar algum, criando tramas e personagens extraordinários. Mas, nos últimos dois anos, foi como se todo esse fogo, essa paixão, estivesse se esvaindo aos poucos. Algumas das suas obras mais recentes tinham cinco páginas, outras ultrapassavam cem, mas nenhuma delas tinha um fim. Ele as chamava pejorativamente de “ideias inacabadas”.
            Charlie estava quase pegando no sono, debruçado sobre a mesa-de-cabeceira, quando a porta do seu quarto abriu.
            - Charlie – era a voz do Andrew.
            Ele hesitou, mas não abriu. Esperou que o irmão desistisse, o que não aconteceu.
            - Charlie, o jantar está pronto.
            - Não sei se estou com fome. – avisou ele.
            - Precisamos discutir sobre o que faremos amanhã. – sentenciou o irmão mais novo, quase suplicante.
            - O que tem amanhã?
            Houve um pequeno momento de silêncio.
            - Você ta falando sério? – Andrew tinha o tom de surpresa em sua voz abafada pela porta – amanhã é seu aniversário. Lembra?
            Não. Charlie havia se esquecido completamente.
            - Ah, ok. Estou descendo em um minuto.
            - Er... Charlie.
            O irmão mais velho revirou os olhos, ainda que mais ninguém pudesse ver.
            - Diga, Andrew.
            - Será que você pode abrir a porta, por favor?
            Charlie sabia como o irmão era insistente. Ignorá-lo não era a melhor maneira de se desculpar pelo seu comportamento. Abriu a porta do quarto e deu passagem para o irmão. Charlie sentou-se na escrivaninha, fingindo estar lendo alguma coisa. Andrew acomodou-se na cama, encarando o teto, escolhendo as palavras certas.
            - Eu gostaria de poder fazer alguma coisa, saber? – começou ele.
            Charlie o encarou por um momento.
            - Fazer o quê? – perguntou Charlie.
            Andrew pareceu analisar a resposta e, por fim, falou:
            - Eu gostaria de fazer alguma coisa para você se sentir melhor. Eu não tenho culpa se você e o papai não se entendem. Mas, às vezes, você age como se eu fosse o culpado.  
            - Andrew, não! – Charlie levantou-se, sentando ao lado do irmão – olha, chapa... Eu não... A culpa não é sua. Você é legal. Eu? bem... Nunca fui o garoto mais comportado.
            - Mamãe me conta o que você fazia quando pequeno – Andrew exibiu um sorriso orgulhoso – ela acha engraçado... Mas o papai não.
            - Está tudo bem, Andrew. Sério.
            Charlie passou a mão por cima do ombro do irmão, bagunçando os cabelos lisos do caçula. Ele entendia que, embora Andrew fosse uma espécie de filho predileto, não era por mal. Andrew nunca pediu por nenhum tratamento especial. Na verdade, ele acreditava ser esse o motivo de Charlie não gostar tanto dele.
            - Jantar? – Andrew sorriu.
            - Sim, já estou indo. Vou só me trocar.
            Andrew se levantou, mais satisfeito. Estava prestes a sair do quarto, quanto lembrou-se de algumas coisa.
            - Ah! Charlie – ele meteu a mão no bolso da jeans e tirou um envelope branco – isso aqui chegou. É pra você.
            - Pra mim? – Charlie pegou o papel, encarando o selo timbrado – de quem?
            - Não sei. Tudo o que diz é “Sr. Sanguinetti”. É familiar pra você?
            O irmão fez que não com a cabeça.
- Mais alguma coisa? – perguntou Charlie.
- Stephan e Ruth ligaram. Disseram que estão com saudades e pretendem fazer uma visita.
            Naquele momento Charlie se permitiu sorrir. Stephan e Ruth eram seus melhores amigos desde a época em que se mudara para Nova Jersey. Stephan também era um garoto problemático, faltava a muitas aulas e quebrava coisas. Ruth era a equilibrada, sempre sendo a voz da razão nos momentos de necessidade. Era triste admitir, mas, Charlie sentia falta de se comprometer com as pessoas, formar laços, toda aquela cumplicidade de amigos. Depois de regressar para Manhattan, Helena foi a única amiga que conseguiu preservar. Além do próprio irmão, é claro.
Andrew despediu-se com um aceno rápido de mão e deixou o quarto, batendo a porta de leve ao sair.
            Charlie estudou o timbre da carta por um breve minuto. Parecia ser uma pena e, logo atrás, um livro aberto. Ao fundo linhas divergentes pareciam simular o sol poente. O rapaz removeu o timbre e abriu a carta. Era um papel fino, impecável de tão branco. Deslizou os dedos sobre a superfície macia, sentindo a textura incomum. Ao abri-la, percebeu que se tratava de uma carta escrita em máquina de datilografia, das bem antigas. Havia um cheiro estranho, porém agradável, de mofo.
            Ele começou a ler, sem delongas. Era uma boa forma de manter a mente ocupada. Entretanto, o que leu não ajudou em nada.

            “Prezado Sr. Charlie C. Galahan,

            Viemos, através desta, informar-lhe que, com o cumprimento do seu décimo oitavo aniversário, os devidos ajustes no armário 207 da NY High school foram devidamente arranjados. Pedimos encarecidamente que não usufrua do benefício até o cumprimento de seu aniversário de dezoito anos, uma vez que a manutenção ainda não foi completamente realizada, podendo ocorrer eventos indesejados. Ao pedido de Northon Galahan, a instalação do produto será minuciosamente realizada. Lembramos que sua Inspiração deve ser mantida em completo sigilo para que eventuais transtornos não aconteçam. Conto com sua descrição. Absolutamente ninguém deve ter conhecimento sobre o seu presente. Feliz aniversário.
                                  
                                   Desde o instante, agradeço a compreensão,
                                                                                             
                                               Dr. Sanguinetti, Colecionador de Literadouros”

            Não havia nenhuma explicação, apenas um monte de loucas palavras sem sentido. Charlie leu a carta duas, ou talvez vinte vezes. No final, só conseguiu concluir uma coisa:
            - Hein?
            Já não era suficientemente difícil conviver com o ocorrido daquele dia. A carta acabou por estragar o seu apetite e, depois de tanto reler, se sentia cada vez mais confuso e perdido. Normalmente, qualquer um temeria a correspondência de um estranho e acontecimentos como os que ele passara. Uma pessoa em suas condições normais diria a um responsável, talvez os pais, ou mesmo chamaria a polícia.
            Charlie, no entanto, não o faria. O que iria dizer? Que ratos surgiram do nada em sua direção, sem motivo algum e, agora, recebera uma carta que supostamente explicava o ocorrido? Isso seria insensato e, ele o sabia muito bem, seria mais um motivo para que o chamassem de “garoto criativo”, como seu pai costumava chamá-lo quando queria se referir ao filho mais velho como “o mentiroso”. Mas havia algo que o incomodava mais. O nome: Charlie C. Galahan. Como poderiam saber...? Ele nunca tinha contado...

            A vida de Charlie era assim escrita por mãos que ele desconhecia. Em sua meninice tinha esses surtos de ideias desenfreadas e, por mais que tentasse impedi-las, elas pululavam em sua mente e, quando acontecia, não podia fazer nada. As mentiras se tornaram constantes e, a cada dia, mais sérias.
            A última que Charlie realmente recordava ocorreu cerca de sete anos atrás. Charlie contava com onze, enquanto o irmão tinha apenas oito anos. Estavam montados em suas bicicletas novas, quando o irmão mais velho teve a brilhante ideia de correr pelo parque do bairro ao lado. Havia um playground instalado recentemente pela prefeitura, onde muitos outros garotos da sua idade passaram a frequentar.
            Andrew acabou desaparecendo nessa aventura, e Charlie se viu obrigado a voltar para casa e avisar aos pais. Mas, antes de dizer o que ocorrera, acabou colocando a culpa no Comodoro Bennet.
            - Foi o Comodoro, mãe! – disse ele, tentando ocultar qualquer outra expressão que não fosse a de desespero.
            - Quem é Comodoro, Charlie? – a mãe já temia o que estava acontecendo. A resposta do filho deixou tudo muito claro.
            - Comodoro Bennet. O militar lusitano, ele tem um bigode assim, penteado, e um olhar bem miúdo, como se os olhinhos fossem duas uvas passas. Ele tinha uma espada bem afiada e disse que levaria o Andrew! Acho que ele confundiu meu irmão com alguém...
            A mãe silenciou o filho. Naquele momento estava perfeitamente claro o que deveria fazer. Primeiramente, anunciou as autoridades sobre o desaparecimento do menino, e correu pelas ruas do bairro vizinho em busca de sua criança. A noite já estava caindo quando ele foi encontrado brincado com outros jovens perto de um córrego.
            A segunda medida tomada por Lauren foi buscar ajuda profissional. Depois de quase oito meses de busca, conseguiu encontrar um decente psiquiatra, Dr. Peterson, que aconselhou Charlie a escrever todas as ideias que tivesse, ou mesmo desenhasse, desde que encontrasse, de alguma forma, extravasar seus pensamentos.
            Foi o que ele fez. Começou com um diário aos treze anos e, no mesmo ano, começou a sua jornada em livros de fantasia e aventura. Em uma delas estava Grimos, o menino-raposa, e Comodoro Bennet, o militar mafioso de uma família italiana muito temida. Aos poucos foi possível controlar o impulso do filho mais velho por mentiras, que se tornaram cada vez menos freqüentes.
            Então, um dia, deixou de contar mentira, de qualquer espécie. Foi a cerca de dois anos atrás, quando suas histórias deixaram de ser histórias e se tornaram as “ideias inacabadas”. Nessa mesma época, ele deixou de ver necessidade em falar. Não via graça nenhuma na realidade.
            Naquele instante, dentro do seu quarto diante daquela carta, Charlie temia por si mesmo. Durante muito tempo ele se fez acreditar em todas as suas mentiras. Realmente acreditava ter sido obra de Grimos a brincadeira da lata no forno e, ainda que sentisse culpa, tinha um ódio tremendo pelo Comodoro, que nem ao menos existia. Com as terapias o problema foi resolvido, mas... E se estivesse voltando? E se aquilo fosse uma recaída e tudo o que presenciara era uma farsa, mentiras sobre mentiras e, agora, estava ludibriando seu próprio cérebro? Era a explicação mais óbvia, mas era a que ele menos gostava.
            - Eu não sou um maluco... – murmurou ele, fitando o teto com determinação – eu não sou maluco!

Dona Aparecida




            Éramos três irmãos, uma mãe passiva e um pai de nervos exaltados. Cidade pequena do interior de Minas Gerais, trinta mil habitantes, para mais ou para menos (Piumhi, o “rio de muitos peixes”, ou talvez fossem moscas. Sabe-se lá o que pensaram os índios quando tomaram por esse nome). Eu já havia decorado todos os rostos e, como o ócio era o que me sobrava, ficava perambulando as ruas de pedra com amigos da escola. Não é a boa e velha época das bolinhas de birosca, como dizia meu pai, mas era um tempo em que resgatávamos desse ofício de ser criança de interior, um pouco da simplicidade da roça, no capim seco e no cheiro formoso de estrume de vaca. De cavalo não, porque fedia e me sujava o meio dos dedos. Aparecia ali no meio da calçada, sem avisar. Parece até que cavalo faz de propósito. Bicho de cidade pequena é esperta, desse jeito mesmo, porque sabe que precisa pensar pelos seus cavaleiros que bebem até tarde da noite e, quando não podem mais ser guiados pela sobriedade, são guiados por cascos bem entendidos do caminho.
            As janelas de casa eram de madeira, os vidros coloridos. Tinha a rede, um dos meus espaços merecidos, onde os pés ficavam pra cima e a cabeça pra baixo, até dar náusea. A grade cinza deixava aberta a visão para a rua e os compadres. Dava pra pedir emprestado um ovo, uma xícara de farinha e, quando ninguém estava ouvindo, trocavam-se mexericos.
            Mas, de todas as maravilhas e gostosuras do interior mineiro, eu gostava mesmo era de Dona Aparecida. Era a maior festa quando a avistava cruzando o horizonte, digo, a esquina. Usava um pijama azul com estampas, chinelo de plumas, e um arco pra segurar o cabelo curto e ralo, e assim andava pelo bairro, sem nenhuma vergonha. Velha, pobre dela, mal conseguia andar. Mas fazia aquilo com gosto, que dava até admiração.
            Se via a gente andando por aquelas ruas de pedras, logo tratava de dizer:
            - Vai com Deus, mocinho.
            Se não retribuísse o sacro cumprimento, logo ralhava.
            - Fale “vai com Deus também”, mocinho.
            Era devota a todos os santos e a Deus, e nunca, em nenhum dia, se esquecia do seu Criador, e meu também.
            Não se afobe não, que os senhores logo conhecerão a dona Aparecida. Não era senhora muito equilibrada, embora não seja isso um defeito. Louca, ela não era, mas era sozinha, trazia consigo a sofrida solidão debaixo daquela expressão banguela. Se me lembro bem, nunca a vi sorrir, não sei se por falta de motivos. Gostava de tocar campainha, penso eu, pois, quando colava o dedo enrugado no botão, não tinha pressa de tirar.
            Tinha um toque conhecido. Todo mundo logo sabia que a Dona Aparecida estava à espera. Gostava de chamar em todas as casas da rua, pedia para entrar, alegando “abre a porta pra mim cantar pra você”, dizendo como se fosse isso um argumento convincente. Era assim quase todos os dias.
            - Abre a porta, mocinho – ela pedia.
            Sempre assim. Se era menino, mocinho. Homem, “sinhor”. Se era menina, tratava como mocinha, “sinhora” era pra mulher.
            - Vê se é hora! – queixava mamãe, que se impacienta fácil quando interrompem o almoço não consumado.
            - Deixa, mãe. Ela é doida, tadinha – dizinha minha irmã, pequena, mas eu logo via o brilho malicioso nos olhos. Gostava mesmo era de atiçar a senhora, provocar a “doida, pobrezinha”.
            A gente abria a porta e a dona Aparecida entrava, cheia de intimidade. Claro, quando a porta se achava sem trinco, ela entrava sem cerimônia. Gostava de sentar no sofá, que não lhe dava pé, porque já era senhora muito curva e pequena. Não gostava que homem se sentasse ao seu lado, alegando ser mulher “honesta e dereita”. As vezes eu fazia, só de amolação, e ela logo me botava pra fora do assento, como se fosse mandante na casa, como se o sofá fosse dela. Desaforo!
            A melhor parte era quando perguntava pelo nome. Não podia ser só o primeiro nome, tinha que ser ele todo, completo, pra cantar bem cantado.
            - Qual o seu nome, mocinho? – ela perguntava, fazendo como se fosse interceder em oração. Mas de sacro não tinha nada na música.
            “Linda Cigana” era o seu enredo musical. Batendo palmas e cantando sem afinação alguma, que de voz já quase não tinha mesmo, cantava. Ela se dizia cigano, e nos colocava no lugar da linda cigana. Isso mesmo. Dona Aparecida tirava a Linda Cigana do páreo, e nos fazia ciganos, carregava-nos em suas viagens e acampávamos à beira da cascata, nos levando em sua garupa, gritando upa-upa, parando só pra descansar.
            - Querido, bondoso... – falava o meu nome, ou o de quem se lembrasse na hora – Vamos viver viajando!
            Era louca nada! Pedia até refrigerante! Dona Aparecida, acho que de cigana ela tinha um pouco. Era só abrir a porta, que já entrava. Quando cantava para todos os membros da família, se despedia com a Paz em Deus, e caminhava para a casa vizinha, onde a Linda Cigana daria lugar a outros nomes.
            Às vezes me pergunto por onde anda Dona Aparecida, que já não vejo desde a minha partida da cidade de trinta mil habitantes. Mentira, não me pergunto dela não. Digo isso só para provocar nostalgia, mas a verdade é que só agora me lembrei da pobre Aparecida (se é que pobre não somos nós de não ter a sem-vergonhice e prazer em cantar pra todo mundo e ainda ter o luxo de pedir refrigerante). Acho que ela parou de cantar, coisa que a cigana não contava quando leu nas cartas.
            Quem sabe Dona Aparecida não foi viajar, como dizia sua canção? Deve estar naquela barraca, à beira da cascata, cantando pra um monte de nomes, enquanto a Linda Cigana espera a sua vez.




Dica de Leitura


Quem escreveu essa belezinha foi o brilhante escritor inglês Bernard Cornwell. Decidi, desde o dia em que li esse livro, que iria acompanhar as obras dessa figura talentosa.
Bernard Cornwell já escreveu muitas sagas, todas muito bem trabalhadas e (melhor ainda) ambientadas em períodos históricos factuais.
'O Arqueiro' é o primeiro livro da trilogia 'A Busca do Graal' e, basicamente, conta a trajetória de vida de Thomas de Hookton, um camponês boa-praça que, vira e mexe, monta umas flechinhas aqui e ali, constrói seu arco e vive a vida que se pode viver em um povoado no século XIV. Nessa época já acontecia um dos conflitos armados mais violentos de todos os tempos: a Guerra dos Cem Anos.
A vida do camponês muda quando Hookton, uma pequena vila inglesa e lar de Thomas, é invadida pelos franceses. Os caras roubam tudo, matam todos, até mesmo a família do protagonista é massacrada. O ataque foi orquestrado por Arlequim, um sujeito tenebroso que queria, a todo custo, uma velha lança guardada na igreja de Hookton. Segundo diziam, a relíquia não era uma lança comum, mas aaquela usada por São Jorge para matar o dragão.
Thomas bem que tentou proteger o que podia, mas estava sozinho, ele e seu arco, contra dezenas de besteiros. Quando eles batem em retirada, Thomas pôde, finalmente, voltar para conferir o estrago. O camponês encontra o padre da vila à beira da morte dentro da igreja. Aquele homem de túnica que deveria dedicar-se à castidade era, na verdade, pai de Thomas. Diante do pai moribundo, o rapaz promete trazer de volta a lança de Sâo Jorge, a relíquia levada por Arlequim. Essa seria uma promessa que o próprio destino se encarregaria de cobrar dia após dia.
Thomas, então, é um homem só em uma vila praticamente morta. Sua jornada começa a partir daí. Viajando para o outro lado do Canal da Mancha, o rapaz se une a um grupo de arqueiros comandados por Steak e, juntos, passam a combater os inimigos franceses.
O arqueiro protagonista mostra o seu valor, derruba tropas, auxilia na tomada de La Roche-Derrien e, no processo, faz um inimigo, um cavaleiro habilidoso cuja ambição gira em torno de mulheres, posses e títulos, o que, aliás, era o que mais se prezava entre os cavaleiros. Mas não apenas isso, Thomas também ganha bons amigos, um padre que se preocupa com a alma do arqueiro e um sogro que pode vir a ser o melhor aliado na luta contra o Arlequim.

A narração é leve, bem trabalhada e a história possui uma fluidez própria, apresentando uma atmosfera medieval sedutora. Cornwell demonstra seu conhecimento histórico acerca dos costumes e hábitos da época, além dos eventos que ocorreram durante a guerra entre franceses e ingleses, transportando o leitor à Idade Média, uma viagem empolgante e igualmente perigosa. Usando toda essa informação e intimidade com as palavras o autor demonstra saber o que escreve e revela uma narração de fácil compreensão. A história épica certamente pode cativar você, caro leitor.

Detalhe: Se você espera ler essa história em busca de ficção e seres mágicos, fadas e dragões está no lugar errado.   

Mas se você procura um campo de batalha, chuva de flechas, um romance nada idealizado e a luta pela honra... Tá tudo aqui, em "O Arqueiro"!
Vale a pena conferir, leitura sem pretensão, mas com um complemento cultural que deve valer de alguma coisa, certo?

Logo comentarei sobre o segundo livro, "O Andarilho". Não faço isso agora por uma simples questão: eu ainda não li xD 

Boa Leitura! Fica na Paz!

Capítulo 3 - Ratos e Suco de Uva


 Confira o terceiro capítulo de Inspirados - O Andarilho do Tempo. A história conta com vinte e quatro capítulos prontos e a estimativa é de trinta e dois capítulos, embora esse número possa aumentar. Em todo o caso, espero que apreciem a leitura. Fiquem na Paz!

 
O tempo, passe ele lenta ou rapidamente, não deixa nenhuma pista de como será o futuro. Em três anos muitas coisas mudam... Ou não.

“O grande campo estava coberto de neve. O centeio fora tomado pela nevasca e, embora ainda fosse dia, o céu era negro e as nuvens pareciam pouco amistosas. Não havia uma única promessa no céu, uma sombra apocalíptica se formava sobre as tendas feitas de toras de madeira e palha seca. Talvez fosse apenas um mau agouro, mas, até aquele momento, as únicas criaturas que desafiavam o frio devasso eram os corvos. Eu me mantive todo o tempo no porão. Estava sozinho na cabana. Não. O medo me acompanhava.
            Embora ninguém ousasse fitar o horizonte, os aldeões sabiam que um mal devastador estava por vir, montado em um cavalo de vento, com sua tropa de extermínio aos flancos. Seria uma questão de tempo até que a aldeia não fosse nada além de uma mancha de sangue da imaculada brancura da neve. Os corvos, quase eufóricos, sabiam que, até o meio-dia, haveria um farto banquete a saciar o desejo por carne morta.
            Em um dia de sol, talvez a aldeia tivesse uma chance. Poderiam fugir para as montanhas e se refugiarem ao lado dos Calistos. Mas a neve os denunciaria. Embora fosse aparentemente tímida e dócil, aquela brancura escondia seus sórdidos segredos. Assim como os corvos, elas também tinham fome. A esperança era, agora, um triste e tolo folclore.
            Não tardou a começar.
            O trotar dos cavalos ecoava desde os vales até o pico das montanhas. Era quase possível afirmar haver um sorriso no bico enferrujado das aves famintas, enquanto as nuvens pareciam dar as costas ao triste cenário. As crianças começaram a chorar, sentiam o mal praticamente se aproximando. Os aldeões lançaram mão sobre qualquer objeto que poderiam usar como armas. Foices, pás, enxadas e martelos. As esposas abraçavam os filhos agressivamente. Uma mulher começou a gritar em uma das cabanas. Não se tratava de um ataque. A mãe abraçara a pequena filha forte demais, asfixiando-a. Os berros, no entanto, só serviram para apavorar toda a gente. Em menos de um minuto, todos gritavam e choravam, mas o medo ainda os mantinha estáticos dentro de suas casas.
            Finalmente, o som do trotar alcançou nitidamente os moradores. As primeiras coisas a despontar do horizonte foram inúmeros borrões velozes e minúsculos, correndo sobre a neve sem nenhuma dificuldade. Assim que alcançaram o campo do vilarejo, foi possível identificá-los. Ratos, de pelagem púrpura. Os olhos eram vermelhos e hostis, dentes afiados e uma expressão legível: pavor. Pela forma como corriam desgovernados, algo parecia ter assustado as pequenas criaturas. O mais lento do grupo de roedores foi esmagado pelo primeiro casco de um cavalo. Os outros chiaram como uma chaleira em ebulição. O céu começou a ficar nublado, cobrindo os campos de uma capa de sombra incomum.  
            O primeiro grito ecoou por toda a...”

            A caneta metálica caiu sobre a grama, enquanto Charlie sentia o caderno lhe ser tomado violenta e subitamente.
            O garoto, antes recostado na árvore enquanto escrevia uma intrigante história, agora estava de pé, encarando outros três garotos bem a sua frente. A volta deles, outros jovens conversavam, como de costume durante os intervalos no colegial.  
            - Me devolve isso, Drue! – bradou Charlie, furioso – isso é meu!
            - Hey, Grubs... – disse o rapaz chamado Drue, olhando para o caderno com desdém - Veja só, ele é um poeta.
            O garoto graúdo com cara de asno, ao lado de Drue, forçou uma gargalhada, mas não soou nada parecido.
            - Drue! – Charlie avançou contra o rapaz. Ele lançou o caderno para o terceiro amigo, o mais alto com cara de foca.
            - A mocinha quer continuar escrevendo, quer? – caçoou o líder do grupo.
            Charlie parou de insistir, apenas se afastou e encarou o trio. Sabia que uma briga era inútil e, certamente, perderia miseravelmente.
            Havia algo na realidade com a qual Charlie não conseguia lidar: ela nunca estava ao seu lado. Naquele momento essa verdade parecia ainda mais incontestável. Desde o seu primeiro dia na escola Drue era a fonte de todos os problemas do rapaz e, por mais que se empenhasse arduamente em evitar o valentão, era quase impossível mantê-lo distante. Charlie percebeu os olhares atentos dos alunos em sua direção. Alguns pareciam apreensivos, outros pareciam empolgados com uma provável briga onde, certamente, Charlie seria motivo de piada pelas próximas semanas.
Naquele momento, o rapaz sentiu saudade da sua primeira semana na cidade, quando conheceu Helena, há três anos. Era um garoto normal, sem rótulos, experimentando um ar renovado. Em um lugar como aquele, porém, era diferente. Era de se esperar, as terapias poderiam reprimir, mas não eram capazes de mudar sua personalidade.  
            - Isso é só um livro idiota, Drue... – Charlie balançou a cabeça, desanimado – pode ficar, se o quer tanto.
            Ele se virou, desistente. Havia a resignada derrota no tom da sua voz. Não possuía mais aquele medo de dois anos atrás. Apanhar, ser escorraçado e humilhado. De repente tudo isso não era grande coisa. Para Charlie, essas coisas eram como respirar. Era impossível viver sem. Ele sabia que, acontecesse o que acontecesse, ele estaria seguro dentro de sua própria mente. Era confortável ter um lugar onde ninguém poderia entrar.
            - Você é patético, maricas – riu Drue, socando o braço do amigo maior – tão patético que chega a me dar dó.
            Charlie estava caminhando quando sentiu o caderno acertar-lhe a nuca, fazendo-o se abaixar com o ataque surpresa.
            - Fique com esse monte de lixo, idiota. – dizendo isso, Drue se retirou, acompanhado de seus comparsas.
            Charlie, de joelhos no chão enquanto recuperava seu livro, não conseguia deixar de rir. Não um riso contente, satisfeito. Era a sua estranha maneira de lidar com situações do tipo. Aprendeu a ver sua própria vida como uma cômica ironia, em que, em suas histórias, ele era o cavaleiro de armadura branca que salvava as pessoas. Na vida real, por outro lado, era uma espécie de aspirante a bobo da corte.
            Permaneceu no mesmo lugar por algum tempo, esperando que toda a atenção se dispersasse e ele pudesse cruzar os corredores sem ser notado. Mas não pareceu durar muito.
            - Hey, Charlie! – uma voz irritante e muito familiar chamou pelo rapaz – Chars! Qual é o problema, cara? Por que não se defendeu?
            Então era isso. A triste realidade.
            O garoto era parecido com Charlie, porém menor e cabelos ligeiramente maiores. Ambos partilhavam dos mesmos olhos verdes, o nariz fino, embora Charlie ainda tivesse um rosto mais magro e fosse quase dez centímetros mais alto.
            - Me deixa em paz – pediu Charlie, colocando o caderno na mochila – você deveria estar tentando se enturmar. Ninguém anda com o irmão mais velho no colegial.
            Irmãos. Charlie estava em seu último ano, com dezoito anos mal contados, enquanto seu irmão, de apenas quinze, acabava de começar sua vida naquele colégio.
            - Charlie, o cara zombou de você. Não vai fazer nada?
            - Fica na sua, Andrew. Eu não quero que você fique andando comigo durante o intervalo, ok?
            - Por que não?
            - Ora... Eu não tenho que dar explicações. É assim que funciona.
            Charlie finalmente fora descoberto pelo irmão. Durante todo esse tempo o caçula encarava o irmão mais velho como uma espécie de “dono do pedaço”, um modelo a ser seguido. Andrew o conhecia muito bem, com todo o seu altruísmo, dedicação e consideração com as pessoas, ainda que fosse difícil vê-lo se relacionar com alguém. Durante quase seis anos Charlie foi voluntário em um asilo, e isso só fazia crescer ainda mais a admiração de Andrew.
            - Cara, mas... Aquele idiota te humilhou... eu achei que...
            - Andrew, cala a boca! – gritou ele, furioso, já com as bochechas vermelhas de puro ódio – Isso aqui não é, nem de longe, um parque de diversões pra mim! Nunca foi! Drue sempre me sacaneou, e vai continuar assim até a formatura! Não há nada a ser feito! É bom se acostumar com o irmão fracassado!           
            Enquanto Charlie dava as costas para o irmão rumo à cantina, Andrew permaneceu estático, tentando disfarçar o espanto. Pela primeira vez ele havia notado. Seu exemplo de vida era um perdedor.
            - Ah... Charlie! – Andrew começou a correr em direção ao mais velho – Olha, tudo bem. Vamos deixar aquele idiota pra lá. Vamos ignorá-lo, sem problema.
            - Façamos assim: nós ignoramos o Drue, e eu ignoro você. – resmungou Charlie, sem se dar ao trabalho de olhar para trás. Entrou no corredor e tomou o seu rumo, deixando o irmão falando sozinho.

            *********************************************************

            Estava sozinho, de frente para o seu armário, número 207. Charlie olhou de um lado para o outro, certificando-se de que ninguém o veria. Finalmente, seguro de que nenhum olhar curioso o tinha como atenção, abriu sua mochila e tirou uma garrava com um líquido viscoso e arroxeado.
            - Suco de uva, mãe? – Charlie fez uma careta – não tinha nada melhor para fazer não?
            Colocou a garrafa no fundo do armário, procurando algo que pudesse cobri-la. Mexeu na mochila, sem saber, exatamente, o que procurava, apenas encenando a procura por um livro. Não queria que ninguém soubesse sobre os lanches que sua mãe o obrigava a levar. “Não sou nenhuma criança”, pensava ele, enquanto metia a mão na mochila, ignorando os livros didáticos.
            Seus dedos pousaram em seu caderno. Pegou-o, deixando a mochila cair com um baque leve. Folheou as páginas por poucos segundos, lendo partes dos trechos escritos por ele mesmo.
            - Isso está horrível – murmurou ele – não escrevo nada descente há... Há muito tempo.
            Encostou-se no armário, deixando suas costas deslizarem sobre o metal frio. Acomodou-se no chão e arrancou a última página do caderno, a última coisa que havia escrito antes de ser surpreendido pelo babaca da sua escola.
            Leu o último parágrafo, gesticulando os lábios sem deixar sair nenhum som.

“Finalmente, o som do trotar alcançou nitidamente os moradores. As primeiras coisas a despontar do horizonte foram inúmeros borrões velozes e minúsculos, correndo sobre a neve sem nenhuma dificuldade. Assim que alcançaram o campo do vilarejo, foi possível identificá-los. Ratos, de pelagem púrpura. Os olhos eram vermelhos e hostis, dentes afiados e uma expressão legível: pavor. Pela forma como corriam desgovernados, algo parecia ter assustado as pequenas criaturas. O mais lento do grupo de roedores foi esmagado pelo primeiro casco de um cavalo. Os outros chiaram como uma chaleira em ebulição.  
            O primeiro grito ecoou por toda a...”
            Não sabia como terminar. Odiou tudo o que havia feito. Amassou a folha devagar, sentindo a tensão esvair pelas pontas dos dedos, enquanto o pedaço de papel era lentamente esmagado. Suspirou longamente.
            Já não tinha muito que fazer ali. Levantou-se e jogou alguns livros na frente da garrafa, por precaução. Atirou a sua história, agora reduzida a uma bolinha de papel, para dentro do armário, sentindo a frustração escapando aos poucos. Apanhou o livro de álgebra e, dando uma golfada de ar, revigorou o ânimo e tomou sua direção rumo sala de aula. Sentiu-se um pouco culpado por gritar com o irmão, mas iria resolver o problema quando chegassem em casa. Ele sabia que, naquela realidade em que vivia, sua casa e sua família era a única verdade com a qual gostava de conviver.

            A aula foi uma droga. O professor era um gordo baixinho com a voz esganiçada, provocado pela “língua desconfortável”, como os alunos gostavam de chamar.Era como se a própria língua tentasse fugir daquela boca cheia de dentes amarelos. A gravata borboleta sempre estava muito apertada, a camiseta estava sempre coberta por uma mancha amarela de suor e, para piorar, fedia a cigarro.
            Em vários momentos Charlie se pegou distraído dentro de sala. Era um habitual costume, no primeiro dia de aula, ignorar todos os professores. Se se mostrasse interessado na matéria, Charlie correria o risco de provocar alguma simpatia em seus professores e, normalmente, esse tipo de coisas gerava uma série de perguntas e, a última coisa que ele queria, era resolver uma questão de polinômio na frente de toda a classe.
            Ao invés disso, pegou uma folha e, deixando sua mente viajar um pouco mais, escreveu um pequeno trecho, algo que andara pensando desde o último encontro com seu arquiinimigo Drue.

            “Eu não sei como chegamos até aqui. A corte estava um caos. As chamas devoravam as construções, e o sangue nunca foi tão vivo em meio ao vermelho-tijolo da cidade onde, outrora, a paz reinava em absoluto. Inúmeros vôos rasantes cobriam o céu com determinação. Dragões. Todo o tipo deles. Os enormes dentes, no entanto, não eram, nem de longe, o mais assustador. O cheiro de enxofre vinha acompanhado do calor infernal, enquanto inúmeras bolas de fogo explodiam em meio às torres e praças. Eu estava de frente ao completo pavor. Iriam destruir nosso vilarejo sem pensarem duas vezes.  
            O pavor havia se instalado e, ainda que eu tentasse me acalmar, imaginar que aquelas coisas estavam bem acima da minha cabeça não me agradava.”

            O sinal tocou no mesmo instante, despertando Charlie de seu devaneio. Ajeitou suas coisas na mochila e, assim que o professor deu a palavra final, saiu em disparada. Quanto mais cedo chegasse em casa, melhor.
            Estava saindo da sala quando avistou Drue e a dupla de idiotas próximos ao seu armário. Drue estava encostado no metal, enquanto duas garotas cheerleaders conversavam animadamente, exibindo o típico sorriso superficial.
            Houve um tempo em que Charlie acreditava que toda essa coisa de populares e impopulares não passava de enredo para filmes. Estava enganado. Se havia uma fantasia cinematográfica baseada na realidade, ele a estava vivendo nesse momento.
            Esperou atrás do bebedouro, sentado em uma cadeira fingindo amarrar o cadarço. Se fosse verdade, o cadarço seria quilométrico, mas toda a enrolação era uma manobra para evitar Drue e uma possível cena humilhante.
            Os minutos foram passando e Charlie já estava se cansando de esperar. O corredor estava praticamente vazio naquele momento, Drue já estava se despedindo das garotas. Pronto, agora era seguro. Levantou-se e seguiu em direção ao seu armário. Numero 207. Suspirou, aliviado e, em parte, frustrado. Por sorte, seria o seu último ano evitando todo aquele constrangimento. Iria fazer letras e viver em um círculo de pessoas intelectuais, superiores o suficiente para desprezarem completamente qualquer ato de bulling.
            Abriu o armário, tirou o livro de álgebra e guardou-o em meio aos outros. Estava pronto para sair, quando uma mão socou o seu armário. Aquilo estava ficando incômodo.
            - Vamos esclarecer uma coisa, Logan... – disse a voz grosseira de Drue, nunca mais me dê as costas daquela forma. Isso pode acabar com a minha reputação e, se isso acontecer, e você estiver no meu caminho, vou esmagar você.
            Charlie estremeceu. Aquele tom de voz ameaçador normalmente vinha acompanhado de alguma cabeça dentro da privada (normalmente era a do próprio Charlie), ou de algum dinheiro extorquido. Não era medo. Há muito tempo ele deixara de ter medo dos valentões. Seu único pesar era ficar mais tempo naquele lugar indesejado.
            - Olha, Drue... Você pode me odiar gratuitamente e me humilhar na frente de todos... – disse Charlie, sentindo que, talvez pudesse passar dos limites – Mas não pode me tirar o direito de ignorá-lo. E isso, meu chapa, é um direito meu. Você já leu a Constituição, certo?
            Drue abriu a boca, mas, como de costume, ele não era inteligente o suficiente para discutir como uma pessoa civilizada. Charlie deduziu que, talvez, fosse esse o motivo de Drue usar o punho constantemente para “interagir”. Charlie sabia muito bem o que estava fazendo. Drue passaria os próximo minutos se perguntando o que raios era a Constituição.
            - Se não se importa... – Charli pegou o último trecho de sua história e colocou-o dentro do armário.
            Drue empurrou Charlie, de praxe, e sumiu de vista. O rapaz respirou, enfim, mais a vontade, contente por não estar com a cabeça molhada. Fechou o armário, contando os segundos para chegar em casa. Estava trancando o armário, já passando o cadeado pela fenda da porta, quando pareceu ter ouvido alguma coisa. A principio não deu atenção. Mas o barulho aumentou. Apurando os ouvidos, deu uma analisada a sua volta, buscando a fonte do ruído. Parecia o som de algo chiando, como uma chaleira em ebulição.
            Esse pensamento causou um inexplicável arrepio. Percebeu, então, de onde viera o som, que se repetiu mais e mais. Fosse o que fosse, estava dentro do seu armário. Aproximou a cabeça da porta, para confirmar. Decididamente, era dentro do seu armário. Estava pronto para abrir o armário, quando...
            BUM!
            Charlie deu um salto para trás. Alguma coisa do lado de dentro bateu na porta, provocando um calombo na superfície de metal. Certamente, havia algo, e ele não sabia se queria descobrir do que se tratava.
            Aproximou-se lentamente, preocupado. Poderia ser alguma brincadeira de Drue, pensou ele. Provavelmente o Grande Final, o trote mestre, que faria com que o nome Charlie Logan fosse conhecido por todo o mundo pelos próximos vinte anos, como o cara mais idiota de toda a escola.
            Por mais que esse pensamento assolasse a mente do garoto, ele não imaginaria Drue colocando uma bomba no armário de alguém, ou alguma coisa que pudesse realmente ferir. Só havia uma forma de descobrir. Aproximou-se do armário com certo receio, mas, no meio do caminho, decidiu-se. Com ímpeto, meteu a mão no cadeado, removendo-o da fenda. Abriu sem estremecer.
            A primeira coisa que fez foi saltar, mais uma vez, para trás e soltar uma exclamação de surpresa e pavor.
            Um bando de ratos arroxeados pulou para fora do armário, em uma algazarra descontrolada, chiando e sacudindo para todo e qualquer canto. Corriam desenfreados pelos corredores, se enfiando nos cantos dos bebedouros, dentro das latas de lixo ou desaparecendo no fim do corredor, entrando em salas vazias. A primeira coisa que fez foi agradecer por estar sozinho. A segunda... Foi se queixar por estar sozinho.
            Ver aquela cena, de alguma forma, o fez sentir um frenesi súbito. O que iria fazer? Chamar ajuda? Mas aí precisaria dizer o que tinha acontecido e, ainda que tivesse tempo para pensar, não iria bolar uma desculpa para explicar o porquê de ratos púrpuros estarem dentro do seu armário. Ele mesmo não saberia explicar isso a si mesmo.
            Tentou entender como acontecera. Agora pouco estava de frente ao armário aberto, nada havia entrado, ele tinha certeza. Tudo o que havia deixado eram os seus livros, um gibi e a sua garrafa de suco de uva. Era improvável... Não, era impossível que aquelas coisas tivessem entrado sem serem notadas. Haveria uma explicação plausível, mesmo porque, acontecimentos mirabolantes acontecem apenas em fábulas e, Charlie sabia muito bem, esse tipo de coisa não existia.
            Só conseguiu pensar em uma coisa naquele instante. Esvaziou toda a mochila, guardando os livros no armário. Fechou-o e saiu em disparada na direção do primeiro rato que surgira no seu campo de visão. Mais tarde ele diria que foi pura tolice, mas, ao mesmo tempo, esclarecedor. Mesmo porque, o mais bizarro ainda estava para acontecer.  
            Não foi fácil. Eram ágeis e pequenos, mas, finalmente, ele conseguiu pegar o primeiro. Segurou o animal asqueroso pela cauda e tacou-o dentro da mochila, fechando o zíper.
            - Menos um... Falta mais um monte... – murmurou, enquanto corria na direção do rato mais graúdo, que se esquivara para dentro da lixeira.
            Agarrou-o com firmeza, desviando da mordida, jogou-o na mochila e confinou o animal. Já estava ofegando, quando viu um pequeno bando deles correndo para dentro do laboratório. Excelente, ratos desgovernados dentro de uma sala onde tudo era frágil e fácil de ser quebrado. Ele precisava detê-los. De uma forma inexplicável, ele se sentia responsável pelos bichinhos.
            Correu até o laboratório, fechou a porta e ficou em silêncio. Precisava acompanhar o movimento pelo som.
            Ouviu um grunhido debaixo da mesa. Saltou sem aviso, escorregando no chão liso e tateando sem ver exatamente o que estava fazendo. Seus dedos agarraram uma cabecinha peluda, Charlie puxou o rato para si e, abrindo a mochila, jogou-o apressadamente. Os outros dois tentaram fugir, mas não conseguiam competir com as mãos do garoto.
            O outro rato estava dentro de um béquer, comendo algo verde. Correu até ele, usando a palma da mão como tampão, aprisionando o bicho dentro do recipiente. Abriu uma fresta na mochila e despejou o animal. O próximo estava em cima do armário. Esse foi o mais difícil. Charlie precisou usar a vassoura, derrubou dois tubos de ensaio, um cadinho de porcelana e uma garrafa com uma cobra em conserva.
            Demorou quase vinte minutos para ter certeza de que havia pegado todos os que entraram no laboratório. Sete. E já estavam lotando a mochila. Pelo menos uns trinta ratos tinham escapado do seu armário e, a não ser que tivesse uma bolsa maior, seria impossível pegar todos.
            - Maravilha. Esse é o meu fim...
            Saiu do laboratório em silêncio, caminhando na ponta dos pés, como se isso pudesse tornar menos real sua loucura por carregar ratos na mochila. Passou em silêncio pelo corredor, apurando a visão e vasculhando cada fresta, cada canto minúsculo que pudesse abrigar uma bola de pêlo roxa e asquerosa. Foi quando o ar faltou em seu pulmão.
            Próximo à porta do diretor, um rato consideravelmente grande estava roendo o fio que alimentava o motor de um dos aquecedores. O animal ficou imóvel diante de seu observador. Levantou sua cabeça minúscula em direção a Charlie e o encarou com aquele par de olhos vermelhos irritante.
            - Você é meu, chapa... – murmurou ele, suficientemente baixo para que mais ninguém ouvisse.
            O rato notou a posição de ataque. Abandonou o fio e encarou a porta do diretor. Naquele momento, era como se estivessem se comunicando e, para o aborrecimento de Charlie, ele sabia exatamente o que o bicho estava prestes a fazer.
            - Não... Não... Não!
            O rato disparou em direção à porta do gabinete do diretor. Sem pensar meia vez, Charlie correu no mesmo sentido, sentindo a pulsação cada vez mais urgente. O som das patinhas do rato chicoteando o piso parecia com o som de brasa. Apertou a alça da mochila entre seus dedos. Estava bem perto agora.
            Estava próximo, e cada vez mais... O rato também se aproximava da porta.
            Outro bum! O animal se chocou contra a porta com uma agressividade incomum. Não houve muito o que dizer. O impacto parecia ter feito o rato estourar. E foi o que aconteceu.
            O que antes era um rato, agora não era nada além de uma mancha roxa escorrendo no vidro da porta, como se um balão de água com corante fosse atirando contra o gabinete.
            Um último chiado de sua mochila, e Charlie encarou, perplexo, um líquido roxo escorrer pelo pano, que se tornou cada vez mais leve. O interior de sua mochila ficou calmo e silencioso. O cheiro de suco de uva inundou o corredor. Sem acreditar no que acabara de presenciar, abriu a mochila e constatou o que temia: não havia mais nenhum rato. Apenas seu suco escorrendo e sujando todo o piso.
            Não precisou nem esperar o diretor sair por aquela porta para sumir de vista. Provavelmente, no dia seguinte, iriam fazer uma varredura pela escola, até encontrar o engraçadinho que havia espalhado todo aquele suco de uva pelos cantos da escola. A última coisa que ele fez antes de sair secretamente da escola, foi se certificar em seu armário. A garrafa estava aos pedaços.
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos