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Capítulo 9 - Por Trás da Porta - O Andarilho do Tempo



- Por muito tempo, as pessoas cresceram acreditando em histórias como sendo fábulas para distrair crianças. Criavam-se personagens que espalhavam medo, outros que representavam a luz. Mas, o que desconhecem é que, antes mesmo de serem simples histórias, muitas delas foram reais. E há aquelas que foram primeiro, fábulas, para depois se tornarem realidade
            De um jeito muito curioso, o universo soube dividir muito bem esses mundos que jamais poderiam viver no mesmo tempo e espaço. Cada qual com seus habitantes em especial. Mas essa separação é tão instável e sensível, que até mesmo um pensamento seria capaz de quebrar essa frágil harmonia.
            Um desses mundos é, naturalmente, esse em que vivemos: a Terra, tão orgulhosa de sua normalidade, sem nada aparentemente mágico. O outro mundo... Bem, esse está bem escondido dos olhos curiosos dos humanos. Chama-se Meio-Termo, um universo completamente inusitado, onde é impossível descrever fantasia e real como palavras opostas. O lar das criaturas mais fantásticas, vidas extraordinárias.
            Mas Meio-Termo e Terra não são os únicos que dividem essa fronteira, Charlie... Existe um terceiro: o Vazio. Se você pudesse definir Meio-Termo como um sonho, certamente o Vazio seria o pesadelo. Um lugar habitado por criaturas cruéis, vis, ou apavoradas demais.
            Durante séculos os mundos viveram sem o menor contato, impossíveis de se cruzarem. Mas, então, algo aconteceu. Foi exatamente a dois mil anos atrás. Vou lhe contar essa história, peço que fique atento e não perca nada. É importante conhecer... Sua natureza.
            Havia um reino próspero, boas terras, povo cordial e grandes plantações. Nada tão pacífico quanto aquele reino. O império de Sertoria. O rei Khertoris era governante de toda Sertoria, seu julgamento era justo e tudo o que fazia era para o bem do povo. Seu coração era, provavelmente, o mais nobre entre os quatro cantos da terra. Era um homem zeloso por seu império e esposa, e sempre lutava para manter seu império longe do domínio dos bárbaros. Tão logo, tiveram um filho, o herdeiro de todo o seu poder.
            No entanto, não foi como o rei queria. Sua criança nasceu com um... Ahn, um problema, algo que trazia vergonha ao palácio de Sertoria. A criança tinha um aleijão. Uma deformação no rosto. Aos olhos dos pais, era um garotinho asqueroso, nem mesmo a própria mãe suportava ter seu filho nos braços. Recusou-se a amamentar a criança. Com isso, o herdeiro passou a ser levado pelos serviçais até o estábulo, onde era amamentado por uma cabra. Ele foi batizado como Vulno, originado do latim Vulnus, Ferida.
            A criança cresceu, até se tornar um garotinho de sete anos, cheio de dúvidas. Não podendo mais simplesmente enrolar o filho em panos para esconder o aleijão, os pais o confinaram em uma torre, a mais alta, sem espelhos, para que fosse poupado de seu próprio horror. Apenas uma cama, comida e o necessário. Jamais, em sua vida, recebera visitas dos pais, senão cartas de tristeza da mãe e um breve cumprimento anotado do pai, escrito no canto da carta. Nada mais.
            Um dia ele recebeu uma carta com breves palavras. O rei tivera um novo filho, forte e saudável. Não foi difícil esquecer a criança enclausurada em uma torre depois disso. Vulno nunca mais recebeu outra carta depois do nascimento da nova criança.
            Vulno cresceu aos cuidados de uma velha cheia de feridas pelo corpo, uma velha que ensinou-o a falar, escrever, costurar e, sempre que podia, levava um livro ou dois. Ela cuidou de Vulno até o último dia de sua velhice. Quando, finalmente, a velha morreu, o herdeiro estava só. Nem mesmo o rosto dos serviçais que lhe traziam comida era permitido ver. Seus olhos apenas enxergavam o que havia do outro lado de uma pequena janela quadrada, no alto da parede. 
            A solidão começou a ser sua principal companheira. Falava sozinho, chorava sozinho. Até aquele dia. Como lhe ensinara a velha, Vulno começou a escrever. Como não tinha folhas, passou a escrever nas paredes, registrando seus pensamentos. Finalmente, teve uma ideia: criar um amigo. Hiker, um viajante do tempo que vivia aventuras imaginadas pelo próprio Vulno. O garoto fingia, todas as noites, receber a visita de Hiker, e, juntos, se sentavam no chão, e o viajante contava tudo o que havia feito em sua jornada pelo tempo. Então, um dia... Ele apareceu. Hiker, o Andarilho do Tempo, nasceu e, vez ou outra, deixava o Meio-Termo para visitar o seu amigo.
            Aquele garoto, Charlie... Foi o primeiro Inspirado. O primeiro capaz de interferir no Meio-Termo e abrir uma porta entre esses mundos. Aquela torre foi o primeiro Literadouro, assim como o armário 207 foi o seu. Aquela foi a primeira vez em que existiu a transição de um mundo para o outro. Da mesma forma, O Andarilho do Tempo foi a primeira aparição em nosso mundo. A Fabula Prima. Quando Vulno morreu de velhice, o Literadouro foi fechado, e já não passava mais de uma torre. O Andarilho abandonou aquele mundo, começou suas viagens ao redor de outros mundos e do tempo. Claro, isso é o que me foi contado.
            Mas a transição de Hiker teve um preço. Ao ultrapassar essa tênue linha que separava os mundos, ele superou as limitações da barreira. Quando o limite foi rompido, uma cadeia de efeitos colaterais aconteceu. Inspirados, crianças concebidas em momentos propícios começaram a apresentar o mesmo dom de Vulno, criando coisas, fazendo de uma simples caixa de sapato a um castelo, os seus Literadouros. Hoje, Charlie, descobrimos que você é um Inspirado. Aquele armário é o seu Literadouro.
            Mas, entenda. Hoje sabemos que, talvez, isso não tenha sido uma coisa inteiramente boa. O limite se rompeu nos três pontos. O Vazio também acabou por se conectar ao nosso mundo. Tão logo, três diferentes realidades começaram a coexistir e, com isso, duas novas classes de humanos surgiram.
            A primeira é você, Charlie. Inspirados. Pouquíssimos humanos, muito menos do que 1%, nascem com um dom raro e maravilhoso. O dom de criar e fazer verdadeiro. Elas podem ser expressas com ideias, sonhos, pesadelos ou histórias, como é o seu caso. Significa que, tudo o que escreve, pensa ou sonha, é produzido, se torna real, e passa a habitar a imensidão do Meio-Termo. Mas as criações são feitas por motivações, um desejo intenso de criar, como aconteceu com Vulno. O fato de ter conseguido entrar aqui, Charlie, é justamente por isso: suas mãos “produzem”. A porta e o cadeado dessa sala te identificaram dessa forma e, por isso, você pôde penetrar nos domínios do Literadouro. A Inspiração que flui o seu corpo foi bem recebida assim que chegou. 
            Aí vem a segunda classe de humanos... Somos eu, Helena e Ernesto. Somos Emissários, pessoas que recebem a menor fração da Inspiração, dom usado para manter a ordem entre os mundos, garantindo que a ligação entre eles não se torne um colapso para o equilíbrio. Contemos as aparições em nosso mundo e mantemos as lendas nos lugares delas: nos livros.
            Cada Emissário recebe um estigma, toten ou elemento, com o qual usaremos como armas. Eles são conhecidos como Corsários. Nós recebemos totens, animais-guia. No caso de Helena, obteve o Corsario Berbellia. Ernesto é detentor do Corsario Lupus. Eu tenho besouros ao meu dispor. Sou o Corsario Coleos.
            A partir daí, as lendas começaram a surgir nesse mundo. Os Literadouros eram, às vezes, usados de forma displicente e, com isso, algumas criaturas foram soltas. As pessoas viam as aparições e começavam a espalhar as visões que tiveram. Os folclores ganharam força. Hoje, muitas das histórias que as crianças ouvem foram criadas por Inspirados, ou já existiam antes de Vulno e, simplesmente, foram liberadas em nosso mundo através dos Literadouros.

            Charlie, até aquele momento, apenas escutava. No entanto, as dúvidas apareciam cada vez em maior número, enquanto as respostas eram vagas e confusas. Tinha tantas perguntas, e, ainda por cima, um velho doido começava a dizer que ele era especial, tinha um dom, e mais um monte de abobrinhas improváveis. O que esperar disso?, ele se perguntou.
           
            - Ok, a história é linda, mas... O que é um Literadouro, e porque você insiste em dizer que meu armário é uma coisa dessa?
            Munphus sorriu, como se já esperasse por aquela reação. Charlie espantou-se. Era uma expressão nunca antes vista no rosto do velho bibliotecário.
            - Literadouro é o receptáculo de cada Inspirado, a forma de entrar em contato direto com suas criações, obviamente você o tem, pois suas histórias se tornaram reais. Mas, com o tempo, elas foram proibidas, pois os homens eram displicentes demais e as coisas estavam ficando fora de controle. Estavam criando o que não podiam controlar. Logo, Os Literadouros foram encerrados. Pelo menos era o que deveria ter acontecido.
            - Proibidos? Quem proibiu?
            Munphus repetiu o mesmo sorriso, ainda que não parecesse ser essa a sua intenção.
            - Não sabemos...Ninguém sabe... Simplesmente recebemos esse aviso, um dia, através de nossos Corsários... Isso para você ver como sabemos tão pouco sobre a Inspiração! Toda a nossa limitada bagagem de conhecimento nos é dita através de nossos Corsários, e eles nunca são claros ou explicativos. Isso sempre me frustrou... Pois bem... Veja, Charlie. Apenas três Literadouros foram plantados ao redor do mundo, para que o equilíbrio fosse mantido, uma vez que não se podia mais desligar a conexão entre os mundos.  Eu sou o Portador deste Literadouro... Bem aqui, onde estamos. É meu dever cuidar das Inspirações que aqui aparecem.
            - E o que esse Vazio faz?
            - Alguns o chamam de “lixeira do universo”. Histórias inacabadas, sonhos frustrados, pensamentos torpes, mesquinhos e sentimentos que representam fraqueza são enviados ao Vazio, para perecer... É um lugar perigoso, uma vez que os habitantes de lá se alimentam do “lixo”. Os personagens inacabados de cada Inspirado se tornam corruptíveis, uma vez que não possuem objetivos ou resoluções. Sem um desfecho, você é apenas uma coisa que vaga... Existem muitos desses vagantes no Vazio, se alimentando do resto de nossas imaginações.
            Charlie ficou em silêncio, encarando o velho. Munphus compreendeu a expressão do garoto, e disse:
            - Quero que confie em mim, Charlie. Por isso, vou responder a todas as suas perguntas. Não se acanhe... Faça-as.
            Charlie não esperou pedir duas vezes:
            - Como uma história se torna inacabada?
            - Quando um Inspirado faz o que você fez – avisou o velho – Abandona sua história. Quando se perde o desejo em continuar uma fábula, ela passa a boiar no rio dos sonhos inacabados, no Vazio. Naquele momento em que deixou sua história dentro do armário, cada personagem foi confinado ao Vazio... É a única forma de entrar lá, abandonando as ideias permanentemente.
            Charlie sentiu um frio na espinha e fitou o irmão. Lembrou-se do dragão, e da tragédia que levara Andrew a conviver com aquela mão disforme.  
            - Fale-me sobre esse lugar... O Vazio... – pediu Charlie. O lugar parecia ainda mais curioso do que qualquer outro – Criaturas do Vazio podem vir até nós?
           
- Bem... Por onde começo? Como no Meio-Termo, existem habitantes que sempre viveram lá, não apenas os “inacabados”... Não se sabe o aspecto do lugar, pois nunca ninguém conseguiu entrar ou sair. Tudo o que sabemos é que a única forma de passar por lá é pelo Portão da Jaula, guardada por um ser tenebroso.
            Krark, ou Guardião da Jaula, assim conhecido. Ele guarda o portão que entra e sai do Vazio. Ele possui um mascote, Harsos, seu cão-guia. Eles nunca deixam ninguém passar, jamais. Simplesmente é impossível.
            Não se sabe, ao certo, como o Guardião foi criado. Ele simplesmente existia ali. Krak era um ser formado a partir dos restos de sonhos e histórias. Dizem que, primeiro foi formado o rosto. Os olhos eram os pesadelos das crianças Inspiradas, enquanto os lábios eram os pensamentos mais cobiçosos e impuros dos corações endurecidos no mundo humano. Sua pele era composta por medo e dor, originando uma cabeça sem nem mesmo um fio de cabelo, com olhos cor de argila e pele acinzentada. Seus braços foram formados a partir dos anti-heróis abandonados em histórias inacabadas. A dor e o derramamento de sangue se reuniram, formando pernas e pés de Krak. O ódio teceu a corrente que o Guardião da Jaula carregava em volta de seu pescoço e tórax, e sua lança era formada pela desilusão daqueles que abandonaram, para sempre, a Inspiração.
            Ainda no começar do Vazio, Krak se alimentava de tudo o que via, todo o “lixo” que era mandado ao seu domínio. Um dia, aquele ser comeu algo que não gostou, algo que causou-lhe enjôos: o prazer na morte. Krak era um ser inferior, mas, como qualquer um, temia morrer. Por isso, não viu outra opção senão vomitar tudo o que havia comido.
            Mas, quando o fez, não saiu de suas entranhas nenhum resto de seu banquete. O resultado foi um cão. Seu fiel companheiro fora regurgitado.
            Era do tamanho de um cavalo, de pelagem negra e olhos esbugalhados, como bolas de bilhar azuis. Suas orelhas eram equiparáveis às de uma lebre e, em torno do pescoço, uma engrenagem rachada começava a se formar, servindo-lhe de coleira. As patas eram enormes, contempladas com garras curvas e desgastadas.
            Ainda há outros dois, além de Krak. Zoakros e Qaaze. São conhecidos como Sentinelas da Jaula pela nossa literatura. Cada um exerce sua função, são como os “donos” do Vazio. Krak, como já disse, vigia o Portão. Zoakros é um espectro, ser vagante, sem olhos, ouvidos ou boca, que se encarrega da “troca”. Qaaze é a “voz” do Vazio. Qaaze é o que podemos chamar de “má consciência”, aquele que sopra no ouvido das pessoas os precursores dos sentimentos mais frios e sórdidos. Afinal, são desses sentimentos que eles se alimentam. Tecnicamente, jamais puderam nos prejudicar. Eles não entram em nosso mundo, mas suas habilidades nos influenciam. Em suma, Krak é um ser sólido, Zoakros é a própria escuridão, espectro amorfo, enquanto Qaaze é uma voz.
            Krak jamais deixava que nada entrasse ou saísse do Vazio. Ainda que o quisesse, seu instinto era maior do que o desejo. O próprio Guardião da Jaula almejava deixar aquele lugar, por ser triste e solitário, até mesmo para uma existência como ele. Mas não podia deixar seu posto. Então vieram as perguntas. “Por que, então, ter um guardião? O que seria capaz de abrir aquela passagem? Quem seria capaz de abrir a passagem?” Se tem um guarda, supõe-se que exista a possibilidade de “invasão”. Os temores surgiram através de tais questionamentos. E uma lenda surgiu a partir de então.
           
- Um momento... Se, nada passa aquele portão, como o Vazio pode estar ligado ao nosso mundo? Como aquelas coisas saíram de lá? E que raios de “troca” é essa?
            - Bem... Já ouviu falar na “troca equivalente”? – Munphus explicou – É assim que acontece. Eles não passam, necessariamente, pelo Portão. Quando as sombras e o dragão vieram a este mundo, alguma coisa foi mandada pra lá em troca disso, ocupando o mesmo espaço. Mas... Tem um problema... Isso só acontece se... Alguém do lado de fizer a “troca”. E, acredite, é extremamente difícil fazê-la, requer preparação e poucos sabem a forma correta... Falhar na Troca Equivalente pode implicar na... Morte.  
           
            Charlie ouviu palavra por palavra. Isso significava que, em algum lugar, alguém estava tirando “coisas” do Vazio e colocando no mundo convencional.
            - Há quanto tempo enfrentam essas aparições?
            - Do Meio-Termo, há dois mil anos atrás, logo quando existiu o primeiro Literadouro... Já as aparições do Vazio, há cerca de trezentos anos, mais ou menos. Quando descobrimos a Troca Equivalente. Ou melhor, quando nossos Corsários acharam conveniente nos contar.
Charlie digeria informações, ao passo que sua mente criava novas perguntas. Outra dúvida veio a sua cabeça.
- Que temor seria esse? O que você mencionou antes, quando ninguém soube explicar a existência de um Guardião.
            Munphus fitou a sobrinha, que parecia inexpressiva, embora o brilho de seus olhos denunciasse uma sombra de medo e hesitação. Fosse o que fosse, a resposta não seria, nem longe, das melhores.
            - O Despertar do Vazio... O temor que todos sentimos, Emissários e Inspirados... Diz a lenda que, um dia, algo fará o portão se abrir, algo tão poderoso que nem mesmo Krak ou os outros Sentinelas poderão deter a violação do Portão da Jaula. Quando isso acontecesse, o equilíbrio entre os três mundos se tornaria um caos, e, por conseqüência, não haveria mais um limite. Os três mundos se uniriam em um só, e seria o fim da vida como conhecemos. Imagine humanos habitando debaixo do mesmo céu que as criaturas do Vazio! O quão terrível seria! Uma calamidade. Poderia implicar o fim dos três mundos!
            - Mas vocês não sabem, nem ao menos, o que, ou quem, poderia causar o Despertar do Vazio?
            Mais uma pausa. Charlie estava acertando nas perguntas, mas, em seu íntimo, não tinha certeza se queria saber.
            - A sua carta... Esse tal Dr. Sanguinetti, nunca ouvi tal nome, mas... Northon Galahan? Esse sim... Northon foi um Inspirado, que viveu há mil e duzentos anos atrás. Um pobre coração corrompido que viveu na miséria por muito tempo. Até o dia em que descobriu possuir tão incrível dom. Northon desenvolveu seu talento quando esteve preso, por roubar frutas de um mercador. A prisão onde esteve tornou-se seu Literadouro. Quando foi liberado, percebeu que não poderia viver plenamente feliz longe daquela cela, longe do seu poder. Começou a roubar cada vez mais, para que pudessem enviá-lo a prisão e, com isso, criar suas criaturas. Mas logo percebeu que o tempo em que ficava detido era curto e nunca deixariam um homem entrar em uma prisão por vontade própria. Então Northon fez algo extremo... Tirou a vida do mercador e de toda a família. Northon foi preso, e lá ficaria mantido por três meses, até o dia em que fosse executado. Bem, três meses são mais do que o suficiente para criar toda a sorte de criaturas, um exército! Desejava tomar todo o vilarejo para si e, logo, queria conquistar todo o resto. Sua solidão na prisão, no entanto, causou seu encontro com ninguém menos do que Hiker, o Andarilho do Tempo e o amigo do já falecido Vulno. A criação de um simples menino deformado, de fato, viajara por todo o espaço, nada parecia deter o seu desejo de buscar o conhecimento. Hiker tornou-se sábio. Dividiu muitas informações com o rapaz prisioneiro, pois Northon e sua solidão lembravam em muito o pobre Vulno. Hiker poderia possuir todo o conhecimento, mas era ingênuo, e foi manipulado por Northon. Quando este descobriu existir uma forma de abrir passagem até o Vazio, ele decidiu que o faria. Pior, Northon sabia como fazer. Por isso, em uma última manobra para reparar seu erro, Hiker, com a ajuda dos Emissários, confinou Galahan, o Inspirado Exilado, ao mundo do Vazio. Ele e suas criações bizarras foram enviadas para aquele lugar tenebroso. Depois disso, seu nome nunca mais foi pronunciado entre os Emissários... E o Andarilho sumiu sem deixar pistas, na mesma época em que os Literadouros deixaram de existir. Mas, anos após a queda de Northon, de alguma forma que desconhecemos, alguns Literadouros foram abertos. Desde então, temos descoberto Inspirados que, como você, estão liberando suas próprias criações involuntariamente, mantendo os Emissários em atividade vinte e quatro horas por dia. Temo que, talvez, vocês estejam sendo manipulados.
            - Quer dizer que Northon sabe como realizar o Despertar do Vazio? – perguntou Charlie, incrédulo.
            - Sim, mas, onde quer que ele esteja, é impossível fazê-lo ainda, acredito eu... Ou ele já teria feito.
- E vocês acham que ele está de volta... – concluiu Charlie – acham que ele saiu do Vazio...
            - Bem, Charlie... Por muito tempo foi nisso em que acreditei. Passei anos procurando saber se isso era verdade. Mas, quando li a carta, percebi que, talvez, Northon ainda esteja no Vazio.
            - Como? Pra mim, essa carta é inútil.
            O Velho sorriu, apontando para o primeiro nome impresso na carta.
            - Vê esse nome? “Charlie C. Galahan”.
            - Charlie Caesar Galahan – completou Charlie – é só um pseudônimo. Eu o uso para escrever minhas histórias...
            - Sim, e isso é bom. Sabe, Charlie Galahan é o meu escritor favorito... Não faça essa cara de cético, rapaz. Eu vou explicar. Venha comigo.
            Munphus levantou-se da cadeira e caminhou a passos lentos, sem olhar para trás. Charlie não esperou um chamado, saltou para frente e correu em direção ao bibliotecário. Toda aquela história já havia impregnado a alma de Charlie com uma deliciosa sensação de que o mundo era empolgante e que, por trás das cortinas cinzas da normalidade, havia um reino fantástico, um reino onde ele tinha influência direta.
            Andrew caminhou na intenção de seguir o irmão mais velho, mas Charlie acenou, pedindo para que não viesse. Andrew acatou, ainda que de má vontade.
- Tudo o que os Inspirados escrevem são registrados nesse Literadouro, é a forma como suas histórias adentram o Meio-Termo. Li todas as suas histórias, todos os seus livros, e, sinceramente, nunca conheci um Inspirado que escrevesse tão bem...
Munphus parou de frente a uma estante no fundo da sala, apontou para o topo dela e, aparvalhado, Charlie encarou. Uma fileira inteira de livros de capa preta brilhavam em ouro puro as escritas Charlie Caesar Galahan. O garoto fez menção de dizer alguma coisa, mas descobriu-se sem palavras, a não ser um sorriso involuntário.
- Passei anos acreditando que Charlie C. Galahan fosse, na verdade, Northon, que conseguira escapar do Vazio. Não apenas pelo fato de possuírem o mesmo sobrenome, mas por suas Inspirações serem tão vivas quanto as de Northon. Mas, hoje, lendo seu nome naquela carta, percebo que ele nunca foi responsável por essas histórias. Foi você, todo esse tempo e, talvez, Northon ainda esteja no Vazio, sofrendo sua punição. Mas, me diga... De onde tirou a ideia desse nome?
            Charlie deu de ombros.
            - Não sei. Achei o nome legal, veio do nada.
            - Nunca ouviu falar em Northon Galahan?
            Charlie fez que não com a cabeça, decidido. A carta fora a primeira vez. Ele fez uma breve pausa e, por fim, falou:
            - Sr. Munphus... É possível impedir Northon? Impedir esse Despertar do Vazio?
            O bibliotecário levou a mão até um dos livros, segurando o gato com a outra, lançando um rápido olhar a Ophelia, que ainda chorava no canto da sala.
            Atrás deles a chama projetava sombras incertas na parede e, Charlie logo percebeu, era nelas em que o velho tinha pousado seu olhar. Ele se manteve calado alguns segundos, provavelmente se perguntando a mesma coisa, ou, pelo menos, tentando separar o que poderia ser verdade, e o que poderia ser real.
            - Apenas um único ser pode responder a essas perguntas. Um viajante capaz de transpor o Limite, o Portão do Vazio, ou qualquer outra coisa... Hiker, O Andarilho do Tempo.

Capítulo 8 - Por Trás da Porta - Besouros



            Ophelia se lançou contra os dois rapazes. A garota, antes elegante e comportada, assumira todo o seu lado selvagem, exibindo dentes nada condizentes com sua feição gentil. Os dedos estavam arqueados, exibindo longas garras negras.
            Havia um brilho fosco e pálido em seus olhinhos de jovem assassina, ainda que sua beleza fosse a característica mais marcante. Todos os pensamentos sobrevoaram a mente de Charlie, mas a garota-gato era rápida demais, dificilmente seria detida.
            Foi Andrew quem pensou rápido.
            - Sai, Charlie! – o irmão mais novo afastou Charlie com um empurrão – vem, bichana!
            Andrew estendeu o braço disforme em direção ao animal. As unhas de Ophelia se enterraram na jaqueta, assim como seus dentes. Ela caiu de cócoras no chão, ainda firmemente segura no que deveria ser sua presa. Mas tudo o que conseguira perfurar foram os tufos de algodão e tecido.
            - Rá, sua gata burra! – bradou Andrew, vitorioso.
            Armou um chute certeiro. Foi impecável. Acertou a garota bem na testa, lançando-a dois metros para trás. A garota se viu com a luva presa em suas presas, enquanto os longos dedos acinzentados e oleosos de Andrew estavam expostos. Não era uma cena muito agradável.
            Ophelia cuspiu a luva.
            - Mamãe, esse plebeu tem um gosto horrível.
            - Não seja tola, menina. Isso é uma luva!. – avisou a mãe, impaciente – coma logo, morda apenas a pele! Também estou faminta.
            Ophelia voltou sua atenção a Charlie. Era ele o escolhido como o prato do dia. Ela sorriu tenebrosa, exibindo, novamente, dentinhos pontudos. Andrew mal pôde pensar quando a garota-gato investiu outro ataque contra o irmão mais velho.
            - Charlie!
            Andrew correu em sua direção, com o braço asqueroso estendido em direção à felina. Ela precipitou-se no ar, caindo de cócoras, por pouco errando seu alvo. Andrew segurou-a pela longa cabeleira usando sua mão comprida e pesada.
            - Aqui não! – ele gargalhou – segura esse apetite, fedorenta!
            E tudo aconteceu muito rápido. Andrew mal tocara a garota, mas alguma coisa arremessou Ophelia para longe, seguido de uma explosão de luz azul-prateada. completamente trêmula, como se sofresse de um acesso, ou estivesse sendo eletrocutada. A garota caiu no chão. Nem mesmo Charlie soube como reagir.
            - Ophelia! – berrou Morganna, atirando-se ao lado da filha, com uma expressão inconsolada – Ophelia, meu pequeno anjo, minha ferinha! Olha-me nos olhos! Torna-te de pé e devore esse plebeu insolente! Que fazes caída, trêmula, minha menina?
            Andrew caminhou até o irmão, ajudando-o a se levantar, sempre encarando as duas perigosas mulheres.
            - Cara, essa tal de Morganna de Pompadour falar demais. Por que a gente não...
            Andrew foi interrompido. Um último espasmo de Ophelia, e ela explodiu. Não como uma bomba. Era como se um balão de água fosse atirado contra o muro, espirrando gotas de luzes azuladas em todas as direções. Um clarão azul, como festa de fogos de artifício, inundou a sala, do corpo de Ophelia desprenderam-se duas figuras. Dois pedaços foram arremessados do ponto onde a princesa felina estava, em direções opostas.
            De um lado da sala, uma garota fora cuspida contra uma pilha de livros dispostos sobre uma mesa. Do lado extremo, um gato cinza chapou contra a parede, levantou-se, ressabiado, chacoalhou o corpo e correu, apavorado, em direção a uma estante, subindo nela e refugiando-se.
            A garota levantou-se, ainda zonza. Seus cabelos negros estavam enrolados entre as pernas, ela mal conseguia andar. Embora parecesse muito com Ophelia, não tinha mais os olhos ou as orelhas de gato. Era uma simples garota de testa lisa e olhos castanhos. Perfeitamente normal.
            - Mamãe... – murmurou a garota, olhando as mãos de unhas curtas e rosadas – o que... O que fizeram comigo?
            - Ophelia, minha querida!
            Morganna atravessou o salão, mas fez algo que Andrew e Charlie não esperavam. Ignorou completamente a garota. Foi em direção a estante e, erguendo as mãos em direção ao gato, começou a dizer em voz doce e carinhosa:
            - Venha, Ophelia, minha princesinha, meu docinho... Venha ter com sua mãe.
            A garota encarou a cena, boquiaberta. Não suportando, caiu no berreiro, correu em direção à Morganna e agarrou-lhe as vestes. A rainha chacoalhava a perna, tentando afastar a garota como se esta fosse um saco de vespeiro.
            - Saia de mim, imundície! Aparta, coisa asquerosa! Humana plebe e suja!
            - Mãe! Sou eu, Ophelia!
            - E, ainda por cima, atrevida! Olha-te, criatura! Jamais poderá ser minha princesa, não com essa cara de trapo de ossos e carne de gente humana! Serves apenas como refeição!
            Charlie assistia, completamente atordoado, à cena absurda. O gato, sem entender muito, mantinha-se encolhido sobre a cômoda, protegendo-se das garras da mulher que dizia ser mãe de um quadrúpede.
            - Charlie... – Andrew cutucou o irmão por trás – eu senti algo vindo de mim... De dentro... Dessa coisa.
            Andrew apontou, com a mão boa, em direção ao braço anormal.
            - Saiu algo dele, como um pulso, não sei... Acho que fui eu que fiz isso...
            Charlie fitou o irmão, pasmo. Como seria possível? O que, agora aquela coisa no lugar do seu braço tinha algum tipo de poder bizarro, capaz de converter feras assassinas em menininhas choronas? Era improvável, mas Charlie estava começando a não duvidar de absolutamente nada.
            - Talvez devamos ir embora, que tal? – sorriu Andrew, ainda que, por dentro, quisesse gritar desesperadamente.
            - Isso é uma boa...
            - Não irão a lugar algum! – Morganna berrou.
            Ela estava de frente para os dois, segurando um gato cinza no colo, alisando-o. A menina fora ignorada no chão.
            - Vocês serão nosso petisco! Soldados!
            Dizendo isso, a mulher chiou assim como os gatos fazem quando estão acuados. A cabeleira loura eriçou, fazendo o carretel preso à sua cabeça girar. O gato em seu colo tentou fugir, apavorado, mas as mãos agarravam o animal em uma carícia possessiva e igualmente cruel.
            Da porta de madeira e palha, por onde Morganna saíra, outras figuras igualmente fascinantes começaram a surgir. Cerca de doze homens com aparência felina, usando elmos e armaduras de metal, chiando como a rainha fizera.
            - A mulher tem mais disso aí? – queixou-se Andrew.
            - Minha filha está indisposta no momento, mas meus rapazes vão se encarregar de preparar o prato de hoje. – Morganna sorriu.
            Os homens-gato saltaram, furiosos. Por mais útil que aquela mão asquerosa pudesse ter sido, não seria o suficiente para combater doze daquelas feras humanóides. Seria impossível vencê-los.
            Então, talvez um milagre ou mais um adicional à liste de azares de Charlie, a porta imensa que dava para a biblioteca se abriu, rangendo furiosamente.
            - PAREM JÁ COM ISSO!
            O grito de ordem ecoou em toda a sala, fazendo estremecer janelas, estantes e mesas. O bando de gatos abandonou imediatamente suas investidas e, assustados, os soldados saltaram para trás, cravando as unhas nas paredes, ainda preservando aquelas expressões de poucos amigos. Estavam acuados. Apenas a menina Ophelia permanecia no chão, lamentando inconsolavelmente.
            Andrew e Charlie viraram-se. A grande porta estava aberta e, passando por ela, estava o bibliotecário Munphus, acompanhado de seu filho e sobrinha.
            - O que estão fazendo aqui? – berrou Munphus – e como conseguiram entrar!
            - Imperador Munphus! – vociferou Morganna, interrompendo-o – Permita que eu os devore! São invasores, não merecem tua proteção!
            - Fique longe, Morganna! Chega! – Munphus adiantou-se.
            A cada passo dado pelo velho, o chão estremecia. Das paredes, enormes besouros começaram a brotar. Eram verdes, de patas grossas e casco reluzente. Os insetos encheram todo o recinto e, tão logo, já não se podia ver mais livros ou mesas, tamanho era o enxame.
            Os insetos abriram as asas, zumbindo e refletindo a luz tremeluzente da chama central. Aquilo parecia assustar os homens-fera.  Verdadeiramente, assustava até mesmo Charlie e Andrew.
            - Agora ferrou! – cochichou o caçula – o velho tá furioso.
            - Eu não estou preocupado com o velho – Charlie puxou o irmão para perto do fogo. Os besouros estavam se aproximando com considerável velocidade.
            Munphus encarou os dois rapazes. Encarou o bando de gatos e, virando-se para seu filho, lançou um olhar indecifrável. Por fim, ajeitou os óculos no rosto e falou:
            - Jovens, digam-me. Como conseguiram entrar nesse lugar? – surpresa. A voz do velho era calma e, se possível dizer, chegava a ser simpática.
            - Ahn... Pela porta? – arriscou Andrew, tentando esconder o tom de ironia.
            Munphus balançou a cabeça, pensativo.
            - Como passaram pelo cadeado, e como empurraram a porta?
            Andrew apontou para o irmão mais velho.
            - Foi ele. Ele fez tudo.
            Charlie encarou o caçula, incrédulo.
            - Você? – Munphus falou em tom surpreso.
            O bibliotecário começou a caminhar lentamente em direção ao rapaz, olhando-o com aqueles olhinhos miúdos e cuidadosos, como se analisasse, através da expressão de Charlie, como conseguiram entrar na sala.
            Os besouros começaram a se afastar, formando um círculo em volta do grupo de gatos-humanoides. Eles chiaram, mas permaneceram estáticos, com os pelos eriçados e os olhos cintilando uma fúria contida. Estavam, agora, o velho e Charlie, um de frente para o outro.
            - Você... Tocou o cadeado? Ele te deixou entrar?
            - Acho que sim – respondeu ele, indeciso.
            O velho levou sua mão cansada e enrugada em direção ao rosto do jovem invasor. Segurou-o pelas bochechas, virando seu rosto de um lado para o outro, tocou em seu nariz e, por fim, levantou seus lábios, estudando a gengiva. Parecia estar comprando um cavalo.
            - Fantástico! – anunciou o velho, subitamente, encarando o rapaz – Isso é estupendo! Como é possível, não me pergunte! Mas é! Você é mais um deles!
            - Eu sou? Isso é bom? – Charlie afastou um passo, desacreditando de qualquer gesto amigável do velho bibliotecário.
            Já não era mais Munphus, “o velho cocô”, mas um homem de aparência misteriosa e, de forma suspeita, até divertida.
            - Morganna, leve sua gente de volta... Tenho muito que fazer aqui – pediu o bibliotecário, sem tirar os olhos de Charlie.
            Ela fez menção de queixar-se, dizer algo em sua defesa. Mas, de uma forma muito estranha, eles pareciam temer aquele velhinho de aparência frágil. Charlie achou melhor não subestimá-lo pela sua aparência inofensiva.
            - Como queira, Imperador... – ela sibilou.
            - Espere! O gato e a menina ficam – pediu Munphus.
            - O quê? – Morganna apertou o gato contra o peito, enquanto o bicho tentava escapar a qualquer custo – Mas ela é minha filha!
            - Faça essa gentileza, sim? Prometo levá-la em segurança.
            Não havia o que discutir. As palavras daquele senhor de rosto enrugado regia uma ordem quase palpável, e a simples ideia de contrariá-lo naquele instante parecia uma péssima ideia. As mãos de Morganna afrouxaram e, pesarosa, deixou o animal escapar.
Por fim, na sala ficaram apenas o bibliotecário com filho e sobrinha, os invasores, e as duas partes de Ophelia. Além o enxame de besouros


***

            Morganna e seu bando tinham deixado o lugar. Munphus estava sentado em uma cadeira, acariciando o gato que, preguiçosamente, ronronava e esticava as patas. A menina Ophelia estava em um canto da sala, encolhida, engasgada em lamúrias.
            Helena e Ernesto estavam ao fundo, encarando Charlie e Andrew, que permaneciam ao lado da grande chama. Nenhuma palavra fora trocada até aquele momento. Os besouros caminhavam pela sala vagarosamente, alguns alçavam vôo, exibindo exuberantes asas translúcidas, emitindo luzes de vários tons de cores. Pareciam esmeraldas aladas, pensou Charlie consigo mesmo.
            - Sua mão... – disse, enfim, Munphus – o que aconteceu?
            O velho apontou em direção à mão disforme. Os dedos pareciam ainda mais decrépitos, o braço cada vez mais pesado. Andrew sentou-se no chão, apoiando o braço sobre as pernas.
            - Eu fui... Atacado.
            - Sim...? – Munphus sugeriu com seu simples questionamento.
            - Sombras. – Andrew engasgou. Charlie sentou-se ao lado do irmão – Sombras me atacaram.
            Munphus pareceu analisar a resposta. Permanecia inexpressivo, ainda acariciando o animal.
            - Sombras? Interessante...
            Ele fez uma pausa. Voltou sua atenção a Charlie.
            - O armário 207. Ele é seu, não é?
            Charlie engoliu em seco.
            - Sim, senhor.
            Munphus assentiu, dessa vez, pesaroso.
            - Como conseguiu seu próprio Literadouro?
            Charlie fez cara de confuso. Realmente o garoto não sabia do que se tratava, a não ser o que estava na carta, ainda que não fosse nenhum pouco revelador.
            - Não sei o que é isso.
            - Hum... Entendo.
            O homem permaneceu pensativo, talvez tentando assimilar a situação ou, quem sabe, buscando as palavras certas a serem ditas. No fim, ele concluiu que não seria nada fácil tentar explicar para dois jovens assustados...
            - Uma história de quase três mil anos.
            Charlie e Andrew observavam o velho e suas frases sem sentido aparente.
            - Como disse? – perguntou Charlie.
            Munphus suspirou. Levantou-se, deixando o gato, já sonolento, sobre a cadeira.
            - Sr. Logan, primeiro, peço que confie em mim.
            - É difícil confiar em alguém que te odeia desde o primeiro momento em que te viu.
            O velho riu cordialmente.
            - Eu nunca te odiei, rapaz. Não sou do tipo que odeia...
            Charlie duvidou e sentiu vontade de dizer, mas, de alguma forma, talvez o medo ou a perspicácia do velho, o garoto sentiu-se preso às palavras do velho. Ali, naquela sala cheia de livros, o Sr. Munphus tinha uma influência estranha, quase tão quente e viva quanto às próprias chamas que brilhavam ao seu lado, no centro da sala.
- Eu apenas acreditava – continuou o velho, explicando - que você, assim como todos os jovens dessa geração, tinha o menor dos respeitos pela literatura, livros, e... A Inspiração. Vejo todos os dias crianças roubando-me os livros, estragando as páginas. Eles não sabem que destroem um mundo toda vez que isso acontece... Não, rapaz, eu não tinha ódio... Tinha pena, ressentimento, apenas isso. Mas, agora, vejo que você não é como eles. Isso me enche de alegria, sabe?
O sorriso de Munphus pareceu convincente, mas Andrew cutucou o irmão mais velho, alertando-o de que nada era confiável até que estivessem seguros.
 - Só quero saber uma coisa, rapaz – Munphus, após uma pausa, continuou - Como conseguiu liberar aquelas coisas do armário, noite passada?
            - Eu... Não fiz nada. – Charlie gaguejou, sentindo como se fosse interrogado por alguma polícia secreta e bizarra – Só recebi uma carta, dizendo que tinham feito um... Reparo no meu armário. Depois disso...
            - Carta? – Munphus mudara sua expressão. Estava hesitante – você a tem em mãos?
            Charlie enfiou a mão no bolso, remexendo os bolsos. Não encontrou. Abriu a mochila e lá estava ela, meio amassada, suja de algo viscoso. Era o suco, que ainda não tinha secado.
            - Ahn, tá meio nojento isso aí, mas dá pra ler – Charlie riu, constrangido, entregando a carta ao velho bibliotecário.
            A cada palavra, Munphus arregalava os olhos, parecia temeroso, suas mãos tremeram levemente, mas ele se fez forte.Charlie, no entanto percebeu que parecia ser algo sério. Algo muito sério. Charlie adiantou-se, contando ao velho tudo o que tinha acontecido, desde o aparecimento dos ratos até o ataque das sombras. Talvez estivesse tentando se explicar ou, se não fosse isso, era uma forma desesperada e obter ajuda, ainda que fosse em alguém que não era confiável. Charlie mencionou suas histórias, o livro, o dragão e o zelador. As ideias saíram desconexas de sua boca, mas Munphus conseguiu organizar o retalho de palavras.
            - Você, então, é Charlie C. Galahan? – perguntou o homem, tentando esconder algo mais em seu tom de voz.
            O rapaz simplesmente assentiu, incerto se deveria mentir ou não.
            Munphus suspirou, seus olhos demoraram-s nas chamas, que crepitavam suavemente, tão pacíficas quanto o próprio velho. Finalmente, como se nada mais pedisse por reflexão, o velho bibliotecário falou, inexpressivo:
            - Menino... Eu preciso lhe dizer uma coisa. Venham, aproximem-se. Quero contar-lhes uma história que, para o bem ou para o mal, é a pura realidade. E, Charlie... Você está intimamente envolvido.

Capítulo 7 - Por Trás da Porta - A Rainha


            - O que eu faço, Charlie? – grunhiu, baixinho, o irmão mais novo – acho que preciso ir a um médico.
            Charlie e Andrew chegaram em casa às quatro da manhã e, naquele momento, estavam no quarto do irmão mais velho. A luz estava acesa, as portas e janelas trancadas, e os ouvidos abem atentos a qualquer movimento.
            Andrew enxugava as lágrimas no lençol, enquanto Charlie enrolava uma manta em volta do braço disforme do caçula, dando o volume de um braço saudável.
            - Duvido que um médico saiba o que fazer com isso... – murmurou Charlie, mais para si mesmo que para o irmão. Levantou-se, pegou uma jaqueta e atirou-a ao caçula – por hora, você precisa usar roupas de mangas bem largas e luvas. Aqui...
            Charlie recheou uma luva de couro com algodão e tiras de pano velho, dando mais volume.
            - Precisa encolher os dedos – pediu Charlie. O irmão o fez.
            A luva coube razoavelmente bem, mas ainda assim ele estava chamando atenção demais.
            - Droga... precisamos resolver isso...
            - Como você pode estar tão tranqüilo, cara? – Andrew sibilou, tentando ocultar o desespero que tentava escapar pela sua garganta.
            - Eu, tranqüilo?
            Charlie, de repente, foi desperto. Os acontecimentos daquela noite vieram como uma ducha gelada sobre seus ombros, fazendo-o despertar de um transe de completa indiferença que assumira para poder tirar o irmão daquela escola. Afinal, precisava estar com a cabeça fria para tal feito. Naquele momento, porém, Andrew havia despertado o medo do irmão mais velho.
            - O que vamos fazer, cara? – perguntou Andrew – o que...
            - Eu não sei... – falou Charlie em voz baixa, sentando-se no chão e cobrindo o rosto com as mãos – não tenho ideia do que fazer...
            Os pensamentos pareciam agulhas fustigando sua mente já moída e aos frangalhos. Não havia resposta para tudo o que estava acontecendo. Estiveram de frente a um pesadelo poucas horas atrás, acabara de descobrir que a garota que despertara nele algum sentimento era cheia de mistérios e representava potencial perigo. Para piorar, seu irmão fora quase convertido em uma monstruosidade, tal qual o zelador.
            Um pensamento relâmpago atordoou sua mente. Charlie vislumbrou o momento em que empurrou seu irmão em direção ao corredor escuro, à mercê das sombras. Era sua culpa, não podia deixar de pensar. Tudo aquilo, todas as coisas que pareciam ter saído de suas histórias. Mas as sombras... Ele não tinha ideia de onde, raios, vieram. Seria ele o autor de tamanha bestialidade? Se fosse, Charlie poderia se acostumar em se sentir culpado, pelo que ocorrera ao zelador.
            - Charlie... – Andrew chamou o irmão, fitando-o com o pavor estampado nos olhos verdes – eu vou morrer?
            Charlie estremeceu. Sentou-se ao lado do irmão, envolvendo-o num abraço fraterno e aterrador. Ainda que não quisesse, parecia soar uma despedida.
            - Não! Nada vai te acontecer. Você tem a minha palavra!
            Uma ideia passou voando pela sua cabeça.
            - Acho que tenho uma solução para essa situação.

            A dor estava passando aos poucos. Nenhum dos dois havia conseguido pegar no sono. A única coisa que puderam fazer foi trocar uma ou outra palavra e, numa dessas, Charlie acabou dizendo o que havia acontecido, sobre Helena e Ernesto. No mais, passaram o resto da noite contemplando o teto. 
            Quando, finalmente, o despertador soou, Charlie acordou num sobressalto urgente. Seu irmão não estava mais no quarto. Não demorou nem dez minutos, Charlie já estava na cozinha, ansioso, esperando pelo irmão. Tinham algo em mente.
            Demorou, mas Andrew apareceu, afobado. Ao que parecia, o braço já não doía, ainda que a aparência fosse a pior possível debaixo do disfarce. Lauren também estava na cozinha, absorta em seu trabalho, preparando torradas e omeletes. O suco e as rosquinhas de açúcar já estavam sobre a mesa.
            - Por que demorou tanto? – queixou-se Charlie em voz baixa.
            - Eu não sei, deixa eu ver, ahn... Ah! Lembrei, eu tenho um braço maligno que pesa o dobro do meu braço normal. Boa desculpa?
            Charlie não pôde evitar o sorriso. O irmão parecia parcialmente restaurado, pelo menos psicologicamente. Os dois beberam o suco numa única golada, engoliram uma rosquinha e se despediram da mãe. Lauren virou-se para os filhos, curiosa.
            - Que pressa é essa, rapazes? Ainda é cedo.
            Charlie se manteve em silêncio. Uma única palavra, e estaria se entregando. Andrew se adiantou:
            - Vamos à biblioteca. Charlie vai pedir Helena em casamento – e gargalhou.
            Charlie não achou a menor graça, corou feito uma cereja e engasgou com o protesto. Mas a manobra evasiva funcionou, desarmando Lauren e todas as suas perguntas desconfiadas.
            - Ok, mas não vão se perder em conversas, ok? – e ela acenou, rindo.
            Os rapazes saíram em disparada assim que a mãe os dispensou.

   ******************************************************************
           
O ônibus parou a duas quadras de distância. Levou alguns minutos para chegarem à biblioteca. Estavam de frente à construção antiga, porém bastante conservada.
- Tem certeza? – perguntou Andrew.
            - Mais do que nunca. Não há a quem mais recorrer.
            Andrew ficou pensativo.
            - Quer dizer que Helena e o primo troglodita são... O que eles são?
            - Estranhos – concluiu Charlie, sem encontrar a resposta certa – Mas de um jeito diferente... Acho que de um jeito bom.
            - Contanto que não haja dragões e sombras querendo fazer picadinho da gente...
            Subiram as escadas da entrada. Cada passo pesava como uma decisão importante e, ainda que Charlie quisesse voltar e tentar esquecer, não podia. Não depois de causar, indiretamente, tamanha aflição ao irmão mais novo.
            Empurrou a porta de madeira, que rangeu preguiçosamente, enquanto o cheiro de mofo tentava escapar. Assim que Charlie fechou a grande porta, sentiu o peso da decisão ainda maior em seus ombros.
            O homem estava atrás do balcão. Tio Munphus, “o velho cocô”, como gostava de dizer Andrew secretamente. Eles vasculharam a biblioteca com os olhos, mas não encontraram nenhum rastro de Helena ou Ernesto. Era provável que estivessem mantendo o dragão cativo. Em algum lugar.
            - E agora? Qual o próximo passo do seu grande plano? – perguntou Andrew impaciente.
            - Ta vendo aquela porta?
            Charlie apontou em direção à porta gigantesca de madeira e metal, presa com parafusos do tamanho de um dedão. Ela ficava na extremidade do salão, e rangia toda vez que era aberta, como se gritasse em protesto à sua violação. Charlie passou os últimos três anos escondendo sua curiosidade, mas era inocente e sem grande resolução. Naquele momento, porém, sua simples curiosidade fora convertida em uma obsessão. A placa de “Apenas Funcionários Autorizados” era como um convite ante a situação.
            - Vamos entrar lá? Mas tem um aviso...
            - Andrew, nós invadimos a escola essa madrugada, então poupe qualquer discurso moral, ok? Venha.
            Charlie caminhou em direção ao balcão, tirando do bolso sua carteirinha de cadastro.
            - Bom dia – sorriu o rapaz.
            Tio Munphus estava lendo um livro grosso e muito antigo, quando encarou a dupla com um olhar de desprezo. Charlie sorria cordialmente, e agradeceu intimamente pelo velho bibliotecário não ser capaz de decifrá-lo como Lauren fazia.
            Munphus simplesmente certificou a credencial e permitiu a entrada com um aceno breve, voltando sua atenção ao livro.
            Assim que se distanciaram o suficiente, Charlie falou em tom sibilante:
            - Vamos ficar atrás das estantes. E depois “escorregamos” até aquela porta.
            - Não sei se vou conseguir “escorregar” com um braço de meia tonelada... Quero tirar isso logo.
            - Não se preocupe. É a última vez que te vejo nesse estado. Prometo – Charlie sorriu, confiante.
            Levou alguns minutos para, sorrateiramente, se aproximarem da porta. Estavam com os joelhos levemente arqueados, de forma que não enquadrassem no campo de visão do velho bibliotecário.
            - Essa maldita porta vai ranger. – comentou Andrew.
            - Assim que forçarmos, corremos como loucos. Lá dentro, saberemos o que fazer.
            Charlie, diante do olhar de completo ceticismo do irmão, teve que admitir. Era terrível em bolar planos. Sua criatividade parecia não ser útil quando se tratava de invadir silenciosamente.
            - Force o cadeado – pediu o irmão mais velho.
            Andrew encarou o irmão, irritado, como quem diz “seu sacana miserável”, ou algo do tipo.
            - Vamos, eu cubro você.
            Andrew se rendeu. Foi até o cadeado, estava destrancado. Quando fez menção de virar a alça de metal, ele estremeceu. Andrew solto-o, surpreendido.
            Charlie fitou o irmão, confuso. Fez uma careta de o-que-ta-pegando e esperou um resultado.
            Andrew gesticulou com os lábios “essa merda ta viva”. Charlie compreendeu, mas sacudiu a cabeça negativamente.
            “Continue”, sussurrou Charlie.
            Mais uma vez. Andrew segurou a alça de metal e tentou girá-la. Ela estremeceu, mas, dessa vez, Andrew insistiu. Então ela balançou, como se fosse uma serpente. A corrente deslizou sobre o puxador da porta e, no lugar do trinco da chave, apareceram presas. Um cadeado com dentes.
            “Mas que m...” Andrew saltou para trás, saindo do campo de alcance do cadeado com dentes. Assim que o fez, o objeto tomou sua forma normal, caindo, pendendo inocentemente.
            Andrew olhou para o irmão. Ele estava boquiaberto. Olhou de soleira, para se certificar. Tio Munphus nada ouvira.
            - Ok, deixa comigo. – Charlie murmurou para si mesmo.
            Caminhou até o irmão. Observou o cadeado, cauteloso. Parecia ser uma mordida bem violenta. Charlie se decidiu. Segurou com força o cadeado e, respirando fundo, girou a alça, pronto para o pior. Afinal, não podia voltar, não depois de tanto em jogo.
            O cadeado cedeu. Simplesmente girou, abrindo passagem. Andrew encarou o irmão, confuso.
            - Mas ele tinha acabado de...
            - Eu sei, chapa... Ele deve ceder às insistências, talvez...
            - Que seja... Vamos entrar logo e dar um jeito de pegar meu braço de volta, ou seja lá como for.
            Estavam prontos para correr assim que a porta começasse a ranger. Abriram uma pequena fresta, alargou-a um pouco mais. Nada, a porta permanecia em silêncio. Charlie começou a se perguntar se poderia chamar isso de sorte, ou se fazia parte de sua maré de azar.
            O espaço era suficiente para poderem passar. Entraram em silêncio e encostaram a porta sem fechá-la por completo, para que o som estridente do trinco não chamasse atenção.
            - Não entendi a do cadeado – murmurou Andrew, quando julgou ser seguro.
            - Doidera, han?
            O lugar estava escuro, era impossível enxergar qualquer coisa a um palmo do nariz. Charlie segurou o irmão pela manga da jaqueta, sempre os mantendo próximos. Não queria perder Andrew por completo.
            Charlie tateou a porta e deslizou os dedos por toda a sua extensão. Passou pelas dobradiças, enormes por sinal, e, finalmente, tocou a parede. Parecia ser feita de tijolo, mas esfarelava como barro. Continuou apalpando, em busca de um interruptor. Nada.
            Avançaram um pouco mais. Estavam se afastando da parede, em direção ao que acreditavam ser o centro da sala, ou fosse o que fosse aquele lugar coberto pela escuridão.
            - Eu não consigo enxergar nada – murmurou Charlie, ainda segurando o irmão.
            Subitamente, uma claridade dourada invadiu a sala, engolindo a escuridão decididamente. Uma chama brotara do centro do salão, aquecendo o lugar e dando à vista tudo o que ali havia.
            Os dois irmãos lançaram um olhar panorâmico em volta, boquiabertos. Não era uma sala comum, nem de longe.
            As paredes eram altas, equivalente a um prédio de cinco andares. Acima, no teto, vários arcos projetavam o que parecia ser o “esqueleto” de um guarda-sol gigante. Centenas de estantes com livros grossos e antigos ocupavam o maior espaço. A grande chama brotava de uma fonte de pedra, onde uma flor de lótus aberta permitia, através de seu orifício, a saída do fogaréu brilhante. Um brilho diferente, quase mágico.
            O chão era coberto por um tapete verde que, logo, foi identificado como nada menos que grama. Bem aparada e cuidada, como se fosse um verdadeiro jardim. Foi aí que eles notaram. Entre os livros e estantes, pequenas trepadeiras se espreguiçavam, exibindo folhas verdes e flores de diversos tons de azul e vermelho, além de frutos em tom carmesim, dando ao lugar uma aparência de mundo de fantasias. Como nos contos de fadas.
            Várias janelas compunham o lugar, mas estavam cobertas por uma veneziana de madeira, aparentemente pesada. Várias mesas estavam dispostas e, ainda, havia um segundo piso, onde mais livros, trepadeiras e grama dividiam espaço.
            - É extraordinário! – exclamou Andrew – nunca vi nada igual!
            - Não sei o que mais incrível. Isso ou você falando ‘extraordinário’.
            Ainda estavam admirados com a beleza da sala misteriosa. Subitamente, um ronco os fez despertar. Olharam em direção à parede da extremidade. Mais uma porta, porém menor e inteiramente de madeira, com adornos de palha.
            - Foi do outro lado, não foi? – perguntou Charlie.
            - Não vou violar mais nenhuma porta, Charlie, não mesmo!
            - Então você fica...
            A porta se abriu. Sem delongas ou cerimônia. Foi sacudida, estremecendo em sua dobradiça enferrujada. Um vulto surgiu, caminhando lentamente, com passos graciosos, como uma figura dos contos de fadas.
            Era uma mulher. Ou muito parecida.
            Um longo vestido vermelho, com adornos dourados e um longo chapéu em forma de carretel mantinha firme a longa cabeleira loura. O rosto da mulher era rosado, as bochechas protuberantes, os olhos esguios e amarelos como o próprio sol. A íris, no entanto, era comprida, em forma de fenda. Olhos felinos. Charlie acabou notando, nas extremidades da testa, duas orelhas de gato.
            - Que merda é essa?
            - Andrew, diga isso mais uma vez e eu quebro os seus dentes.
            A gargalhada da mulher interrompeu a discussão.
            - Ora, crianças. Não sejam tão precipitadas. Temem o que lhes parece novo, não?
            Charlie fitou a mulher de aparência felina com olhares desconfiados. Ela pareceu perceber, mas pouco se importou.
            - Munphus anda muito ocupado, pouco tem me vigiado... Vocês estão aqui aos cuidados deles?
            - Não... – Andrew quem respondeu – na verdade, ele não sabe que entramos. Ele não gosta de nós.
            A mulher sorriu, exibindo longos dentes brancos como a própria neve.
            - Ora, vejam só. Pois saibam que estão tendo o privilégio de conhecer a rainha de Kanwitcha, Morganna de Poumpadour. E essa, senhores, é minha filha.
            A mulher que dizia ser rainha afastou-se da porta, dando espaço para que uma nova figura entrasse na sala. Uma figura menor, porém igualmente fascinante se aproximou. Uma garota, não convencional. Aparentava ter quinze anos, tinha longa cabeleira negra, envolvida num carretel que mantinha preso às costas, como uma bolsa. Seu vestido era branco com tiras rosadas. Os olhos eram idênticos aos da mãe.
            - Ophelia de Pompadour. – anunciou Morganna, como se anunciasse a uma multidão de fãs – a princesa de Kanwitcha.
            Ela fez uma reverência discreta, como uma verdadeira dama. Mas a imagem daquelas duas orelhas pontudas ainda incomodava e, por mais que Charlie quisesse dizer alguma coisa, não havia palavras que pudessem iniciar um diálogo inteligível.
            - Munphus, o imperador do Literadouro. Aquele homem não está aqui, está?
            Charlie estava prestes a responder, mas Andrew o fez da forma mais idiota e ingênua.
            - Não mesmo! Entramos aqui sem o consentimento dele. Se descobrir que estamos aqui, ele nos mata.
            Ela não pôde evitar de sorrir. Um sorriso frio, algo que lembrava um desejo doentio. Um vício, talvez.
            Charlie lançou um olhar urgente de reprovação em direção ao irmão.
            - Então... Se eu o fizer, ele me será grato.
            - “Fizer”? – Charlie arqueou a sobrancelha, mantendo o irmão sempre atrás dele – fizer o quê?
            - Matá-los, ora – ela falou naturalmente. Ophelia sorriu, afirmando com um gesto singelo – se ele os quer morto por invadir, é morto que os terá. Mesmo porque, tenho fome, e minha filha tem um paladar requintado. As crianças do campo em meu reino têm gosto de terra. Já vocês... Tem uma fragrância adorável de amadeirado.
            - Você... Vai nos comer? – Charlie segurou o irmão com mais força. Agora ele estava entre a rainha e Andrew.
            - Boa dedução, rapaz. Seja grato, você é a refeição mais inteligente que já escolhemos. Vamos, querida, escolha primeiro.
            A garota, que até o momento nada fizera se não observar, deixou um sorriso se desenhar em seu rosto felino. Sua língua brincou sobre os lábios, e Charlie percebeu, a tal princesa tinha fome.  

Capítulo 6 - Borboletas e Lobos

Charlie estava em seu quarto. Esvaziou sua mochila, colocando, no lugar dos livros, uma lanterna, uma chave de boca e uma garrafa de água. Estava se sentindo um pouco idiota, mas sua necessidade por respostas falava mais alto. Vestiu um moletom preto de capuz, calças surradas e um tênis de corrida.
            Abriu a porta vagarosamente, mantendo atenção e silêncio como sua prioridade. Encontrou Andrew no patamar superior da escada. O irmão mais novo estava ansioso, já de pijama, olhando para a luz do andar inferior.
            - Tudo certo? – sibilou Charlie.
            - Não – respondeu Andrew a mesmo tom.
            - Ótimo, vai lá.
            Charlie viu o irmão sumir de vista. Depois disso, apenas vozes. Para o seu azar, o pai estava na escrivaninha da sala de estar, que ficava praticamente de frente à cozinha. Ele precisaria ser rápido e criativo.
            O rapaz apurou os ouvidos, tentando escutar a conversa lá embaixo, mas nenhuma palavra era proferida. Poucos segundos depois Andrew reapareceu no pé da escada, sorrindo para o irmão.
            - O papai está dormindo – murmurou ele – é ou não é uma sorte grande?
            Charlie não respondeu. Desceu, a largos passos, a escada e alcançou o primeiro piso.
            - Onde? – perguntou ele. Olhou para a sala de estar.
            Michael dormia tranquilamente, o rosto sobre os braços, enquanto o computador emitia sua luz trêmula no meio da noite densa.
            - Volte a dormir. Se eles descobrirem, você me dá cobertura.
            Charlie virou-se para o irmão. Ele já tinha subido as escadas. “Ótimo”, pensou Charlie, “Se ao menos ele fosse obediente assim com mais frequência”.
            Finalmente ele tinha alcançado o meio da rua. Estava com a sua bicicleta em mãos, começou a pedalar silenciosamente. Qualquer ruído poderia despertar o vizinho mais bisbilhoteiro.
            Durante dois ou três minutos Charlie permaneceu sua corrida solitária, lançando olhares ao céu vez ou outra, admirando a noite de lua crescente. Sua mente começou a trabalhar, mais uma vez. Tinha uma outra história fervilhando em sua cabeça. Assim que chegasse em casa, trataria de escrever.
            Estava preso à sua nova ideia, quando a campainha de uma bicicleta soou logo atrás dele. Aturdido, Charlie freou e virou-se, procurando a fonte do som que quebrara o silêncio monótono do bairro.
            Para seu extremo pesar, era Andrew, ao seu encalço com sua velha bicicleta.
            - O que está fazendo aqui, cara? – perguntou Charlie num murmúrio irritadiço.
            - Qual é! Você acha mesmo que eu deixaria meu irmão sair sozinho, a essa hora da noite? É uma pedalada de, pelo menos, meia hora.
            - Está preocupado com o quê?
            - Eu... Me senti culpado. – confessou Andrew – quero ter certeza de que nada de mal vai te acontecer. Ou eu vou deixar de ser o filho preferido, e ser simplesmente o único filho.
            - Valeu a piada, mas agora, volte pra casa.
            - Não posso – avisou ele de antemão – quando eu estava sozinho o papai acordou, e voltou a trabalhar no editorial.
            - Maravilha! Ok, você vem comigo, mas, aconteça o que acontecer, fique sempre atrás de mim, não faça nada imprevisível e, por favor, não saia de perto de mim.
            - Ok, irmão – falou Andrew, em tom de ultimato – o negócio é o seguinte, as coisas podem funcionar como você quer. Mas, se quer que eu colabore, é melhor começar a falar. Do que você está fugindo?
            - Não estou fugindo de nada. Estou correndo atrás.
            - E o que seria?
            Charlie pesou a situação. Se o irmão estava prestes a se meter em algo de potencial perigo, era importante que ambos soubessem da situação. Ainda que Andrew pudesse interpretar a confissão como sendo uma recaída do irmão mais velho, Charlie não tinha outra opção se não contar o que havia acontecido. E, finalizando seu pensamento, não conseguia pensar em ninguém mais confiável do que Andrew.
            - Ok, chapa – ele disse, enfim – no caminho eu te conto. Mas tem que prometer que, não importa o quê, vai acreditar em mim.

            - Ok. Um armário encantado – Andrew falou, estacionando a bicicleta atrás de um arbusto na entrada da escola.
            - Não falei nada sobre magia – retorquiu Charlie em sua defesa – não gostei da forma como você disse isso.
            - Olha, cara... Eu sei que você está tentando se ajustar a todo esse... Problema, e tudo mais. Talvez devêssemos...
            - Eu sabia que não devia ter te contado.
            Charlie colocou a bicicleta debaixo da árvore, prendendo-a com a corrente. Fitou a construção à sua frente, pensando o que, raios, poderia estar acontecendo e de onde tinha tirado a ideia imbecil de contar ao irmão sua verdade absurda.
            - Não, Chars, eu não estou dizendo que você está mentindo, eu só...
            - Eu não sou louco, Andrew. Como você explicaria a carta que recebi?
            Andrew pensou em falar, mas abandonou a ideia. Acreditar no irmão pareceu um pouco menos difícil com aquele argumento, mas ratos explodindo em suco de uva e bolas de fogo saltando de armários não era o tipo de história que se acredita com tanta convicção.
            - Fique aqui fora. Eu vou entrar, e descobrir o que puder. – pediu Charlie.
            Deu o primeiro passo em direção ao portão, até perceber que Andrew estava bem ao seu lado, designado.
            - Eu não disse que não acredito. – foi a última palavra de Andrew.
            O irmão mais velho sorriu em agradecimento. Estava tudo acertado.
            Sem delongas, Charlie debruçou-se sobre as barras de ferro do portão. Subiu devagar e, com cuidado, pousou do outro lado, nos domínios da escola, evitando o menor ruído.
            - Hey, Charlie. Você sabe que escolas têm alarmes, certo?
            Charlie não pôde evitar de sorrir, um riso convencido e, até mesmo, sombrio.
            - Sabe a vantagem em ser nerd? Você freqüenta todos os lugares onde há menos movimento. Numa dessas, você descobre coisas... Interessantes.
            - Cara, eu começo a achar que não conheço meu próprio irmão.
            Andrew saltou a grade da mesma maneira. Caminharam pela entrada do pátio, sempre próximos, evitando se expor em qualquer local iluminado. Charlie conduziu o irmão todo o tempo. Caminharam sempre ao lado do muro, atentos e silenciosos.
            - Os alarmes estão nas portas e janelas. Há sensores de movimentos nos corredores, mas, sei de uma coisa...
            - Que seria...?
            - O zelador nunca liga os sensores até ir embora.
            - Peraí! Ele ainda está aqui!
            - Shh! Não seja idiota! – chiou Charlie com urgência – Sim, ele está. Ele costuma ficar aqui até amanhecer, quando troca de turno. Enfim, os sensores raramente ficam ligados. O zelador gosta de perambular pelos corredores e ouvir um pouco de música.
            - Caramba, como você sabe sobre essas coisas?
            - Fiquei preso dentro da biblioteca da escola, uma vez. Eu flagrei o cara dançando “Put your hands in the air”. É claro que ele não me viu. Encontrei um jeito de sair sem que pudessem me ver.
            - E, da mesma forma como você saiu, nós vamos entrar hoje. – arriscou o irmão.
            - Exatamente.
            Andrew sorriu. Não estava mais com medo, ou receio. Havia um brilho de empolgação em seus olhos verdes que superavam até mesmo a escuridão da noite.

            Passaram pelo jardim lateral, a quadra e, enfim, o almoxarifado. Charlie conduziu o irmão até a entrada do local.
            - É aqui – avisou o mais velho. Só precisamos entrar.
            - Ok, mas como vamos...
            Andrew abandonou sua pergunta. Apenas assistiu ao irmão abrindo a mochila e retirando uma chave de boca de quase cinqüenta centímetros. Parecia bem pesada. Antes que pudesse dizer alguma coisa ou repreender o que o irmão estava prestes a fazer, Charlie já havia acertado a fechadura.
            Um baque soou em meio ao silêncio.
            - Vão nos descobrir... – murmurou Andrew – isso não é nada inteligente.
            - Não pude pensar em nada melhor.
            Mais algumas batidas e a maçaneta foi arrancada, deixando uma fenda oval, grande o suficiente para passar uma mão menor.
            - Andrew, agora remova o tranco.
            - O que você faria se eu não tivesse aqui?
            - Teria batido com mais força.
            Andrew sacudiu a cabeça, rindo. Já há algum tempo perderam a noção do perigo a que estavam submetidos cometendo tantas infrações em uma única noite.
            A porta cedeu com um simples empurrão após a retirada do trinco. Eles entraram, sorrateiros, sempre caminhando na ponta dos pés. Charlie manteve a direção, demonstrando sempre segurança.
            Chegaram a uma escada que descia para algum lugar no subsolo.
            - O que é isso?
            - É onde jogam os corpos dos alunos depois da detenção.
            - O... que... Ah, não seja idiota!
            - Rá! – Charlie soltou uma gargalhada – precisava ver a sua cara! Mas, sério, eu não tenho ideia do que é isso. Mas venha, veja isso.
            A sala era um cubículo de cimento, muito quente e repleto de canos. Parecia ser uma rede do ducto de gás antigo. Várias cadeiras quebradas e sacos cheios de bolas furadas estavam espalhados pelo chão, decorando o já decrépito ambiente, além do mau cheiro. Os dois caminharam até uma porta de alumínio bloqueada por uma pilha de cadeiras velhas. Removeram uma a uma, até que fosse possível passar.
            A porta dava para um pequeno corredor, também decorado com encanamentos antigos e bolor fedido.
            - Aonde isso vai dar? – perguntou Andrew, pegando a lanterna na mochila do irmão e iluminando o caminho.
            - Na sala do zelador. É o único lugar onde não há alarme. Afinal, lá só tem vassouras.
            - E um dançarino.
            Continuaram caminhando até alcançarem um pequeno lance de escadas de metal. Caminharam vagarosamente, evitando o ecoar do som metálico. Finalmente chegaram de frente à porta. Charlie girou a maçaneta e a porta cedeu.
            - Me lembre de não guardar o dinheiro do meu lanche no armário, nunca mais.
            - Ok, Andrew. Agora, nada de piadinhas. O zelador pode estar em qualquer lugar.
            A sala do zelador estava mergulhada em um silêncio quase mortiço. As sombras pareciam tremular mesmo diante da falta de luz. No instante em que puseram os pés dentro daquela sala, foi como se a atmosfera a volta deles se tornasse mais pesada. A respiração estava ofegante de repente e, para espanto dos dois, estava frio, ao ponto de resfriar o hálito dos dois intrusos, convertendo o vapor em uma fumaça branca.
            - Sentiu isso? – perguntou Andrew.
            - Isso o quê?
            Andrew olhou a sua volta, temeroso.
            - Essa sensação estranha. É pesado...
            - Não podemos parar, falta pouco.
            Caminharam para fora da sala. A porta se abriu com um rangido e, sem demora, deram de cara com o corredor escuro. A sombra havia engolido cada centímetro do lugar.
            O corredor estava vazio, exceto pelas sombras que, no momento, eram tão humanas quanto eles. Uma rajada de vento advinha do extremo do corredor, dando o aspecto de uma garganta esbaforindo um hálito gelado e fedido.
            - Nunca vi essa parte da escola – comentou Andrew tentando parecer casual. Sua voz, porém, entregou sua apreensão.
            - Sabe de uma coisa? – Charlie fitou o irmão de forma sombria – eu também não.
            Andrew sentiu sua pele empalidecer, tentou dizer alguma coisa, mas sua voz se perdeu. Charlie, assistindo à expressão lívida do irmão, não conseguiu segurar o riso, precisou levar a mão à boca para abafá-lo.
            - Cara, você está total com medo – Charlie conseguiu engolir o riso – vamos, o meu armário está no primeiro corredor à direita.
            Os dois atravessaram o corredor em silêncio. Vez ou outra lançavam um olhar cauteloso para trás. Charlie voltou a sentir aquela estranha sensação de estar sendo observado. Andrew aproximou-se mais do irmão, segurando-o pela manga do moletom.
            - Coloque o capuz – disse ele – ou podem nos reconhecer.
            - Bem pensado. Os dois se cobriram com o capuz e mantiveram o passo. Quando, finalmente, viraram à direita, pararam, estáticos, diante do cenário mórbido.
            Os armários estavam arrebentados, vários livros estavam aos frangalhos, decorando o chão sujo de cinzas de papeis queimados. Apenas o armário 207 parecia inteiro, exceto pela porta, amassada e chamuscada, como se exposta ao fogo. Os dois irmãos trocaram olhares apreensivos.
            - Eles precisam dispensar esse zelador – comentou Andrew, ainda que o medo estivesse presente em seus olhos vidrados.
            A rajada de ar, o “hálito do corredor”, atiçava os papeis e as cinzas que cobriam o chão, fazendo-os levantar vôo e pairar como folhas de árvore outonal. O lugar estava abandonado.
            - O zelador... – Charlie virou-se para o irmão – onde ele está?
            - Dançando? – arriscou o irmão.
            Charlie estava prestes e repreender o irmão quando, subitamente, um grito de pavor e desespero soou como uma sirene, ecoando pelos corredores. Parecia extremamente similar ao grito de um homem.
            - Céus! Que merda é essa? – Andrew chiou, atônito. Olhou para trás, em busca da origem do corredor.
            Charlie começou a puxá-lo em direção ao armário.
            - Foi o zelador – respondeu Charlie, inexpressivo.
            - Isso é uma piada, certo?
            O mais velho o encarou:
            - Eu gostaria que fosse.
            Pararam de frente ao armário. Os livros estavam intactos, organizados da forma como havia deixado naquela mesma manhã.
            - Cara, temos que chamar a polícia! - Andrew sibilou – podem ser bandidos.
            - Alguma coisa me diz que não são bandidos.
            A escuridão parecia ter devorado outra fração do corredor. Uma sombra anormal, quase viva, encobria as paredes e as portas, removendo-as do campo de visão dos dois garotos. Ou, talvez, fossem apenas suas mentes apavoradas pregando peças demais.
            - Eu só preciso de um minuto – pediu Charlie.
            Ele começou a derrubar suas coisas no chão, esvaziando o armário. Encostou a ponta dos dedos no fundo de metal e começou a pressioná-la, como se procurasse algo, ainda que ele não soubesse o que poderia ser.
            - Eles fizeram alguma coisa com o meu armário... – comentou Charlie, absorto em sua busca – espera, tem alguma coisa... Esquece, é só suco de uva.
            Então ele se calou. Pela primeira vez ele havia se dado conta. O que foram todos aqueles acontecimentos... Havia uma série de fenômenos que, de repente, pareciam fazer sentido. Sua história.
            O caderno estava no chão, ao lado das folhas arrancadas que havia amassado no dia anterior. Charlie recolheu e, ansioso, começou a ler trechos selecionados, recolocando as páginas em seus respectivos lugares. “Ratos púrpuras”, “Dragão”, “Olhos cintilantes”, “Bolas de fogo... Construções em chamas”. Charlie leu o último trecho em branco, aquele que deixara por fazer.
            “O primeiro grito ecoou por toda a...”
            - Escola... – murmurou. Seu tom de voz rasgou o silêncio, como um agouro.
            - Pela sua cara, descobriu o que queria. Vamos embora?
            Charlie só conseguia pensar naquele trecho. “O primeiro grito...”.
            - O zelador! – o irmão mais velho olhou para o corredor, origem do grito – temos que encontrá-lo! Ele está em perigo!
            - E nós não? – retorquiu Andrew.
            Charlie não deu ouvidos ao irmão. Começou a caminhar a largos passos em direção ao corredor. Andrew estava logo atrás. Eles sabiam que não se tratava mais de uma simples invasão.

            Charlie focou a lanterna em direção à escuridão. Talvez fosse apenas uma ilusão de ótica motivada pelo medo. Mas as sombras pareciam se esquivar da luz, rastejando para os cantos penumbrosos.
            Seguiram adiante, Andrew sempre vigiando a retaguarda. Qualquer movimento, e correriam como loucos, era o que haviam combinado. As sombras continuavam dar a impressão de rastejar para longe da luz.
            Estavam próximos à sala 5-B quando ouviram um sussurro, misturado a uma respiração fraca e forçada. Mais olhares trocados, estavam pesando as escolhas. Charlie aproximou-se da porta e pregou a orelha na superfície de vidro fosco, tentando ouvir alguma coisa...
            BUM!
            Alguma coisa bateu na porta, obrigando Charlie a se afastar. O vidro trincou de cima a baixo, formando uma linha curva que se propagou vagarosamente. Outra batida e eles puderam ver. Do outro lado, uma mão estava apoiada sobre o vidro. Uma mão grande, talvez de um homem.
            - O zelador! – Charlie percebeu – deve ser ele.
            - Não, Charlie...
            Tarde demais. Charlie abriu a porta, pronto a dar apoio ao homem. Mas o que viram não era, nem de longe, um homem. Pelo menos não o que costumava ser.
            Charlie ficou lívido, encarando a figura no chão, com as mãos magras e ossudas estendidas em sua direção. O rosto do homem havia apenas um rastro distante de humanidade. Seus olhos estavam protuberantes e a língua pendia para o lado, fora da boca. Os cabelos estavam ralos e escassos. Parecia estar em decomposição.
            - Mas que mer... – Andrew deixou sua voz falhar.
Acabara de ser interrompido por um ruído na outra sala, a duas portas de distância. Era o laboratório do colégio.
            Charlie, ainda de frente ao zelador, ou pelo menos ao que restou dele, ainda estava perplexo, dando pouca atenção ao som.
            - Hei, você... Está bem? – murmurou Charlie, abaixando-se lentamente.
            O homem gemia baixinho, como se chorasse por dentro. Seus olhos de aspecto triste estavam fixos ao olhar de Charlie. O garoto começou a se aproximar do homem. Esticou a mão um pouco, tentando alcançar a do zelador.
            _ GRRYAH!
            O grito do zelador se converteu em um urro agudo e medonho. Sua expressão cadavérica estava, agora, raivosa, e salivava enlouquecidamente.
            O Zelador segurou Charlie pelo pulso, com uma força e fúria incompatíveis ao seu aspecto decrépito. Charlie tentou se afastar, mas a coisa o segurou com as duas mãos. O rapaz gritava em desespero, enquanto tentava repelir a criatura com os pés.
            - Solta o meu irmão, meleca! – Andrew saltou sobre o zelador, desferindo-lhe um chute certeiro no rosto.
            O pescoço girou duas vezes, e a cabeça pendeu, inerte. A coisa soltou Charlie. Estava quieta, silenciosa, apenas sua expressão furiosa permanecia. Nada mais.
            - O que... O que tá acontecendo...? – Charlie murmurou para si mesmo, olhando de um lado para o outro.
            Andrew ajudou o irmão a se levantar. Os dois recuperaram o ar, engolfando uma boa “golada” de ar, enquanto tentavam manter os nervos controlados. Finalmente, Charlie virou-se para o corredor.
            - Tem alguma coisa no laboratório... – sussurrou Andrew – ouvi alguma coisa se mexendo lá dentro.
            - Pode ser a coisa que está fazendo isso...
            - Então vamos para o outro lado – concluiu o irmão.
            - Não.
            A resposta de Charlie foi definitiva. Ele não sabia explicar, mas a sensação de pertencer àquele lugar era envolvente. Era como se fosse, em parte, responsável pelos acontecimentos. O que acontecera ao zelador...
            - É a minha história, Andrew... – falou, enfim, o irmão mais velho – minha história...
            - Do que você está falando, Chars? Que história?
            - O “primeiro grito”, os ratos correndo, os... Olhos cintilantes de esmeralda... A bola de fogo...
            - Estamos prestes a morrer e você fica falando sandices! Você é mesmo louco!
            Charlie começou a correr em direção ao laboratório. Queria tirar a prova. Seria mesmo verdade? Era improvável que sua história estivesse, realmente, acontecendo, mas tudo o levava a crer.
            Andrew veio atrás dele, tentando impedi-lo, mas Charlie estava decidido.
            O irmão mais velho levou a mão à maçaneta e, levou o dedo à ponta do nariz, pedindo silêncio ao irmão.
            - Andy... Se eu disser “corre”, você corre. Ok?
            Ele só teve forças para afirmar com a cabeça.
            Virou a maçaneta. Abriu a porta. A claridade do poste entrava pelas janelas, iluminando parcialmente o laboratório. O cômodo estava revirado. Jarros quebrados, migalhas de bichos dissecados. Uma cobra pendia no teto, girando no ventilador. A mesa estava virada, coberta pelo que parecia ser um manto viscoso.
            Pensaram em entrar, mas foram impedidos. Um rosnado, de detrás da mesa, deu o aviso. O manto se mexeu lentamente, deslizando sobre a mesa e abrindo como um enorme guarda-chuva.
            - Lanterna – pediu Charlie.
            O rapaz iluminou o que parecia ser o manto viscoso. Estava enganado. Parecia ser uma fibra, mas era vermelho intenso, como o tom do próprio rubi. A comparação causou-lhe calafrios. Ele temia o que poderia ser.
            A luz pareceu chamar a atenção da criatura atrás da mesa. Ela esticou o pescoço, na direção dos jovens. Por um momento, todo o ar da terra parecia ter acabo, e respirar era impossível.
            A enorme cabeça triangular repleta de escamas escarlate olhava ameaçadoramente, seus dois olhos compridos e verdes brilhando. A fenda dos olhos estreitou-se como se focasse os dois jovens. O guarda-chuva gigante se abriu, revelando sua identidade: uma asa.
            - DRAGÃO! – berrou Andrew.
            Foi a gota d’água. O animal investiu contra a mesa arrebentando-a em centenas de estilhaços de madeira, enquanto seu rosnar furioso arruinava todo o empenho dos jovens em manter o silêncio.
            - CORRE! – Charlie virou-se, deixando a lanterna cair, puxando o irmão pelo braço com violência.
            Os dois iniciaram a corrida para salvar suas vidas. O estrondo logo atrás deles indicou a saída do animal. O segundo rosnado foi ainda mais decidido, fazendo as janelas estremecerem. Charlie virou-se e vislumbrou por uma fração de segundo o animal erguendo o rabo e desdobrando as asas. Como na sua história.
            - Ele está armando o bote! – avisou Charlie.
            O dragão começou a correr. Com fúria, as patas batiam no piso, provocando rachaduras, derrubando armários com a cauda e projetando a cabeça contra os obstáculos, bebedouros e lixeiras.
            Os dois irmãos correram pelo largo corredor quando sentiram uma rajada quente logo atrás deles. Apenas tiveram tempo de se abaixarem, abrindo caminho para a enorme bola de fogo expelida pelo dragão em fúria, que rasgou o ar em um vôo rasante, queimando os papeis que eram carregados pelo “hálito” do corredor. Sua luz dourada intensa expulsou a escuridão densa que, como se rastejasse, fugiu. Charlie conseguiu ver com nitidez, as sombras se escondendo dentro dos armários e atrás das portas, evitando a luminosidade arrebatadora. Era certo, elas eram vivas e, por mais absurdo que pudesse ser, havia algo de muito humano nelas.
            O caminho estava visível agora e, com sorte, conseguiriam fugir. Charlie avistou a curva à direita a poucos metros de distância, o próximo corredor que os levaria ao refeitório. Sentindo a aproximação do dragão, não restava outra alternativa.
            - Andrew! Vamos nos separar!
            - Como é?
            - Vire à direita! É o refeitório!
            - Eu não vou te deixar!
            - Ele ta chegando mais perto! Agora, Andrew! AGORA!
            Andrew hesitou. Por um breve momento, apenas. Charlie percebeu que o irmão iria titubear. Andrew compreendeu que, fazendo isso, estaria fora do campo de visão do animal, que iria perseguir apenas seu irmão mais velho. Charlie tomou uma rápida decisão. Correu na direção de Andrew e, com um empurrão, jogou-o para a direita, caindo no outro corredor. Charlie manteve-se em linha reta, olhou para trás tempo o suficiente para certificar-se de que seu plano funcionara. Como esperado, o dragão polonês ainda estava ao seu encalço.
            Andrew reapareceu no corredor, aos berros, esbravejando contra o irmão pelo ato heróico e estúpido.
            “Volte pra casa, irmãozinho”, pensou Charlie consigo mesmo, aliviado por saber que, por hora, o irmão estava em segurança.
            Ainda correndo, Charlie estava quase no fim do corredor, onde se podia ver, do outro lado da vidraça, o pátio de entrada. Charlie encarou a enorme porta de vidro e aço inoxidável à sua frente. Era uma porta pesada, e havia uma grande chance de não conseguir atravessá-la. Se falhasse, seria o seu fim, ficaria detido com a cara amarrotada na superfície de vidro, enquanto a enorme fera o queimaria vivo.
            Charlie fechou os punhos, erguendo-os a frente do rosto, enquanto suas pernas corriam em direção ao fim da linha. Cerrou os olhos e deixou seu corpo ser levado pelo impulso. Saltou. Em direção à porta. Apenas torcendo para que a vidraça não fosse tão sólida quanto parecia, e que ela se estilhaçasse como os vidros bem comportados fazem.
            Assim que seus pés de desprenderam do chão, precipitando-se contra a porta, algo aconteceu. Ele não havia se chocado com vidro. Ao invés disso, sentiu seu corpo atravessar sem problema.
            Abriu os olhos, surpreso. Ainda no ar, como se tudo estivesse em câmera lenta, conseguiu visualizar borrões escarlate pairando a sua volta, enquanto o som metálico chacoalhava a sua volta.
            Borboletas. Centenas, talvez milhares delas. Não havia mais nenhuma porta. Como antes acontecera com seu suco de uva.
            Seu corpo pousou sobre a grama com estrondo, Charlie caiu de bruços, sentindo seus braços arderem com o impacto.
            Ao olhar pra trás, a nuvem de borboletas vermelhas havia se projetado contra o dragão, turvando a visão do animal e desviando a atenção. O garoto se arrastou ferozmente pela grama, o mais longe que pôde, enquanto encara, atônito, o duelo entre o turbilhão de borboletas e o dragão.
            -Berbellia prensus! – uma voz feminina ecoou no meio da noite, vindo de algum lugar.
            A ordem de origem misteriosa foi ouvida. As borboletas, ante a palavra proferida, se reagruparam à frente do dragão e, com as asas abertas, começaram a formar um ciclone de asas barulhentas. Pareciam ser feitas de metal.
            Elas formaram uma fila única, envolvendo cauda e pescoço da criatura feroz. Como por mágica, as asas pequenas e frágeis de cada uma delas se uniu, formando uma corrente. Seus minúsculos corpinhos estremeceram e, inesperadamente, o animal se sentiu imóvel. Por mais que se contorcesse e tentasse escapar, o dragão parecia estar acorrentado.
            Foi quando Charlie percebeu. Não eram borboletas comuns. Suas asas chacoalhavam emitindo um brilho metálico.
            - Contricto! – a voz ressoou novamente.
            As borboletas se contraíram, sufocando o animal contra o solo. O dragão, apesar da tentativa de imobilizá-lo, ainda era incrivelmente forte. Suas enormes patas batiam contra o chão, enquanto a extremidade da corrente de borboletas tentava alcançar a árvore mais próxima. Estavam com algum sucesso, o animal, mesmo inquieto, estava imobilizado.
            Charlie estava, num minuto, encarando o animal lutando contra pequenos insetos supostamente inofensivos e, no minuto seguinte, um vulto havia se projetado à sua frente. Era impossível ver o rosto, pois todo o corpo estava coberto por uma capa preta. Ainda assim era possível diferenciar a silhueta feminina. Era a dona da voz que ordenara as borboletas a salvá-lo.
            Ela ergueu a mão aberta em direção ao animal e, em seguida, fez um gesto brusco, fechando os dedos no punho. Imediatamente, as borboletas comprimiram ainda mais, sufocando o dragão.
            - Não vou agüentar muito tempo! – gritou a voz – preciso de ajuda!
            - Eu? Ajudar? – Charlie, por um momento, acreditou ser ele a pessoa com quem a garota misteriosa falava.
            Mas estava errado. Subitamente, logo atrás dele, cinco enormes lobos saltaram com elegância. Charlie pôde visualizar muito bem cada um deles. Pelagem negra de um brilho azul quase místico, olhos muito amarelos e dentes exibidos em um sorriso carnívoro.
            Os cinco lobos correram em direção ao dragão.
            - Imobile! – gritou uma voz, grossa e masculina, ao fundo.
            Os lobos cravaram os dentes no animal. Cada um em um membro (pernas e cauda), enterrando as patas no chão e garantindo a imobilização do dragão.
            - Petracus! – a voz repetiu.
            E algo mais aconteceu. As feras lupinas se converteram em cinco genuínas estátuas pesadas de pedra, em forma de lobo. O que antes eram pelos, agora era uma densa pele de concreto maciço e de aparência indestrutível.
            - Bom trabalho, garotos!
            Um segundo vulto surgiu, maior, também coberto por uma capa vermelha. Era o dono dos lobos, pensou o garoto, ainda perplexo, encarando as feras em sua batalha surreal.
            Charlie levantou-se, certificando-se de estar bem coberto pelo capuz. Estava pronto para perguntar quem eram eles, quando aconteceu o que menos esperava.
            Um grito insuportável e muito familiar ecoou no meio da noite, abafando até mesmo os urros furiosos do dragão.
            - Andrew! – exclamou Charlie para si mesmo.
            Já não se importava mais com lobos, borboletas ou heróis misteriosos. Seu irmão estava em perigo. Naquela mesma noite, um grito muito familiar tinha significado o fim para o zelador da escola.
            Aproveitando a chance do dragão contido e seus dois defensores ocupados, correu em busca do irmão. Foi em direção aos fundos do colégio, sem dar a devida atenção às advertências da garota, que notara o movimento do rapaz. O objetivo de Charlie, agora, era garantir que Andrew estivesse seguro.
            Saltou sobre o baixo muro coberto de heras, onde costumavam depositar o lixo. Completamente desatento ao lugar onde pisava, acabou escorregando em uma embalagem de suco artificial, mas logo se levantou e pôs-se novamente a correr. Não havia percebido as incontestáveis lágrimas que brotavam involuntariamente de seus olhos. “esteja bem, Andrew... Esteja vivo, seu idiota!”.
            Ele rompeu a porta lateral com dois pontapés furioso. Não deu a menor importância ao alarme que soava raivosamente, o garoto apenas saiu em disparada pelo corredor. A toda a volta, os sinais de devastação eram notáveis, e mesmo as sombras se alvoroçavam. Avistou o corredor onde empurrara seu irmão.
            Cruzou a esquerda, seus olhos, marejados, buscavam o menor indício do irmão. A porta que dava ao refeitório estava aberta, só poderia ser ali. Entrou, atordoado.
            A poucos metros de distância Charlie avistou um vulto trêmulo, atrás de uma mesa aos fundos do refeitório. Num ato impensado, onde apenas o desespero em encontrar o irmão são vinha à sua mente, Charlie correu em direção ao vulto, só poderia ser Andrew.
            Ao se aproximar, pôde constatar. Era, de fato, seu irmão Andrew.
            O irmão mais novo girava a lanterna em todas as direções iluminando teto e paredes, enquanto as sombras vivas se esquivavam, impotentes ante a luz. Naquele momento, a lanterna era nada, senão uma arma.
            Charlie abaixou-se para ajudar o irmão, quando fitou, pasmo, o braço direito de Andrew. Seu rosto empalideceu diante da cena, enquanto o garoto mais novo suava, pressionando o pulso finíssimo, tentando afastar uma dor que vinha não sabia de onde.
            O braço direito fora reduzido a uma pele cinzenta e viscosa cobrindo um osso fino, as mãos eram grandes e os dedos, ainda mais magros, tinham assumido o dobro do comprimento original. O aspecto era cadavérico, como acontecera ao zelador. Andrew estava debruçado sobre os próprios joelhos, tentando afogar um choro de pura agonia.
            - As sombras, Charlie... Foram as sombras... Se eu não tivesse a lanterna...
            Charlie abraçou o irmão, apertando-o contra seu peito. Queria poder partilhar da dor e da aflição, tirar do irmão mais novo um pouco de toda aquela angústia provocada pela situação que, por sinal, fora criada pelo próprio Charlie.
            O rapaz estava prestes a se derramar em lágrimas e desculpas, quando um barulho no corredor chamou sua atenção. Pareciam passos, indicando a aproximação de alguém.
            Charlie segurou Andrew pelo braço saudável e o puxou até o balcão, escondendo atrás das grandes mesas onde eram servidas as refeições. Ficaram em completo silêncio. Andrew precisou morder a manga do próprio moletom para abafar os soluços. Os passos invadiram o refeitório.
            - Algum sinal dele? – perguntou a voz masculina.
            Houve um silêncio de dois minutos.
            - Não, Ernie. Nada – a voz era estranhamente familiar – Mal consegui ver seu rosto.
            - Ótimo. Vamos embora, então. Venha, Helena, meu pai saberá o que fazer com o dragão.
            Charlie ficou paralisado, enquanto os passos ecoavam para fora do recinto. O pavor, a euforia, a aflição do irmão, tudo isso se misturava àquela revelação atordoante. Ao passo em que o movimento dos dois heróis se distanciavam como um eco, Charlie confrontava os fatos, loucos demais para serem verdades: aqueles não eram outras pessoas, senão Ernesto e Helena. Os auxiliares de biblioteca.
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos