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Capítulo 2 - Cabelo Rubi

A coroa da bicicleta rangia levemente enquanto os pedais eram pressionados por pés ligeiros. Charlie corria pela rua, radiante, imaginando uma bela música em sua mente, um acompanhamento de violino, flautas e algo com cordas, enquanto os olhares desligados vagavam apressados pela calçada.
Manhattan era o tipo de cidade que proporcionava todo o tipo de distração. Mas para um garoto incomum, ela era um berço para criações. Depois de uma temporada em Nova Jersey, a família Logan decidira voltar à cidade natal dos filhos.
O mais velho, depois de muitos transtornos com o seu impulso desenfreado em criar mentiras atrás de mentiras, precisou passar algum tempo em uma cidade menor, onde fazia consultas semanais com um psiquiatra, o único que se mostrou competente em relação ao caso de Charlie. Era difícil lidar com o menino introspectivo e de raros sorrisos, mas os pais insistiram.
Naquele momento, Charlie não era mais visto como uma criança que se jogava nos ombros e a obrigava a se deitar num divã. As coisas estavam mudando, e transformações ainda maiores eram promessas na vida do jovem rapaz.

Charlie deslizava sobre o asfalto morno, enquanto imaginava estar em um campo de centeio, onde o vento atiçava o feno seco e os camponeses colhiam seus produtos da terra. As construções se transformavam em casa de palha, capelas e catedrais da época medieval. Os dois policiais debaixo do semáforo eram convertidos em cavaleiros da corte. Sua mente, nessa época, já estava bem mais apurada. Não era mais o garotinho de seis anos que criava personagens de fábulas infantis. Já com seus quinze anos, Charlie projetava verdadeiras produções cinematográficas em sua mente. Bem ali, na avenida principal, o asfalto e os grandes automóveis davam espaço ao campo devastado pela queimada, onde a cavalaria do grande rei Theodore travava um confronto mortal contra a imensa tropa de Gregorius, o rei adversário. Ele precisou pedalar pelo meio-fio, tentando fugir das lanças empapadas de veneno das serpentes mais venenosas do deserto.
            Estacionou próximo a uma banca de jornais, ou o lugar onde os pequenos camponeses vendiam pergaminhos e frutas secas. Charlie retirou do bolso um pequeno bloquinho, anotou algumas de suas idéias e, mordendo a ponta do lápis, lançou um olhar panorâmico a sua volta. Um cão farejava o hidrante com interesse típico.
            - Um dragão Polonês – pensou ele – um dos mais velozes da história.  
            Charlie sorriu para si mesmo. Conseguia trabalhar suas idéias perfeitamente, ainda que o som do barulho de sirenes e buzinas de automóveis conduzidos por motoristas furiosos reinasse em absoluto.
            Guardou novamente o bloco no bolso e retomou sua excursão pela cidade. Tinha um destino em mente, mas não queria perder nenhuma daquelas inspirações, que brotavam como erva daninha. Cada esquina, cada cheiro ou rosto curioso instigavam nele uma trama diferente.
            Após algumas pedaladas Charlie chegou à Biblioteca Nacional, uma imensa construção de tijolos vermelhos e janelas escuras, uma porta de madeira maciça e molduras de ferro soldado. A escadaria tinha dezenove degraus acinzentados, desbotado pelo tempo, tornando impossível imaginar a cor original. No canto da calçada havia uma bicicletaria, onde Charlies prendeu sua bicicleta. Subiu as escadas, ansioso. Em Nova Jersey não havia uma biblioteca tão grande como aquela. Era uma espécie de astro pop para o rapaz de poucos amigos.
            Ele entrou, sentindo uma pontada de ansiedade. A enorme construção tinha um teto abobadado, onde mais dois outros andares estavam bem instalados, suas instantes guarneciam livros de todos os tipos, o cheiro de mofo e fita adesiva se misturavam no ar, dando ao ambiente uma falsa impressão de abandono. O silêncio era ainda mais chamativo. As grossas paredes abafavam o som externo e as poucas pessoas acomodadas nas mesas rústicas de madeira pareciam absortas, ainda que outros estivessem debruçados sobre um livro grande, servindo de travesseiro.
            Charlie avistou o balcão logo a frente. Havia um senhor de meia idade, provavelmente cinqüenta e poucos anos, com os cabelos grisalhos muito ralos, o nariz pontudo e um par de óculos minúsculos sobre a ponte do nariz. Os olhos, no entanto, eram vivos e azuis, espertos como os de uma águia. O velho não desprendeu a atenção de Charlie em nenhum momento.
            O rapaz caminhou até o balcão, apoiando os cotovelos sobre a base de madeira.
            - Bom dia – ele murmurou. Seu sorriso estava atenuado, agora – gostaria de fazer meu cadastro.
            O velho o fitou por dois segundos, fazendo uma breve análise. Ajeitou o óculos e mexeu em uma ficha. Ficou surpresa em saber que, num lugar como aquele, ainda não usavam um sistema eletrônico como o computador para fazer o controle de cadastrados.
            - Tem seus documentos em mãos? – perguntou o homem. Sua voz era seca, soando quase como um sibilo. Charlie concluiu que devia ser em função do cigarro. Ainda havia uma ponta em brasa sobre o cinzeiro.
            - Um momento... – Charlie enfiou as mãos no bolso, retirando seus documentos e um comprovante de moradia.
            O bibliotecário recebeu os documentos e estudou-os por uma fração de minuto. Preencheu um papel, fez perguntas corriqueiras e, por fim, entregou um envelope para assinatura. Charlie logo percebeu que aquele homem deveria ser muito desagradável.
            - Empréstimos de livros têm o período de dez dias, e apenas sete para os livros didáticos e universitários. O atraso implica na multa de cinco dólares.
            - Cinco dólares? – Charlie o fitou, surpreso. Era um preço bem alto.
            - Sua responsabilidade é negociável, rapaz? – respondeu o homem rapidamente, com rispidez – Acho que não. Deveria ficar surpreso pela quantidade de livros que nunca mais voltam.
            Antes mesmo que Charlie pudesse sequer cogitar uma resposta polida, foi interrompido:
            - Tio Munphus... – uma voz feminina soou logo atrás de Charlie.
            O garoto se virou para descobrir a fonte da voz. Tudo o que viu foi uma pilha de livros de quase um metro em sua direção. Ele se afastou, abrindo espaço entre os livros e o velho.
            Uma garota depositou a pilha sobre o balcão, arfando com o esforço. Nesse momento Charlie pôde ver o rosto.
            Em nenhum momento, em nenhuma de suas histórias mais empolgantes sobre princesas e dragões, nenhuma donzela tinha sido tão bem desenhada por sua mente peralta quanto aquela garota fora desenhada pelas mãos de Deus.
            Era ruiva, mas não um ruivo qualquer. Havia um tom de vermelho diferente, algo como o rubi, suas leves ondulações e cachos caiam sobre a pele nua dos ombros. Os olhos eram de um verde tão vivo que pareciam possuir um brilho próprio, ou talvez fosse apenas o impacto daquele olhar sobre o garoto que, definitivamente, não tinha talento com as garotas. Os lábios eram rosados, assim como as bochechas. Um rosto triangular, e uma covinha do lado direito.
            - Tio Munphus... Esses livros estavam fora da ordem. Sinceramente, não tenho idéia do lugar onde estavam.
            - Essas crianças... – o bibliotecário encarou diretamente o rapaz recém-chegado – a prole de hoje é completamente desprovida de qualquer educação ou responsabilidade. Removem os livros e não se dão ao trabalho de colocarem no lugar certo.
            Charlie não deu a menor atenção ao insulto implícito. Estava distraído, perdido no sorriso simpático mais belo que já vira.
            A garota notou ser observada, mas limitou-se a um simples aceno em direção ao rapaz.
            - Helena, leve esses dois para a prateleira do segundo piso, perto da mesa de sucupira. Do resto eu me encarrego.
            Ela acenou positivamente com a cabeça, retirando-se em seguida. Charlie seguiu os passos graciosos da jovem, subindo a escada em espiral e desaparecendo de vista. O pigarreio do velho o despertou, fazendo-o corar.
            - Alguns dizem que olhar não arranca pedaço, mas acho melhor não tentar a sorte, menino – falou o velho – escolha o seu livro.
            “Velho miserável”, pensou Charlie consigo mesmo. Deu as costas ao homem, sem discutir. Não iria permitir que um velho recalcado acabasse com a sua expectativa em relação àquele lugar.
            Charlie caminhou em direção à primeira prateleira de livros que avistou. Uma enorme coleção de poesias inglesas estava disposta em ordem alfabética. Ele puxou o primeiro livro, deslizou os dedos sobre a capa. Fez uma careta. Não era muito de poesia, ele as considerava desinteressantes. Colocou o livro de volta.
            A dois metros dali, um livro de capa grossa chamou-lhe a atenção. Logo na terceira prateleira um livro de capa cinza com a palavra “Tuareg” estava impressa em letras alto-relevo. Era uma edição de 1994. De uma forma curiosa, o interesse de Charlie foi despertado. Ele achava graça e, intimamente, gostava de acreditar que eram os livros que o escolhiam, e não o contrário. Em alguns momentos, ele fica assustado em ver o quão verdade isso poderia ser.
            Puxou o livro, seus olhos fixos na capa. Ouviu um estrondo cortando cruelmente o silêncio, obrigando Charlie a percorrer o grande salão em busca da fonte do som repentino. Era apenas tio Munphus que, arrastando os pés cansados, abriu com dificuldade uma porta imensa e pesada, feita de madeira. Parecia ser maciça, com barras de ferro e parafusos com cabeças do tamanho de uma bola de golfe. Uma placa escrito “Apenas Funcionários Autorizados” estava fixa sobre um prego minúsculo quase imperceptível perto de tanta monstruosidade de porta. Antes de entrar, Munphus lançou um olhar repreensivo em direção ao garoto, e fechou a porta. Definitivamente, o velho não tinha gostado de Charlie e, por mais que tentasse negar, o sentimento era mútuo.
            Com o livro em mãos, Charlie subiu as escadas, no segundo andar, onde a maioria das mesas estavam desocupadas. Sentou-se na maior delas, a de sucupira mencionada pelo bibliotecário ranzinza. Claro, isso era uma manobra para que, assim, ele pudesse se aproximar da garota.
            Charlie abriu o livro e, já estava prestes a ler, quando foi impedido pelos passos que se aproximavam. Seu coração disparou. Era ela. Helena.
            A garota carregava dois livros no colo. Um deles foi colocado sobre a mesa, a dois assentos de distância de Charlie, o outro foi colocado sobre a prateleira mais próxima. Como da primeira vez, Helena notou estar sendo observada pelo jovem desconhecido. Ela o encarou, arqueando as sobrancelhas com ar duvidoso.
            - Algum problema? – Helena perguntou, tentando parecer simpática, o que não deu muito certo.
            - Eu? O que... Não, não. Estou bem aqui com o... Tuareg.
            Ela se virou, voltando sua atenção ao trabalho, enquanto Charlie tentava suprimir a vontade de espancar a si mesmo. Em vez disso, limitou-se a uma careta e um tapa na bochecha, sentindo-se idiota. “Estou bem aqui como o Tuareg... Eu sou mesmo um panaca”.
            Charlie não merecia ser culpado por isso. Seus quinze anos proporcionaram ao rapaz experiências diversas, com muitos livros, terapias e mentiras, mas, com certeza, aquilo era uma experiência totalmente nova. Nunca, em toda a sua vida, tinha tentado cantar uma garota. E, na sua primeira oportunidade, estava falhando miseravelmente.
            Seu fracasso, no entanto, foi extremamente útil. De costas para Charlie, Helena permitia que seus cabelos balançassem de um lado para o outro, como se serpenteassem em suas costas, enquanto a garota se encarregava de organizar os livros. Naquele momento, Charlie notou algo naquele movimento bastante curioso: os cachos davam a impressão de uma cauda enrolada, enquanto a sombra projetada no cabelo parecia uma linha dorsal. A idéia veio em seguida.
            Enfiou a mão no bolso, puxou o seu caderno e, ignorando o livro que nem começara a ler, começou a escrever o resultado de sua inspiração.
           
“Eu não estava com medo. Talvez fosse apenas receio. Aquela enorme criatura de escamas cor de rubi me encarava com seu par de olhos verdes como a esmeralda mais pura, era quase possível ver meu próprio reflexo em sua íris em forma de fenda. O focinho era comprido, sua linha dorsal era coberta por uma linha lisa de fios escarlate. Patas gigantescas e uma cauda arqueada dava ao dragão um aspecto ainda mais assustador. Mas, de uma forma estranha, eu não conseguia sentir medo.
Embora fosse um nato devorador de rebanhos, cervos e homens, era impossível vê-lo como um predador. Havia tanta graça e imponência. Era como encarar um imperador, cuja integridade e altruísmo eram transmitidos ao simples olhar. Era um belo dragão polonês.
Suas asas, antes dobradas, se abriram. Eu conhecia aquele movimento. Era ataque. A julgar a forma como o campo estava, completamente, deserto, eu era a sua única presa. Pensei em gritar, mas, seria tolice, nenhuma súplica seria ouvida pelos moradores do vilarejo. Tão logo desisti, voltei minha atenção ao imponente dragão. Ele alçou vôo, em minha direção.”

Ficou cinco, talvez dez minutos, escrevendo, quando, inesperadamente, sentiu uma respiração sobre sua cabeça. Charlie se virou de sobressalto. Estivera tão absorto em sua história que acabou não percebendo a aproximação de Helena.
- Oh, desculpe! – ela pediu, abanando as mãos, nitidamente constrangida – não queria atrapalhar... Eu só...
- Tudo, tudo bem. – Charlie tentou sorrir, de todas as possíveis formas, mas acabou fazendo uma careta idiota – Eu só estou escrevendo um pouco.
- Ah, legal... E, o que seria? – ela sorriu, ainda constrangida, como quem diz “foi mal bisbilhotar”.
- Só uma história, nada de mais.
Helena fitou o caderno, com mais interesse. Esticou o pescoço para ver melhor o que estava escrito, mas ainda estava distante para enxergar a letra miúda, ainda que fosse uma caligrafia impecável.
Charlie não esperou nem mais um segundo. Pegou o caderno e estendeu-o em direção à garota, compreendendo que ela realmente queria ler.
- Tudo bem pra você? – Helena perguntou antes de ler.
- Claro, não é como se você fosse me plagiar – ele deu uma risadinha, mas, desejou, mais uma vez, bater com a cabeça na mesa sólida. Fez uma anotação mental, “nunca flerte, seu imbecil!”.
            Enquanto Helena lia, Charlie tentava não ver as expressões da garota, para não se decepcionar de mais. Esperava receber uma crítica mediana e, depois disso, ela iria embora, sem mais.
            Não foi o que aconteceu. Helena, terminando a leitura, segurou o caderno envolvido nos braços como se fosse de pelúcia. Ela piscou uma ou duas vezes antes de começar a falar:
            - O quão bem você escreve! Quer dizer, não tem nenhum erro aparente, e a descrição é belíssima. Sabe, eu até me identifiquei com o dragão polonês.
            Charlie suspirou, aliviado. Ele ainda não tinha se dado conta, mas era a primeira vez que deixava alguém ler suas coisas.
            - Na verdade essa é a continuação de uma história que ando escrevendo.
            - Tem mais capítulos? – ela perguntou, radiante.
            - Na verdade, esse é o nono. – ele deu de ombros.
            - Quero ler! – ela pediu. Entregou o livro ao garoto, rindo meio sem-graça – isso é, se você deixar. Não quero parecer indiscreta.
            - Não, não parece! – ele se adiantou, falando rápido demais – seria... Ah, uma honra.
            - Que bom. – ela assentiu, rindo.
           
            Charlie e Helena passaram o resto daquele dia conversando e discutindo sobre livros, histórias e, em um dado momento, chegaram a falar de família e amigos, algo natural, uma conversa social da qual Charlie não estava acostumado.
            Ele não sabia se era o lugar ou o clima ameno, mas, de um jeito especial e extraordinário, Charlie foi capaz de dizer tudo o que nunca conseguiu dizer em uma única conversa com algum amigo, criar seus personagens e contar sobre as tramas de sua histórias sem ser chamado de mentiroso. Era apenas um garoto normal tentando paquerar uma bela garota.

Capítulo 1 - Quando Uma fábula Começa

aqui vai o primeiro capítulo dentre tantos outros. Espero que a leitura seja apreciada, e que a história de Inspirados possa transmitir aos leitores o mesmo prazer que senti ao escrevê-la. Boa leitura!            


O que seriam das pessoas sem seus segredos? Seriam apenas caixas vazias, isso é que seriam. Pior se não existisse o desejo em desvendar cada um deles. Seria como... Não ter caixa nenhuma. Numa dessas, as pessoas se perdem. Os Perdidos estão por todas as partes, por nunca encontrarem nada que desse sentido ao grande vazio. Alguns, no entanto, encontram de tudo, e se perdem em meio a tralhas e segredos demasiados. Entre traças, livros e ilusões, nasce um mundo. Escondido na realidade.

            Quantos livros são vendidos, quantos outros são escritos. Histórias que foram contadas com o passar do tempo, lendas, mitos e outros seres do imaginário que instigam a curiosidade e, de forma frustrante, nunca puderam ser consideradas “mentira” ou “verdade”. Incapazes de discernirem a tênue linha entre esses dois extremos, acabam criando um meio termo: a fantasia. O Monstro do Lago Ness, por exemplo. Pescadores juram que viram o animal tragar pequenas embarcações, ou juram ter perdido algum membro do corpo durante um feroz confronto contra a serpente das águas. O Yeti, o abominável homem das neves, esse aí é famoso, apesar de não “existir”. Há quem afirme ter visto o animal ou, mesmo, ter tomado um chá em sua confortável caverna nas montanhas geladas.
            Admitam. Os mundos estão alicerçados em perguntas sem respostas. O frágil planeta Terra, com todos os seus dilemas, não poderia ser diferente. Afinal, onde foi que surgiu a primeira “história da Carochinha”? Quem foi o primeiro a contar uma fábula para assustar garotinhos levados ou fazer doces meninas embalarem no sono? Provavelmente alguém cheio de criatividade e nenhuma atenção. Mas a questão é: até onde as histórias são simples invenções? Bem, o mundo está cheio de muitas dessas coisas classificadas como “encantadas”, mas, decididamente, fábula é a última coisa que se encontra em Manhattan.

            O fato é, as fábulas estão nos livros. Desde Chapeuzinho Vermelho até os monstros tétricos habitantes dos mais mórbidos pesadelos. Mas toda história começa de um mesmo jeito, curioso e, inclusive, clichê. “Era uma vez...”.
            Bem... Era uma vez em Manhattan.

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Ele tinha apenas seis anos. Charlie. Era uma espécie de garoto extraordinário. Não por ser genioso ou inteligente, ou por ter qualquer talento que realmente pudesse ser glorificado. Mas sua habilidade era igualmente chamativa. Era um perfeito mentiroso.
            O manual dos pais ensina que é normal e, inclusive, esperado quando os filhos lançam a culpa sobre os irmãos mais novos, ou mesmo sobre o cão de estimação. Não era bem isso o que acontecia com Charlie. Sua mente parecia trabalhar por contra própria. Era como uma fagulha criada por qualquer situação, em especial quando o menino entrava em alguma enrascada. Bastava ser pressionado para se esquivar das acusações da forma mais mirabolante e criativa que alguém pudesse imaginar.
             
Aquela foi a primeira mentira. A primeira de muitas.
Era jantar de ação de graças. A casa grande era confortável o suficiente para abrigar toda a sorte de parentes. A família Logan era extensa e, ainda que houvesse conflitos, todos sentiam a necessidade de manter os laços, reunindo, pelo menos, uma vez ao ano. O jantar de ação de graças era o mais conveniente.
A Sra. Logan tinha o pequeno Andrew em mãos, o irmão mais novo de apenas três anos. O Sr. Logan estava ocupado tentando explicar à irmã, Norah, como se faz para temperar um peru de verdade. A confusão na cozinha já estava estabelecida muito antes de Charlie chegar. Os ingredientes estavam espalhados e, decididamente, o banquete não estaria pronto a tempo.
Charlie havia deixado os primos na sala de estar, entediado pela companhia. Caminhou por toda a casa, em busca de um lugar silencioso, mas o cômodo mais inóspito era o seu próprio quarto, onde o tio Roy, um gordo de meia idade, roncava como um rinoceronte em época de acasalamento.
O garoto, normalmente, passava despercebido. Suas ações foram ofuscadas pela nova aquisição da família Logan. Depois da chegada de Andrew, o “belo menino das bochechinhas rosadas da tia Norah”, ele percebeu o quão invisível havia ficado. Andrew era o prodígio esperado pelos pais. Andou cedo, a primeira palavra dita foi “incrível”, além do seu talento em sorrir e mamar ao mesmo tempo. Era tudo uma fase, mas, para Charlie, um garoto de apenas seis anos, essa indiferença era quase uma traição.
Charlie entrou na cozinha, aproveitando-se da situação de completa desordem. O forno estava ligado, e a única coisa ao seu alcance era uma lata de extrato de tomate. Sua imaginação não precisou se esforçar tanto para decidir o que iria fazer. Talvez fosse a raiva por ter sua casa apossada pelos parentes impertinentes, ou o simples ócio. Mas ele o fez.

- Charlie! Você tem idéia do perigo que corremos com a sua brincadeira?! – gritou sua mãe, Lauren Logan.
O forno havia enguiçado, a lata estourado, ainda que todo o jantar tivesse desandado muito antes. O garoto estava sentado sobre a mesa, com o pai segurando-o firmemente pelo pulso, enquanto a mãe dava o sermão.
- Não foi eu, mãe! – falou o garoto.
- Vai dizer que foi o Andrew! – a mãe revirou os olhos, enquanto a primeira têmpora raivosa despontava em sua testa.
Charlie estreitou os olhos, encarando a mãe com desconfiança. Balançou a cabeça lentamente e disse:
- Mamãe, o Andrew estava no seu colo todo o tempo, como ele pode ter feito isso? A senhora está querendo colocar a culpa nele, mamãe?
Ela bufou, mas conseguiu controlar seus ânimos. O pai não conseguiu se conter, afrouxou o pulso do filho e segurou uma risada. Todos perceberam e, diante do olhar repreensivo da esposa, Michael Logan decidiu que era hora de sair da cozinha.
- Miachel, essa atitude só encoraja as peraltices do seu filho. – ela disse, enquanto o marido dava as costas e desaparecia de vista.
- Eu sou seu filho também, mamãe.
- Me diga, Charlie. Se não foi você, quem poderia ter sido? – ela falou, já impaciente.
- Ora, quem mais poderia ser? – ele deu de ombros, como se fosse óbvio demais.
Dentro daquela cabecinha, as engrenagens começavam a girar. Os primeiros sinais de seu “talento” começaram a aflorar.
- Mãe... – ele continuou calmamente, balançando os dedinhos no ar – Grimos esteve aqui. Ele não gosta do dia de ação de graças. Sua casa foi arrancada uma vez, por uns lenhadores muito maus. Construíram aquela mesa que colocam no Central Park, sabe? Aquela grandona que usam para dar comida aos homens sem dinheiro no dia de ação de graças. Grimos não ficou feliz. Disse que queria estragar o dia de alguém, como fizeram com ele.
- O que... Charlie, o que você está dizendo? – Lauren foi pega de surpresa. Era o tipo de resposta que não estava no manual dos pais.
- Eu sei, mamãe. Deveria ter impedido o Grimos, mas, sabe como ele é, adora pregar peças e fazer apostas. Ele apostou comigo que eu jamais conseguiria lamber o meu próprio cotovelo e... Eu não consegui. Imagine só, nunca pensei que fosse impossível.Mas, a senhora sabe, né... Palavra é palavra, então eu dei a lata pra ele... Mas se eu soubesse o que ele pretendia...
- Charlie, apenas... Pare de falar. – pediu a mãe, cobrindo a testa – você tem idéia do quão ridícula é essa mentira?
- Ora, mamãe... Tente lamber o cotovelo, se você se acha tão esperta.
Isso lhe custou uma semana sem sobremesa e o seu primeiro castigo oficial. O primeiro de muitos. Foi, também, o começo da primeira invenção de Charlie, sua primeira fábula, ainda que viesse em forma de mentira. Estava criando um mundo só seu, e não havia como pará-lo agora.
Só para constar. Segundo Charlie, Grimos, metade raposa, metade menino, era um habitante das grandes árvores e, segundo ele, o garoto-raposa não gostava de ter sua casa arrancada sem sua permissão. “Coisa feia, o que fizeram com o pobre Grimos”.     
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos