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[Resenha] - Seis Coisas Impossíveis, de Fiona Wood

     Alô amigos Inspirados!

     Imagine você que, depois de sair das profundezas do mundo fantástico, precisei ancorar em um universo mais realista. E eu não poderia ter escolhido lugar melhor. "Seis Coisas Impossíveis" foi, pra mim, uma das melhores experiências do gênero esse ano. Bora lá?



Título: Seis Coisas Impossíveis

Autor: Fiona Wood
Editora: Novo Conceito
271 páginas - 2013


     Dan Cereill (pronuncia-se Surreal, mas as pessoas insistem em chamá-lo de Cereal) era o tipo de garoto de 15 anos que, sem fazer muita força, conseguia passar uma impressão errada a seu respeito. Isso quando não estava ocupado demais passando despercebido. E quando o pai anunciou falência, separação e homossexualidade, a vida de Dan deu uma guinada. Só que pra baixo. 
     Mãe e filho se mudaram para a casa de uma tia que deixara de herança. O problema era que esse novo lar era uma casa tombada pelo Patrimônio Histórico, então conviver com as paredes carcomidas e o cheiro de xixi de cachorro seria uma boa maneira de começar a se acostumar à nova vida. E, depois de mudar de escola (porque mudança pouca é bobagem!), ele decide criar uma lista de coisas impossíveis:


1. Beijar a garota;
2. Arrumar um emprego;
3. Dar uma animada na mãe;
4. Tentar não ser um nerd completo;
5. Falar com o pai quando ele ligar;
6. Descobrir como ser bom e não sair abandonando os outros por aí. 


Apaixonado pela vizinha Estelle, amigo de seu mais novo parceiro Howard - o cão que veio de "brinde" com a casa - e engajado na ideia de ajudar a mãe no novo ramo de bolos de casamento, Dan vai descobrir ser um incompetente em todos esses quesitos. Mas isso não vai ser um problema para aprender com os erros e descobrir como consertá-los no fim das contas. 


     Quando a Novo Conceito mandou esse livro, eu já sabia que seria uma boa leitura pra passar o tempo. Mas imagine minha surpresa quando me deparei com uma história de profundidade aqui!
     Primeiro, não podemos deixar de lembrar que a história é escrita em primeira pessoa, sob a ótica de um garoto de quinze anos que perdeu tudo e precisou aprender a economizar até os centavos. É importante ter isso em mente porque muitas atitudes que podemos julgar como estúpidas são, nada mais, nada menos, que o reflexo da adolescência turbulenta. Fiona Wood conseguiu me convencer com sua narrativa fácil, sem firulas (coisa que os YA's estão transbordando por aí), mas com uma sinceridade surpreendente, quase como se Dan Cereill fosse real, inclusive suas dores. 

     Segundo, é importante ter em mente que algumas questões inacabadas continuam inacabadas quando se termina o livro. E, sinceramente, achei isso sensacional. A ideia do final feliz foi remodelada pela escrita de Fiona Wood, com um final que não soluciona todas as questões e aflições do garoto, e talvez seja esse o principal motivo de dar tanta sinceridade à história.
     As personagens principais foram muito bem construídas, e o mais legal é que nós podemos conhecê-los por suas "bagagens", todos os fantasmas do passado. Tenho um apreço especial por Howard, o cachorro de Dan. A imaginação do garoto dá um tom completamente diferente ao amigo de quatro patas, e essa relação é o tipo de coisa que esperamos em um livro com clichês bem trabalhados.

     Seis Coisas Impossíveis está, na minha humildíssima opinião, no mesmo patamar que YA's como A Culpa é das Estrelas. A carga emocional é parecida, ainda que os motivos sejam completamente diferentes. Uma obra que vale a pena ser lida, a atmosfera é muito bem criada e, a melhor parte, o livro é mais do que uma leitura para distração. 

     Tenham uma ótima leitura! Fiquem na Paz! =)
     

[Resenha] Adeus à Inocência, de Drusilla Campbell

     Algumas histórias se cruzam de um jeito inexplicável, e quando se entrelaçam, fica difícil acreditar se tratar de uma simples obra do acaso. O problema é que, para darmos as mãos a algo novo, precisamos desatar o elo com coisas antigas. Quando essa coisa antiga é a inocência, o que podemos esperar do novo?





Título: Adeus à Inocência
Autora: Drusilla Campbell
Editora: Novo Conceito
270 páginas
2013

     Duas vidas nunca pareceram tão distantes quanto as de Django e Madora. Um tinha tudo e ninguém, a outra não tinha nada e alguém. E, num desencontro marcado pelo destino, eles se esbarrariam longe de suas casas, longe de seus planos.

     Madora nunca fora dona de si mesma, precisava encostar-se em uma personalidade forte, gostava de viver na sombra de alguém que pudesse liderá-la, e ela se sentia bem com isso. Aos 17 anos conheceu Willis, o sujeito por quem se apaixonou e acreditou ser a sombra acolhedora que lideraria sua vida para sempre. Mas ao longo dos anos Willis se revelou uma pessoa instável e intimidadora, capaz de domá-la e mesmo fazê-la acreditar estar errada simplesmente por querer pensar por si mesma. Acompanhada por seu amigo pit bull Foo, babá de uma garota de 16 anos que era mantida cativa dentro de um trailer, Madora começou a perceber que sua vida não estava certa.
     Django, por outro lado, era o oposto. Ele ainda era apenas um garoto, mas sua personalidade era tão sólida quanto pedra. Sua vida como filho de estrelas do Rock nunca foi um problema, pelo contrário. Mas um acidente de carro tornou o menino órfão e, com sua nova condição, sua vida mudou absurdamente. Morar com a tia deu a ele uma nova perspectiva.
     Foi por acaso que os caminhos de Django e Madora se cruzaram. A partir daí, uma amizade estranha ente eles iria se tornar um problema e uma solução. Afinal, eles tinham algo em comum: estavam em inércia, suas vidas haviam estacionado numa grande questão, e caberia a eles traçarem uma jornada pelo deserto metafórico dentro deles mesmos, até que pudessem encontrar um oásis, onde pudessem encontrar de novo um motivo para viver.

      Escrito em terceira pessoa, Adeus à Inocência é um livro sobre duas personalidade diferentes que, de um jeito ou de outro, viviam presos em si mesmos, enquanto Madora não conseguia sair de si mesma, Django não era capaz de deixar ninguém entrar. Mas conhecer um ao outro foi a solução, e a narrativa mostra, de forma simples, porém densa, como esse encontro aconteceu.
     As personagens são muito bem elaboradas, alguns são facilmente odiados, outros são dignos de pena ou ganham nosso carisma logo na primeira página. O problema mesmo é ter paciência para acompanhá-los ao longo dessa jornada. A leitura não foi uma das melhores que tive ao longo do ano, mesmo sendo um livro pequeno e de leitura fácil, o ritmo é cansativo um bocado de vezes, chega a ser monótono em algumas partes. É o tipo de livro que pede por um momento específico da vida do leitor, não é uma leitura para todas as horas.
     No fim das contas, posso dizer que o livro teve um começo muito bom, capaz de criar um ambiente onde o leitor se interessa pelas personagens, mas no meio do livro as coisas não ficaram assim tão boas. Apesar disso, o final é surpreendente, não pelo fim em si (acredito que seja algo meio previsível), e sim os detalhes que fizeram esse desfecho ser tão original.

    Boa leitura, fiquem na Paz! =) 

[Leio, Logo Resenho...] - Dias Melhores Pra Sempre, sob a ótica de Samanta Holtz

Alô, amigos Inspirados!
É com atraso, porém com muita alegria e satisfação, que trago hoje a resenha feita por Samanta Holtz, autora de duas lindezas nacionais, O Pássaro e Quero Ser Beth Levitt! E pra melhorar ainda mais a vibe de resenhas feitas por autores nacionais, o livro escolhido é o lançamento de Maurício Gomyde, um autor brasuca também muito querido entre os leitores amantes de romances de ambientação verde-amarelo. Bora pro que interessa, então! 
Com vocês, Samanta Holtz! =) 


Olá, leitores inspirados!

Sou Samanta Holtz, autora dos romances “O Pássaro” (2012) e “Quero ser Beth Levitt” (2013), e estou aqui a convite do querido Pedro Almada para escrever uma resenha.

Devo dizer que começar esse texto me trouxe duas dificuldades. A primeira foi que não tenho o hábito de escrever resenhas, apenas ler – então, fiquei imaginando qual seria a melhor forma de conduzir o texto e minha opinião. E a segunda dificuldade é a que quase emperrou todo o processo: sobre qual livro escrever???

São tantas as obras pelas quais sou apaixonada! Tantas histórias já tocaram meu coração e fizeram a diferença em minha vida... Porém, não havia jeito: hoje, eu teria que escolher! Então, decidi falar do livro que acabei de concluir e o qual, de quebra, é de um dos autores nacionais que mais admiro na atualidade...




“Dias Melhores Pra Sempre” – Maurício Gomyde

Esta é a mais recente publicação do autor e, assim que tive a oportunidade de adquirir meu exemplar, não perdi tempo. Estava ansiosa pela leitura, pois já li outros dois livros do Mauricio e achei ambos incríveis, e foi ele próprio quem me advertiu: “Você está com a expectativa muito alta”. E tem como ser diferente? Tem como não esperar o melhor do Mauricio?
Foi o que eu esperei. E é claro que eu não estava errada...


O livro conta a história de Bruno, um estudante de medicina apaixonado por surfe que tem a vida bagunçada após um grave acidente na viagem dos sonhos que fez ao Havaí, no penúltimo ano do curso. Boa-pinta, popular e namorado da maior gata da faculdade, sua vida parece não mais fazer sentido para os padrões que conhecia até então, agora que ele precisa lidar a nova realidade do seu corpo após o acidente. Até que uma garota discreta, com quem nunca havia conversado, entra de mansinho em sua vida. Micaela é a típica nerd com quem ninguém conversa, e que, segundo as palavras da própria personagem, “desenvolveu o dom da invisibilidade”. Na honesta intenção de ajudar o rapaz a superar a difícil adaptação à nova vida, ela acaba deixando Bruno completamente encantado por seu jeito discreto e “aquele enorme par de olhos azuis”. Primeiramente, como amigo, em sua admiração e gratidão por tudo o que a garota tem feito por ele – tanto, que acabam se tornando melhores amigos. Não demora muito, porém, para que essa admiração se transforme em algo mais. O que demora é o tempo que ele leva para decidir dizer isso a ela. Tanto, que talvez seja tarde demais...
Em determinado momento, os papéis são invertidos: é Micaela quem se vê afetada por um grave acidente e precisa da ajuda de Bruno, porém suas sequelas são muito mais profundas do que um dano corporal. Seu cérebro é afetado e ela desenvolve prosopagnosia, que é a incapacidade de reconhecer rostos.
A partir daí, fica a pergunta utilizada pelo autor na sinopse: “Se o grande amor da sua vida não o reconhecesse mais, o que você faria para reconquistá-lo?”.
Uma leitura deliciosa, empolgante, viciante... personagens que cativam a cada página, acontecimentos que surpreendem a cada capítulo. E as páginas finais reservam momentos e surpresas que nos fazem, literalmente, arrepiar de emoção. Glorioso e genial! Era esta história que estava pulsando em minha mente e em meu coração, no momento de escrever esta resenha. Tinha de ser ela a escolhida!


Recomendo a leitura deste livro tanto para os românticos, que gostam de histórias cheias de sentimentos aflorados, como também aos que preferem objetividade. É algo que admiro nos livros do Gomyde: ele encontra o meio-termo, sabe ser romântico sem ser meloso e, ao mesmo tempo, ser objetivo sem ser frio. Então, como leitores, cabe a nós aproveitarmos e desfrutarmos dos seus maravilhosos textos!


O autor


Muitas vezes chamado de “Nicholas Sparks brasileiro” (título que já li em comentários de vários leitores por aí!), Mauricio Gomyde nos prende à leitura com a narrativa fluida e agradável. A história se desenrola sem emperrar, sem enrolar, sem entediar. É direta e simples na maior parte do texto e, nos momentos certos, ele nos encanta com parágrafos muito bem elaborados, alguns quase poéticos, o que dá o equilíbrio perfeito. Acho louvável a forma como ele insere elementos interessantes ao longo da história, os quais, por menores que pareçam, ajudam o leitor a entender a essência dos personagens e, claro, são retomados e “utilizados” nos momentos certos para dar ainda mais luz à história e fazê-la passar longe dos “clichês”. Gosto da forma como ele conta o desenrolar dos acontecimentos através de diálogos inteligentes e capítulos que sempre nos deixam sedentos pelo começo do próximo, sem cansar o leitor.
Eu poderia utilizar este espaço para falar de vários autores nacionais que tanto admiro, atualmente. Escolhi Mauricio não somente por ser autor do livro que estou lendo (e me encantando!) no momento, mas também porque eu o admiro além da sua maravilhosa escrita: tiro o chapéu para a disciplina em manter uma rotina impecável de trabalho literário (traduzida no lançamento regular de livros, todos com ótima qualidade) e na garra que esse escritor tem ao trabalhar em suas obras, fazendo desde a escrita até a impressão, venda, divulgação, eventos etc. Como dizem por aí: ele chuta o escanteio e cabeceia para o gol (risos). Se não é fácil para quem pode contar com uma editora (por maior ou menor que seja), imagine ter que cuidar de tudo!

Ao autor, apenas duas palavras, ambas direcionadas ao novo livro: parabéns e obrigada.
Aos leitores, apenas uma... leiam!

Com carinho,

Samanta Holtz

[Resenha] Mago: Aprendiz, de Raymond E. Feist

     Venha, bom amigo, tome um lugar ao redor da fogueira, aqui nós contamos as histórias que os bardos narram em tavernas, de cavaleiros que viveram e morreram lutando, de trolls que sentiram a força oculta de um jovem aprendiz de mago. aproximem-se porque, hoje, nosso contador de histórias é Raymond E. Feist, que desbravou reino após reino em Midkemia até que a história do jovem Pug pudesse ser revelada aos nobres leitores para quem escrevo.



Título: Mago - Livro 1: O Aprendiz
Autor: Raymond E. Feist
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 432
2013
     Midkemia é um mundo diferente do nosso - ainda bem! Habitado por trolls, goblins e elfos, e uma outra infinidade de criaturas mágicas, os homens tentam co-habitar em harmonia. Mas é claro que isso nem sempre é possível, conflitos de interesses sempre existiram, espécies com ódio mútuo, como os moredhel e os elfos (parentes que não se suportam nenhum pouco), ou os próprios homens com os Irmãos das Trevas. 


     Pug é o primeiro a ser apresentado. O jovem de treze anos estava na floresta, fora do reino de Crydee, estava prestes a ser pulverizado por um animal selvagem quando o caçador Meecham surge para ajudá-lo. Pug foi levado para a cabana do mago Kulgan, do reino de Crydee, e seu dreagonete-de-fogo Fantus. O menino jamais trocara mais do que algumas palavras com o mago de seu povo, mas naquele dia uma estranha relação se formou entre eles. Kulgan viu no garoto um potencial singular para as artes mágicas. Até mesmo Fantus se afeiçoou ao menino instantaneamente. 
     Ao lado dos amigos Carline, Tomas e Roland, Pug costumava viver sua rotina de órfão do castelo com certa resignação, era aquela sua vida e não lhe incomodava vivê-la como era imposta, embora fosse um caso incorrigível de travessuras. Mas os últimos acontecimentos mudaram sua vida, especialmente quando Kulgan escolheu o garoto como seu aprendiz de mago.
     Os meses se passaram, e o tempo era um aliado de ninguém. Kulgan, no entanto, começou a duvidar da habilidade do menino ao ver que Pug não respondia bem aos treinamentos, e por isso optou em deixá-lo á vontade para praticar seu mago interior por conta própria. E, quando Pug salvou a vida da Princesa Carline contra dois trolls usando sua mágica oculta, o mago do reino percebeu que, de fato, havia uma natureza incomum no menino, algo que valia ser cultivado.
     Uma guerra, enfim, pairou sobre os reinos de Midkemia. Uma ameaça de outro mundo - literalmente, um mundo paralelo - colocou em cheque a paz do reino de Crydee e, sem alternativas, o Lorde Borric precisou viajar para uma difícil conversa com o Rei. Acompanhado pelo mais novo escudeiro Pug, Tomas e o mago Kulgan, eles viajaram milhas e milhas, lidando com as mais diversas situaçoes, desde devoradores e alma até os formidáveis tsurani, povos de uma outra realidade e responsáveis pelo estado de caos nos reinos. Era uma viagem necessária, afinal, precisavam das tropas reais, e tantas mais fosse possível obter. O inimigo surgia em grande número. 

     Em Mago: Aprendiz, nos deparamos com a coragem dos anões, a elegância dos elfos, o funeral do dragão-mago, um possível encontro com Macros, o Negro, e a iminente guerra entre o povo de Midkemia e os tsurani. O mundo apresentado por Raymond E. Feist é uma invenção genial e complexa, com espécies digladiando umas com as outras, sustentando rivalidades milenares e, mesmo diante disso, mantendo a honradez de um povo inteiro.  



Narrativa: escrito em terceira pessoa, viajamos ao lado de todas as personagens, descobrindo suas virtudes e fraquezas. Com descrição e poesia equiparável aos grandes nomes da Literatura Fantástica, Raymond E. Feist consegue fazer de suas palavras uma âncora que nos arremessa nas profundezas de Midkemia. A narrativa foi essencial para provocar em mim todo o tipo de sensações, e certamente é esse tipo de escrita que as histórias precisam hoje para manter o leitor dentro da trama por tanto tempo.
Personagens: como não gostar de cada criação de Feist? Pug, pra começo de conversa, é um garoto de espírito livre, inseguro à sua maneira, e tem uma personalidade que encantaria qualquer leitor! Não é à toa que nos divertimos tanto em acompanhar o aprendiz de mago em suas aventuras. 
     Tomas, o leal amigo de Pug, é um dos mais corajosos que vamos ver por aqui. Sua lealdade aos amigos é incrível e, com certeza, é a personagem que mais cresce ao longo da história - claro que isso não ocorre de forma natural, mas melhor não dizer pra não me condenarem por spoiler (rs). 
     Carline é uma princesa arrogante, esquentada demais e com modos pouco femininos, mas tem um espírito tão livre quanto o de Pug, embora o título de princesa força a menina a reprimir seus instintos boa parte do tempo. 
     Kulgan é um mago sábio, com um humor que ganha a simpatia do leitor em questão de minutos. Sua sabedoria quase entra em conflito com seu lado infantil - quase. E sua relação com todos, inclusive com os príncipes de Crydee, são sempre muito informais. Detentor do respeito e da atenção de quase todos, apenas Martin do Arco parece não e inibir diante do título de mago. 
     Aliás, Martin do Arco é outro personagem sensacional. Embora não esteja dando as caras sempre ao longo da trama, quando resolve aparecer, tem a habilidade de roubar a cena. É uma personalidade forte, embora ela tenha oscilado um pouco desde a sua primeira aparição até a última. Ou seja, ainda não descobri muito desse sujeito.

    - Nenhum de nós tem a liberdade de sentir algo diferente daquilo que sentimos, Roland.                                                                                                                   página 347

Ambientação: a temporalidade é a mais clássica possível. Com ares equivalentes ao medieval, o mundo Midkemia se passa em tempos em que os territórios são divididos em ducados, reinos livres, províncias e florestas e montanhas habitadas por seres mágicos. É possível fazer algumas comparações com a Terra-Média de Tolkien, mas não há dúvida que Feist fez brotar sua própria fonte para criar seu mundo e apresentá-lo aos leitores com originalidade. Vales, lagos, florestas densas, reinos com castelos, pontes e grandes portões, tudo isso recheia o cenário de Midkemia. Os reinos estão sempre ali, unidos ou em disputa, como deve ser um universo fantástico épico. Eu não poderia escolher um lugar melhor para compor o fundo das aventuras de um heroi cavaleiro (ou mago, que é o nosso caso)!
Desenvolvimento: gostar de uma coisa não significa não enxergar seus defeitos. Mago é, pra mim, uma das melhores leituras do ano e provavelmente um dos melhores do gênero que já li em toda minha vida. Mas sua história é complexa, envolve muitos reinos e muitos acontecimentos. Acredito que a história merecesse muito mais do que 400 páginas e por isso, talvez, eu tenha sentido falta de mais detalhes. A forma como Feist desenvolve os duelos, as guerras, é incrível, mas acredito que tenha faltado um melhor detalhamento na transição do tempo, como o crescimento de Pug e Tomas. Claro que o fantástico épico não precisa ter mil páginas se quiser ser bom, mas Midkemia é um universo incrível, merecia mais detalhamento.
     Apesar disso, a forma como Feist conduz a narrativa é tão linda que eu não poderia dar menos do que cinco estrelas para a obra. O crescimento das personagens é trabalhada de forma coerente, e a maneira como o autor nos leva ao clímax é do jeito que tem que ser: sem aviso. Quando percebemos, opa, olha a ação aí. E os nomes? Ah, os nomes! A forma como os reinos, personagens e acontecimentos são nomeados... É como se isso fosse suficiente para nos fazer captar a essência da coisa. Pug é um nome ideal para o garoto e, embora não se pareça com um nome de mago (como Kulgan, por exemplo), cabe muito bem em um jovem destemido. Tomas nos trás a imagem de um garoto alto, cavaleiro e divertido, e ele de fato o é. Crydee, o nome do reino, nos trás a ideia de um povoado justo, onde há nem que seja o mínimo de honra guardada dentro de suas muralhas.
   
     Mago é um livro fantástico, em todos os sentidos. Recomendo não apenas como um simples leitor, mas como o mais novo fã de Raymond E. Feist. Agora é só praticar a paciência enquanto o segundo livro da saga não é lançado! \o

Ótima leitura!

Fiquem na Paz! =)


[Resenha] Supernova, de Renan Carvalho

     
     Em Acigam, tudo parece atrasado quando se trata do resto do mundo. Mas, afinal, que resto do mundo seria esse? Depois que os governantes da cidade ergueram os muros, ninguém mais entrou ou saiu. E, de repente, o conhecimento se tornou algo perigoso. Tão perigoso que o governo decidiu caçar os que dominavam a ciência. Num lugar onde saber demais é crime, a guerra é inevitável. 



Título: Supernova - O Encantador de Flechas
Autor: Renan Carvalho
Editora: Novo Século
358 páginas2013

     Leran Yandel era um morador de Acigam, mas diferente dos demais, ele também conhecia a ciência das energias, estudo de manipulação dos elementos da natureza, considerado criminoso dentro dos domínios da cidade. Seu dia começava na escola, desde estudos enganosos sobre o fundamento do mundo até as incríveis aulas de arco e flecha. Após a aula, o garoto seguia até a loja de artesanato do avô, a fim de aprender a tal ciência proibida. Mas quando ele se encontra, pela primeira vez, com um Silenciador - soldado do governo com perícia em eliminar os controladores de energia - esse encontro transforma o garoto a tal ponto de se enfiar na guerra civil para lutar contra a opressão do governo tirano.
     Ao lado da Guilda - um grupo de controladores de energia unidos contra a opressão - Leran vai conhecer amigos, inimigos, e vai sentir o gosto do traição tantas vezes quanto se é possível para um jovem que acaba de descobrir segredos demais para seus ombros suportarem. Tendo como plano de fundo uma cidade anacrônica, amigos com diferentes habilidades e a irmã com talentos latentes. E, claro, como toda boa história que se preze, um romance entre o protagonista nos espera ao longo das páginas. 

     Narrativa: é muito bom poder encontrar um livro nacional, de leitura fácil e com um jeito único de pegar o leitor e fazê-lo imergir pelas páginas, e com Supernova foi assim. A narrativa de Renan Carvalho tem personalidade, com uma pegada jovem, fluida e, o melhor, não é maçante! Embora haja algumas cenas em que os acontecimentos são abruptos e a transição de cenas poderia ser melhor trabalhada, a narrativa em primeira pessoa (na 'voz' de Leran Yandel) por outro lado consegue trazer a personalidade do protagonista. 
     Personagens: uma das maiores vantagens em ser fã de animes e séries animadas é essa (sim, Renan Carvalho curte essa vibe rs). Os desenhos que a gente vê sempre têm personagens com traços emocionais muito diferentes. Tem sempre um esquentadinho, um brincalhão, aquele que é mais centrado, e o obstinado. Tem o vilão com crise existencial e o vilão que é pura maldade. Tem os bons e maus, e da mesma forma tem os que estão no mesmo caminho. Em Supernova não é diferente. Galek, amigo de Leran, é o mais impulsivo e raivoso, o que explica sua afinidade com o elemento fogo. Boom, a garota infantil e cheia de vida, também compõe a roda de novos amigos de Leran. Todos são bem característicos, o que é importante. Luana, a irmã de Leran, é a personagem mais crescente na história. De uma aparente coadjuvante - com personalidade forte e divertida - ela vai acabar se revelando uma peça importante em toda a trama, e é de personagem assim que as histórias precisam hoje em dia. 
     Ambientação: esse foi um dos elementos que mais senti dificuldade em captar. A princípio ficou complicado perceber em que parte no espaço e tempo a história se passava e, enquanto algumas cenas me pareciam contemporâneas, outras nem tanto. A temporalidade é realmente meu maior impasse. Entendo que o universo criado nessa estória é paralelo ao nosso, com componentes diferentes, e talvez por isso eu ache que seria bacana dar mais incremento à narrativa, aos detalhes da tecnologia, das vestimentas e do ambiente para que o leitor pudesse se situar melhor... Mas, depois de conseguir fazer associação com os gostos do autor e o mundo de algumas séries animadas, aí eu me toquei. Supernova pega emprestado alguns elementos do steampunk, e esse gênero - pelo menos ao meu ver - foi usado pelo Renan para delinear seu próprio mundo. Sua tecnologia é anacrônica, assim como o gênero da tecnologia a vapor, com o diferencial de que muitos dos artefatos são, na verdade, manipulados por meio do controle de energia. Acabei me apaixonando pela ambientação da história, queria até estar lá! (não em Acigam, porque o clima lá está tenso). Aliás, se notarem bem, Acigam, ao contrário, é o quê? Magica!
     Enredo e Desenvolvimento: aqui a coisa esquenta. A primeira vista, olhando por cima como quem não quer nada, você pode encontrar uma estória com trama clichê: manipuladores de elementos da natureza na busca por um ideal, e muitos são movidos pela vingança.  Dá pra encontrar muitas referências ao desenho animado Avatar (A Lenda da Korra, principalmente), inclusive foi essa relação que me ajudou a ambientar Supernova. Mas não se preocupem, porque o autor conseguiu colocar sua própria roupagem na trama e, de quebra, tornou-a bastante original. Renan Carvalho mistura espadas, machados e arcos em um mundo onde os mais poderosos utilizam metralhadoras e pistolas rudimentares. Existe objetos movidos a eletricidade, com o diferencial sensacional de que essa eletricidade é produzida pela manipulação dos elementos da natureza! Os anacronismos de Supernova são de encher os olhos!  
     O que vemos em Supernova são controladores de elementos oprimidos pelo governo, enquanto há uma busca pela Estrela - um jovem controlador com poderes inimagináveis. E é nesse ponto que conseguimos perceber a maturidade da escrita do Renan. Não posso dizer muita coisa pra não dar spoiler, mas posso adiantar que, embora a existência de um jovem Estrela indique o velho clichê de uma profecia que aponta um escolhido pelo destino para salvar o mundo, nesse caso a situação não é bem assim. Existe muito mais por trás disso e, em Supernova, o jovem Leran desempenha um papel que não pode ser o esperado pelo leitor. E isso, pra mim, foi uma surpresa muito boa.
     A história evolui muito bem, a progressão de acontecimentos dá um ritmo cada vez mais frenético a leitura e, no último capítulo, não dá pra deixar de sentir aquela vontade de ler a continuação. Mas isso, amigos, vai demorar, já que o Renan ainda tá escrevendo o segundo livro. Vamos torcer para que 2014 nos surpreenda mais uma vez com Supernova - A Estrela dos Mortos !! 

   

     Supernova mostra que a literatura fantástica nacional está em boas mãos. Para um livro de estreia, Renan mostra um talento lapidado que poucos autores demonstram em seus primeiros trabalhos. Vale muito a pena ler O Encantador de Flechas, não apenas pelo entretenimento, mas pela forma como a estória te marca, mesmo depois que você fecha o livro. 

Boa leitura, pessoal!
Fiquem na Paz!      
     

[Resenha] - Paredes Vivas, de Rosa Mattos

Alô, amigos Inspirados!

     A resenha de hoje é sobre o livro Paredes Vivas, da escritora parceira aqui do blog, a talentosa Rosa Mattos, com uma habilidade incrível para narrativas envolventes e frases de efeito, capazes de deixar uma marca no leitor. Confiram aí!


Título: Paredes Vivas
Autora: Rosa Mattos
Editora: Dracaena
195 páginas - 2013
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     Mauren era uma menina de poucos amigos e, embora introspectiva, era incoerentemente comunicativa, com os pensamentos sempre muito a frente para sua idade. Sua introspecção, no entanto, só aumenta com a morte do pai. Desde o dia em que seu pai afogou no lago durante uma tempestade, a menina passou a ser assombrada por pesadelos que a mantinham acordada demais para um criança de apenas oito anos. 

"Seus olhos são como dois halos solares, filhota". As Palavras de papai dançavam em minha mente e enchiam meu coração de uma saudade cruciante, que iria me acompanhar por toda a eternidade".
Página 17

     A tragédia na vida de Mauren transformou-a completamente, e sua necessidade em esconder seus sentimentos aumentou, tudo para poupar Ione, sua mãe, de mais sofrimento, que já não contava com boa saúde e estava em constante atrito com o tio Vicente, cujas discussões sempre envolviam os bens deixados pelo marido de Ione.
     Foi na escola que uma promessa de mudança aconteceu. Dentre os novatos, surgiu Tobias, um garoto que explorou o desejo por desafios existente em Mauren. A partir disso, uma forte amizade manteve essa união, tornando-os parceiros de aventuras, especialmente quando decidiam se aventurar no cemitério. O que Mauren não sabia era que, mais tarde, essas travessuras de lápide em lápide iriam assombrá-la anos depois. Claro que, no processo, um romance despontaria entre eles, o que não é nenhuma novidade, já que a narrativa tem o seu jeito especial de mostrar que eles estavam destinados. 
     No entanto, a paz no lar de Mauren parece cada vez mais distante. Ao descobrir que a vida de sua mãe pode estar em risco, tudo fica ainda mais difícil quando a menina se torna incapaz de confiar em pessoas que estiveram presentes em sua vida todos os anos. A saudade do pai, a saúde da mãe, as desconfianças e toda a aflição formaram uma bagagem pesada demais para uma criança carregar, e apenas os poucos amigos de Mauren podem oferecer força para não desistir. 
     Mal sabia ela que a brincadeira no cemitério ainda voltaria para assombrar sua vida, e um último evento mudaria sua vida. Para sempre.

    Escrito em primeira pessoa, encaramos as dificuldade de Mauren sob a ótica da protagonista. A narrativa de Rosa Mattos é fluida, tem o seu ritmo balanceado, e tem uma poesia que é só dela! Com trechos bastante inspiradores, a autora consegue regar os sentimentos de cada personagem com palavras profundas, tornando mais intensa e viva a história a cada página virada.
"Sonhar é abraçar o vento, namorar o tempo, no doce refúgio do momento"
página 57

     As personagens possuem uma forma bem delineada, são estruturadas para parecerem reais, comuns à nossa realidade. Tobias, por exemplo, é uma criança sem medos, travessa, mas quase sempre temperamental. Mauren é uma constante transformação, sempre disposta a segurar o choro e completar os desafios que são impostos a ela, sejam eles forjados pela vida ou pelo amigo de olhar raivoso. A mãe Ione é a minha preferida, com a típica garra de mãe viúva que faz pose de fortaleza mesmo nos momentos mais frágeis de sua vida. Nice, a empregada e amiga da família, é o tipo de aura bondosa, que sempre diz a coisa certa no momento oportuno, uma fonte de força quando todas as outras secam. 
     A trama é frágil e complexa, tem muitos elementos condensados em apenas 195 páginas, por isso muitas mudanças de cenário e acontecimento são abruptas, mas isso não impede a leitura de ser prazerosa, pois se dedica aos momentos importantes e mantem a imersão quase todo o tempo. 
     E quando eu disse que a trama era frágil, não foi pra menos. O primeiro impasse que tive foi na sinopse. Ela não consegue captar a verdadeira essência da história, um misto inicial de drama com uma dose forte de sobrenatural nas últimas páginas, uma formatação muito diferente, que aliás, não estou acostumado. Inclusive, houve momentos em que pensei que a sinopse estava errada, foi preciso terminar o livro para compreender melhor. A história tem todo o drama, sem a presença de atmosfera sobrenatural, ao longo das primeiras 150 páginas. Porém, no desfecho da história, uma súbita aparição torna a história assombrada, e só aí o título parece fazer sentido.
    Paredes Vivas, muito bem escrito, é uma história original, que apresenta uma narrativa diferente. Acredito que o título não se deva apenas ao elemento sobrenatural existente no fim da história. Paredes Vivas pode ter muitos significados, inclusive o próprio confinamento de Mauren, a protagonista, que se encarcera em si mesma, incapaz de fazer novos amigos, de se relacionar, incapaz de chorar por não querer ser fraca, e isso a atormenta, assombra seus sonhos e, mais tarde, sua realidade. 

     A obra de Rosa Mattos foi uma experiência nova para mim. Esse elemento dá uma reviravolta nas últimas páginas, e ainda estou absorvendo o impacto que a leitura me causou. Às vezes pego o livro e fico encarando a capa, pensando sobre tantas coisas que, em uma resenha, eu não saberia dizer. 
     Obrigado, Rosa, pela obra e por me dar a chance de ler seu livro. Sua narrativa é sensacional, não perca isso nunca!

Ótima leitura a todos!
Fiquem na Paz!

[Resenha] - Paperboy, de Pete Dexter

Alô, amigos Inspirados! 
      Nessa semana de Aniversário do Blog Inspirados, trago até vocês a resenha de um livro incrível que nos foi dado pela editora Novo Conceito, uma parceria que merece ser celebrada nessa data tão especial. Por isso, antes de mais nada, obrigado NC! Essa resenha é dedicada especialmente a mais um ano como parceiros! Vamos lá!
     Paperboy foi minha primeira experiência com romances góticos declarados. E, depois de pensar muito e analisar sobre o que dizer, percebi que a obra de Pete Dexter só me deixou boas impressões.




Título: Paperboy
Autor: Pete Dexter
Editora: Novo Conceito
333 páginas2013


     Jack e Ward James são dois irmãos muito diferentes - especialmente aos olhos de seu pai. Enquanto o primeiro é um completo desastre, expulso da faculdade e sem nenhuma perspectiva além e entregar jornais, o outro é, além e mais velho, mais responsável e ambicioso. Jack é um garotão sem futuro traçado, e Ward é um jornalista que corre atrás de suas histórias com unhas e dentes.
     Suas vidas se cruzam com Charlotte, uma mulher apaixonada por homens no corredor da morte, o próprio assasino Hillary Van Wetter, e um jornalista de caráter muito duvidoso, Yardley Acheman. Nessa conturbada relação, eles se comprometem a provar a suposta inocência de Van Wetter, acusado de matar o xerife local. E, a cada passo em busca de respostas, a história se mostra uma verdadeira areia movediça. E não é só porque ela esconde vários segredos ao longo das páginas... É porque ela te engole, e você não consegue mais abandonar o livro até que ele termine.

     Quando encarei a narrativa de Pete Dexter, transformada na voz de Jack James, percebi que alguns personagens podem ser tão complexos que, mesmo depois de terminarmos um livro, não conseguimos desvendá-los. Foi o caso de Ward, o irmão mais velho e respeitado jornalista, ou de Charlotte, o tipo de garota que sustenta o jargão "ninguém entende as mulheres". 
     A história começa muito bem, trazendo toda a sua carga obscura. Uma das poucas coisas que temos hoje em dia são livros que fisgam o leitor logo na primeira página. Muitos livros que li esse ano foram do tipo "cara, insiste mais um pouco que a história melhora". com Paperboy, ninguém precisou me dizer isso e, se tivesse dito, eu nem teria prestado atenção, estava ocupado demais, imerso no livro. E quando os personagens são apresentados ao leitor, é como se uma conexão surgisse, e foi o que aconteceu. 
     A trama tem uma estrutura bem feita e, embora pareça que o foco seja desvendar o crime, o núcleo de toda a história está muito mais voltada para as angústias internas que cada personagem carrega. A maneira como Dexter nos apresenta cada uma delas nos faz pensar de onde ele tirou os ingredientes para uma história tão corrosiva e envolvente, tudo numa mesma porção. 
   
***

     Pra quem ainda não sabe, o livro inspirou o filme de mesmo nome (por isso a capa). Jack James, a voz narrativa, é estrelada por Zack Affron e o irmão Ward é encarnado por Matthew McConaughey. Eu sei que, para muitos, o eterno ator teen de musicais da Disney pode estragar a imagem que o livro tenta trazer, e ainda estou pensando se arrisco assistir, afinal, o livro deixa uma marca muito forte no leitor. Em todo caso, temos Nicole Kidman interpretando a voluptuosa Charlotte.


     O diretor é Lee Daniels, o mesmo que dirigiu o filme "Preciosa" - filme que tem uma pegada completamente diferente de Paperboy, daí mais uma de minhas inseguranças. Mas pretendo curtir a sensação deixada pelo livro mais um tempo. Quem sabe, depois disso, eu não volto aqui pra falar do filme? =)

É isso, pessoal, tenham uma excelente leitura!
Fiquem na Paz! 


[Inspirações clássicas] O Corvo

Boa noite, inspirados!

Hoje, abrimos o post com um vídeo. Abram alas para Vincent, o primeiro stop motion da Disney e do Tim Burton. O curto data de 1982 e foi gravado como teste - se desse certo, os estúdios Walt Disney começariam a usar a técnica stop motion (é uma animação feita usando modelos físicos - objetos, bonecos - que são movidos quadro a quadro pra gerar a animação ao fim). Conta a história de um garotinho chamado Vincent, que quer ser o Vincent Price - e, que graça, o curta é narrado pelo próprio!


Bom, a ambientação sombria do curta nos traz diretamente ao pai do horror - Edgar Allan Poe (que, inclusive, é o autor favorito do Vincent. E, olha, é um dos meus também!). O conto sobre o qual iremos falar hoje é dele. Aposto que todo mundo já ouviu falar de O Corvo, famoso poema de Poe... Bom, apresento a vocês agora a versão prosa dessa obra famosa.



Título: O Corvo
Autor: Edgar Allan Poe

"...e além do circuito desta sombra, a minha alma não poderá elevar-se nunca mais!"



Edgar Allan Poe é o pai da literatura macabra, misteriosa, policial. Americano, nascido em 1849, Poe fez parte do movimento romântico estadunidense. Também atuou como crítico literário e editor (além de poeta e autor). Poe teve uma vida conturbada - podemos ver isso em suas obras ou comprovar pela sua morte, aos quarenta, causada por uma espécie de delírio. As obras de Poe são marcadas pelo sombrio.

O Corvo, que foi originalmente publicado em 29 de janeiro de 1845, começa na hora lúgubre da noite - meia noite. Vemos um estudante caído sobre os livros, meio adormecido, envolto em torpor causado pela morte de Leonor, sua amada.

Em meio a devaneios, ouve uma batida. Julga ser alguma visita tardia; levanta-se, desculpa-se pela demora, abre a porta... E nada vê. Estremece, achando que era o espírito de Leonor, e volta a fechar a porta. A batida soa novamente. Ele abre a janela e um corvo entra, com pompa sem igual, e vai postar-se num busto de Pallas (ou Atenas, se assim preferirem) que o estudante tinha em seu quarto.

Gozando de sua própria melancolia, o estudante dirige-se ao corvo, perguntando-lhe o nome. Surpreende-se quando ouve uma resposta: "nunca mais". (Parêntese: gente, corvos 'falam'. Assim como papagaios, são capazes de repetição, quando ensinados.) Conversou mais com o pássaro, acomodando-se próximo a ele, sempre tendo a mesma resposta. Então, começa a torturar-se, a dor da perda correndo em suas veias, perguntando ao pássaro coisas que jamais voltariam a acontecer. E sempre tinha a mesma resposta: "nunca mais".

Poe trabalha bem a agonia e a dor do personagem, e conseguimos senti-la correr por nossa mente enquanto lemos o conto. Se alguém se interessar, eu disponibilizei esse também, bem aqui. Pequeno, duas páginas, só, e tão envolvente que as palavras escorrem e rapidamente e leitura acaba.

Edgar Allan Poe realmente vale a pena, galera. Recomendadíssimo!

É isso. Até a próxima!

Jenny.

[Resenha] - Na Companhia das Estrelas, de Peter Heller

     Imagine um enredo pós-apocalíptico provocado por um vírus que arrasou quase toda a humanidade. Imaginou? Pensou nessas histórias que estão fazendo sucesso hoje em dia? Beleza, agora desconstrói tudo isso que você imaginou e vamos começar do zero. Sim, porque Na Companhia das Estrelas é uma história completamente diferente das muitas que lemos por aí. Bora embarcar na Fera e sobrevoar os ares dessa história indie cheia de emoção!



Título: Na Companhia das Estrelas
Autor: Peter Heller
Editora: Novo Conceito
405 páginas


     Hig e seu cão, Jasper, tentam sobreviver à completa solidão que assolou o mundo depois do vírus que matou a todos, quase como uma nova Peste Negra. O homem passa seus dias solitários sobrevoando as redondezas de seu "lar" com seu modesto avião batizado de Fera. Mas esses não são suas únicas companhias. Bangley, um velho de caráter sombrio, fecha o seu círculo de amizades, sua família pós-apocalíptica. A vida, a princípio se resume a manter as provisões necessárias e uma conversa aqui e ali, apenas para manter a sanidade. 
     Hig, com o tempo, passou assumir mais riscos, ser menos cuidadoso - o motivo das brigas entre ele e Bangley. Apesar disso, e mesmo que eles não admitissem, formavam um time e tanto, sobrevivendo sozinhos contra as gangues, os poucos imunes que sobreviveram à doença. E um pouco de complicação vez ou outra acabava ajudando. Impedia Hig de pensar demais em como sua esposa morreu.  
     Mas, como toda boa parceria, sempre tem um fim ou um "até breve". Hig teve sua cota de despedidas, especialmente quando decidiu deixar Bangley por algum tempo, prometendo, sem certeza alguma, voltar um dia pra casa. 

     A história elaborada por Peter Heller não traz, em si, uma trama muito complexa. Dá pra resumir tudo nas andanças sem rumo de um sujeito com passado e sem futuro, apenas esperando uma resolução pra sua vida. E é justamente essa atmosfera que torna a história tão realista, sem nenhuma pretensão em achar uma cura, tentar restabelecer algum governo, sem aquela esperança de que, no futuro, o mundo será o mesmo... Nada disso, o mundo simplesmente caiu, e agora os imunes à doença precisam sobreviver. E é justamente isso que é tão legal no livro! A falta de um enredo cheio de tramas, a aleatoriedade de acontecimentos... 
     Aleatoriedade, aliás, é o que define essa narrativa. Em primeira pessoa, entramos no mundo de Hig e entendemos toda a sua vida, desde jovem até sua atuação situação. O autor deixa transparecer, em alguns instantes, a falha na sanidade do narrador, quando Hig conta, entre um caso e outro, lembranças do seu passado, uma espécie de fuga da realidade adotada por ele. E essa franqueza, sua capacidade em se abrir com o leitor tão facilmente, é o que torna o protagonista tão cativante. Inclusive, personagem com profundidade é o que não falta nessa história. Até mesmo Jasper, o cão amigo, tem lá sua humanização (bem moderada, mas tem sim). 
     Mas aviso de antemão, a narrativa é bem diferente, pouco tradicional. Ele aprofunda bastante nas sensações, nos sentimentos e lembranças, e os diálogos são indiretos, narrados pelo próprio Hig. Mas isso não restringe o leitor de "ler" um personagem como ele é, sua personalidade, seu modo de agir... Infelizmente o livro não me ganhou por completo, por causa de alguns trechos que chegam a ser bem maçantes e, por vezes, você prefere correr os olhos com pressa só pra passar aquela 'cena'. 
     Uma leitura bem diferente, mas seletiva. Não é todo mundo que vai curtir, mas vale a pena conferir. Afinal, você não vai saber enquanto não começar.

      Uma excelente leitura a todos! Fiquem na Paz! 

[Inspirações clássicas] Uma rosa para Emily

Primeiramente, boa tarde, Inspirados. Eu queria iniciar dizendo que, não, Inspirações Clássicas não morreu. Juro! O que acontece apenas é que eu sou uma pessoa enrolada e esquecida ocupada, então... Acho que já entenderam. hehe Peço desculpas, galera. Mas, enfim, vamos ao que interessa.

Hoje, vamos resenhar um conto! Foi um que me deixou encantada quando precisei lê-lo para uma matéria da faculdade. Então, com vocês, Uma rosa para Emily.


Título: Uma rosa para Emily
Autor: William Faulkner




"E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa."







William Faulkner é um dos mais aclamados escritores estadunidenses. Ganhador do prêmio nobel da literatura em 1949 "for his powerful and artistically unique contribution to the modern American novel" (em tradução livre minha, por sua poderosa e artisticamente única contribuição para o romance americano moderno). Faulkner retratou bem em suas obras a decadência da sociedade tradicional americana.

Uma rosa para Emily é assim. Começamos o conto já sabendo que a protagonista, Emily, está morta, e o narrador nos leva em retrospecto através da vida da mulher. Miss Emily vivia em uma casa que, já para a época, era antiga; vivia uma vida reclusa e discreta. Tal coisa, porém, tinha o efeito contrário - ao invés de fazê-la passar desapercebida, traz todos os holofotes para ela. Afinal, ela mora em uma cidade pequena e se recusa a manter contato com qualquer um que não fosse seu criado... Algo havia de estar por trás disso, não?

Enquanto viajamos pela vida de Miss Emily, percebemos que ela era uma mulher decidida e forte. Quando jovem, tinha um pai rígido, mas, ainda assim, participava da sociedade; quando o patriarca morreu, ela se fechou em seu casulo. Emily Grierson era uma fortaleza, um símbolo da cidade tal como era quando ainda era governada por aqueles que agora jaziam mortos. Ela resiste em suas antigas tradições, mesmo quando o novo governo e a nova geração tentam moldá-la ao que está acontecendo no momento. Miss Emily é uma muralha inflexível e impenetrável...

...mas não tão impenetrável assim. Ela deixa uma brecha abrir quando conhece um homem que vem a ser seu noivo. Começa a ser vista passeando pela cidade com ele; comprando coisas com ele; rindo com ele... Porém, um dia, ele some. E ninguém mais vê sombra de Miss Emily, ninguém mais entra na casa de Miss Emily, até o dia em que ela morre. E, quando isso acontece, as pessoas que lá estão veem mistérios desfazendo-se e tudo, enfim, fazer sentido.

Uma rosa para Emily é realmente surpreendente e delicioso de se ler. Se alguém se interessar, disponibilizei o PDF aqui. São cinco páginas deliciosas e surpreendentes, com um final intrigante e arrebatador.

É isso. Até a próxima! ~

Jenny

[Resenha] - Os Doze, de Justin Cronin

     O mundo nunca foi tão terrível. Depois que a humanidade sofreu o ataque dos virais em A Passagem (resenha aqui), tudo mudou.
     Se você já leu o primeiro livro dessa incrível trilogia, então sabe como Justin Cronin tem a habilidade de prender a atenção do leitor, é questão de tempo até você mergulhar na história sem planos para sair. Por isso eu tô aqui hoje. "OS Doze" é, hoje, um dos meus livros preferidos, bora saber o porquê!



Título: Os Doze - volume 2 da trilogia A Passagem
Autor: Justin Cronin
Editora: Arqueiro (sua linda!)
592 páginas


     Para onde quer que olhasse, as cidades estavam mortas. Não havia muita esperança, e dava pra contar as pessoas nos dedos. Mas isso foi depois, quando o abrigo caiu, quando Peter, Alicia e os outros correram para salvar suas vidas. Num mundo onde virais - pessoas infectadas que se alimentam de sangue humano - habitam as sombras e comandam a noite, alianças são cruciais se a humanidade quiser vencer. O problema é que, dessa vez, o inimigo não é apenas as criaturas vampíricas. Agora é homem contra homem, homem contra viral. 
     A história começa no meio. É, bem assim mesmo, um pouco depois do começo, alguns anos antes do fim. Bernard Kittrigde é conhecido por ser um ex-militar fora-da-lei que caça os virais por conta própria. Após seu encontro com Tim e April Donadio, dois jovens que se perderam em meio ao caos do fim-do-mundo, eles se juntam com o motorista de ônibus, Danny. A aventura deles é curta, porém não sem emoções fortes, e se você curtiu A Passagem, vai encontrar nesse "núcleo" de personagens alguns ganchos bem interessantes. 
     Enquanto isso, Lawrence Grey, o rapaz que monitorava Zero antes de toda a calamidade acontecer, encontra-se com a jovem Lila, uma moça perturbada, incapaz de viver a realidade e, por isso, fantasia um mundo perfeito onde não há ataque de virais, apenas sua filhinha e seu marido que já não estão com ela. 
      E, claro, o nosso querido "núcleo" de personagens que é apresentado no primeiro livro da trilogia: Hollis, Sara, Michael, Peter, Alicia. Seus destinos foram separados, e agora cada um enfrenta, à sua maneira, a difícil realidade em se viver num mundo atemorizado por humanos transformados em monstros bebedores de sangue. E, claro, não dá pra esquecer Amy, a garota de lugar nenhum, a menina que sempre pareceu o centro de todos os acontecimentos.
     A Cúpula, as militâncias, as colônias e resistências, o grande Sérgio, tudo isso compõe o cenário em que o mundo vive, praticamente, em bases militares e tenta se preparar para combater com os virais, um grupo que parece crescer a cada dia. E não poderíamos deixar de lembrar dos Doze - afinal, eles dão nome ao livro - os Doze pilares de todo o apocalipse, as abelhas-rainha que têm total controle sobre os virais. 

    A história é muito complexa, tanto que ela não segue uma cronologia linear, a narrativa faz algumas alternâncias desde o primeiro livro, arremetendo ao começo, ao fim, depois ao meio... Sim, uma bagunça, mas é uma bagunça tão bem feita que fica até parecendo o meu guarda-roupa: parece bagunça, mas é só estratégia!
     A narrativa é o ponto principal. Justin Cronin escreve muito bem, sabe fisgar a atenção do leitor e, na minha opinião, não há um único momento em que a história perca o ritmo ou fique enjoativa. Talvez seja reflexo do aprendizado do autor em cima do primeiro livro. A Passagem tem 860 páginas e, embora seja um dos meus favoritos, algumas partes cansam os ânimos do leitor. Mas com bem contadas 592 páginas, Cronin conseguiu criar uma trama muito bem amarrada á história apresentada no primeiro livro, e ainda deixou um final com um gosto torturante de "ainda não está no fim". Sim, amigos, não há nada melhor do que terminar um livro dessa forma. Isso significa que ele ganhou seu carisma.
     Sobre as personagens, acho que é o maior motivo de me manter tão interessado nessa história. Todos são muito bem estruturados, Cronin consegue explorar o passado de cada um deles de forma que o leitor se torne íntimo de Peter, Alicia, e dos sobreviventes do apocalipse. Cada um tem um peso na história. Embora o centro seja Amy, Peter e, em muitos momentos, Alicia, cada personagem desempenha um papel importante e, com suas individualidades, é o tipo de livro em que quem ganha seu favoritismo nem sempre é o personagem principal (Sara!). 

confiram uma ilustração dos "virais" presente em uma edição americana.
Na minha cabeça eles eram completamente diferentes '-'


     Leitura mais, muito mais do que recomendada. Claro que, antes de Os Doze, você precisa ler A Passagem, mas isso não vai ser trabalho. A história vale cada página virada!

Tenham Uma excelente leitura!
Fiquem na Paz! =)

     

[Resenha] - Simplesmente Ana, de Marina Carvalho

Alô, amigos Inspirados!

     Meu trabalho hoje é ter trabalho: sim, porque nada é mais difícil do que falar sobre um gênero que não é o seu forte, e é preciso muito bom senso pra não confundir gosto com qualidade da leitura. Estou aqui para falar de Simplesmente Ana, um lançamento muito bem-vindo da Novo Conceito, escrito pela mineiríssima e gente finíssima Marina Carvalho! 



Título: Simplesmente Ana
Autora: Marina Carvalho
Editora: Novo Conceito
304 páginas - 2013



      Ana Carina é Ana Bernardes e Ana Markov... 
    Bem, pelo menos é o que ela descobre depois de uma mensagem de seu pai, Andrej Markov, rei da Krósvia. A vida de uma simples estudante de direito - que vive uma vida normal em Belo Horizonte, ao lado da amiga Estela e da mãezona companheira - transforma-se em matéria pra primeira página, e os fatos levam-na a conflitos entre suas duas porções: Ana Bernardes, a estudante de Direito do Brasil, ou Ana Markov, a princesa krosviana.
    Ana descobre coisas de seu passado, ou melhor, do passado de seus pais, descobre que sua mãe escondeu coisas demais, e todos os fatos acabam colocando a nossa protagonista numa difícil posição. Agora, não há outro jeito, ela precisa enfrentar sua nova realidade, e pega um avião rumo à Krósvia, o lar de sua metade, aquela que pertence à realeza.
     Mas nenhum conto de fadas acontece sem um príncipe, por isso Alex (enteado do rei, filho da falecida rainha) entra em cena, e o sujeito acaba despertando sentimentos em Ana, sentimentos esses que, cedo ou tarde, serão correspondidos. Claro que tem sempre a boa e velha megera pra estragar o romance, e nesse caso, ela é Laika, a noiva de Alex. Sim, esse é mesmo o nome (provavelmente sua vizinha tem um poodle com esse nome), e a Nome de Cachorro passa a ser um alvo secreto de piada para Ana e sua amiga confidente Estela.
     Mas o romance não é o único grande rebuliço em sua vida. Conhecer a nova família, a família real!, é mais do que motivo para dar um nó no estômago. Como seria aceita, o que diriam a respeito... Tudo isso aumentava a insegurança de Ana. E, claro, tem sempre aquele parente nada agradável. Bem, esse é o Marcus, marido de Marieva (irmã de Andrej) e, não se sabe como, soube criar filhos que se tornam os pequeninos de Ana. Imagina o pano pra manga que isso não dá!

     A história de Marina Carvalho, a princípio, pode soar como uma releitura da consagrada obra de Meg Cabot no estilo brasuca. Só que não. Embora a premissa tenha um perfil muito parecido, ao longo da leitura a gente vai descobrindo uma marca única da "nossa" autora, e vai desde os diálogos bem abrasileirados, o cenário tipicamente mineiro - cara, como eu amo Minas Gerais! - e, a parte mais interessante: uma protagonista cheia de falhas. E quando digo falhas, eu digo falhas no caráter mesmo. Não é aquela princesinha perfeita, insegura, mas que é tão bondosa que parece que saiu de um pote de Nuttela. Aqui, Ana Carina tem suas frescuras, tem seus momentos de preconceito, sabe ser venenosa, e tem o talento pra antipatizar o leitor em alguns momentos. Não sei se todo mundo teve essa impressão, mas ela me deixou frustrado em alguns momentos, quase como se fosse cabeça-dura demais pra ver que algumas coisas eram mais fáceis de serem resolvidas, e talvez, pela minha falta de tato com o gênero chick-lit, eu tenha sido um pouco impaciente com esse perfil de personagem. 
     E não podemos esquecer da Estela, aquela amiga-pra-cima que vez ou outra rouba a cena, cheia de verdades a serem ditas, sem papas na língua e, vejam só, me despertou muita simpatia. O interessante é que, em boa parte da história, Estela e Ana se falam a distância, por telefone ou e-mails, e ainda assim a amiga de Ana consegue ter seu merecido destaque, o tipo de personagem que faz falta quando não aparece em um capítulo.
     Laika, a nossa antagonista, é toda veneno e alfinetadas. Nota 10 em antipatia.
     Alex, por outro lado, mostra-se um cara meio "bipolar" no começo, dividido entre gostar ou não de Ana, mostrar-se receptivo ou continuar atacando-a com seus comentários cheios de duplos-sentidos, fazendo a protagonista ficar cada vez mais confusa. Afinal, ele a odeia ou não?

     A narração - em primeira pessoa, sob a ótica de Ana - é tão tranquila e fluida, que a gente lê sem nem se tocar, quando dei por mim estava no final. Os últimos livros nacionais que li me fez perceber que existe um perfil único na escrita dos autores brasileiros contemporâneos, e a escrita de Marina Carvalho está entre uma das que mais me agradou. Embora eu não goste muito dessa narrativa que "conversa" com o leitor, Marina conseguiu fazer isso sem deixar a coisa solene ou pedante, pelo contrário!, soou natural, muito verdadeiro.
     Posso dizer que não gostei muito das descrições melosas de Ana quando contava sobre Alex - desde o porte físico à maneira como ele se comportava - mas, êpa, isso aqui é um chick-lit!, é natural que a protagonista se derreta diante de seu amado. 
     Ah, lembram-se de Marcus, o marido de tia Marieva, sujeito estranho? Pois é, a autora soube deixar uma ponta solta na interação entre Ana e Marcus, e isso me fez pensar que, em algum momento -provavelmente na continuação dessa história - o tio nada agradável poderá representar um estorvo para a felicidade de nossa protagonista. Já até criei algumas especulações (quem sabe Ana represente uma ameaça pra ele, já que os filhos de Marcus poderiam ser os herdeiros do trono? Quem sabe?).
     Se você é fã de chick-lit, então sinta-se confortável em ler esse livro. Simplesmente Ana é um representante de peso para o gênero, e promete ser referência para as futuras escritoras brasileiras que apreciam esse universo feminino que explora os medos, as inseguranças e as superações de uma garota que, mais do que tudo, quer viver um amor digno de contos de fadas.     

Sobre a Autora:
                                                 

 Marina Carvalho é professora, jornalista e mãe. Passa os dias diante de um objeto plano e retangular, seja o quadro negro da escola onde trabalha ou a tela do computador. Escrever é uma de suas maiores alegrias. Sempre foi uma ávida leitora. Está sempre com um livro debaixo do braço e outro na cabeceira da cama: eles são seus companheiros de todas as horas. Quando criança devorava as revistinhas da Turma da Mônica. Formou-se em Jornalismo pela PUC-Minas e exerceu o cargo de assessora de comunicação. Hoje é professora de Língua Portuguesa e Literatura, não à toa, já que morre de amores pelas palavras. "Simplesmente Ana" é seu livro de estreia.                                        

[Inspirações Clássicas] - O Primo Basílio



Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você... Isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver!


          Não, eu não confundi a minha coluna do inspirados com o perfil do meu namorado e tô me declarando aqui. haha. O nosso post de hoje começa com essa música, e quem me disser que nunca ouviu Amor I Love You estará mentindo. Originalmente gravada por Marisa Monte, a canção é o hino das pessoas apaixonadas; a bandeira daqueles que amam; resume todos os sentimentos referentes a um amor, em perfeita definição do estado de quem tem tais sensações. Certo?

          Errado.

          Ao prestar atenção à letra, percebemos que o amor narrado ali é platônico e, portanto, unilateral. O trecho com o qual abri o post é claramente uma súplica. É quase "por favor, deixa eu te amar", como se a outra pessoa recusasse-se com vigor a aceitar aqueles sentimentos tão nobres que o eu-lírico da música dedica a ela. A informação se confirma em "Hoje eu contei pras paredes coisas do meu coração". Como o objeto de seu amor não quer saber de nada daquilo, o eu-lírico foi obrigado a abrir seu coração pras... paredes.

          Bom, mas vocês não devem estar entendendo onde diabos eu estou querendo chegar com uma análise musical quando o meu trabalho aqui é resenhar livros clássicos. Simples, muito simples. O trecho proclamado logo após o refrão por Arnaldo Antunes  "Tinha suspirado... tinha beijado o papel devotadamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido. Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente... Cada passo conduzia a um êxtase... E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações" foi extraído do nosso livro de hoje.


Livro - Primo Basílio, O - Livro de Bolso


Título: O primo Basílio
Autor: Eça de Queiróz
Editora: Best Bolso
490 páginas






          Publicado em 1878 “O Primo Basílio” é um dos mais conhecidos e importantes romances do escritor português Eça de Queiroz. Ele foi escrito em Portugal, numa época de forte tendência realista na literatura. 

          O enredo gira em torno de Luísa, uma típica burguesa da Portugal do século XIX. Casada com Jorge, leva uma vida tranquila – passava o dia em casa, lendo romances e fazendo companhia ao seu marido quando ele está em casa, sem nunca se preocupar com serviços domésticos (era pra isso que ela tinha empregadas, afinal). A moça anseia por um amor arrebatador, igual aos que lia nos folhetins que a distraíam por horas a fio... E é então que seu primo – e ex noivo –, Basílio, volta ao país. Conveniente, pois Jorge estava viajando na época.

          O romance entre os dois é intenso e constante. Basílio e Luísa alugam uma casa em um lugar retirado, o recanto só dos dois, e entregam-se à paixão carnal. Luísa experimenta 'libertinagens' que só lera em livros – como quando bebe champanhe diretamente dos lábios do primo, ao invés de usar o copo – e sente-se cada vez mais envolvida.

          Ela e o primo trocam cartas de amor, e é aqui que nos encontramos com a música da introdução. O trechinho já citado é a reação de Luísa ao receber um bilhete vindo de Basílio. A moça derrete, se desfaz... As cartas prosseguem, firmes e fortes... E acabam caindo nas mãos de Juliana, uma das empregadas de Jorge e Luísa. Basílio foge em um instante – logo nem no país estava mais.

          A partir daí o romance se encaminha para o fim. Juliana usa as cartas para chantagear sua patroa, logrando êxito com seus planos de ter para si quase tudo o que Luísa tem – roupas, dinheiro, liberdade –, enquanto Luísa se afunda cada vez mais na dor, medo e angústia.

          Com um fim trágico, mas brilhante, O primo Basílio é uma obra regada à críticas sociais e um realismo cruel. É o tipo de narrativa que te segura na leitura – eu fiquei lendo até umas duas da manhã, acho. haha.

          Regressemos, então, à música... Diante do enredo do livro, de uma moça usada, enganada e abandonada, que é usado para proclamação no meio da canção, e da letra, digam a mim... Ainda acham que Amor I love you é um ode ao amor? Acho que não, hein? haha

          Então é isso, gente.

          Até a próxima! ~

          Jenny
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos