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[Série] Gotham... Será?


Alô, amigos Insirados?

      Quando soube que uma série giraria em torno do universo Batman (DC Comics), ainda que num período pré-homem-morcego, estava pisando em ovos. Relaxem, não sou fanboy nem vou bancar o poser aqui, mesmo porque se tem algo que eu não sou é fã de carteirinha do cavaleiro das trevas. Mas, convenhamos, é no mínimo arriscado demais criar um roteiro em um universo assim que ganhe o público sem perder a credibilidade com uma horda de fãs ofendidos. 
      A série vai acompanhar o policial Gordon quando ainda não era Comissário, quando ainda não havia Batman e quando nenhum justiceiro mascarado combatia o crime na terrível Gotham. O ator Ben McKenzie ("Southland," "The O.C.") irá estrelar como James Gordon e, ao longo da série, o jovem Bruce Wayne terá algumas aparições - ainda que como criança - além de outros ícones das histórias em quadrinhos, como Pamela (Hera Venenosa) e Selina (Mulher-Gato).
      Do roteirista e produtor executivo Bruno Heller ("The Mentalist" e "Rome"), Gotham promete trazer aos expectadores uma perspectiva diferente: a origem do vigilante da noite e dos seus inimigos, além de nos dar a chance de conhecermos quem foi o Comissário Gordon antes de comandar a polícia da cidade corrupta. 



      Eu espero, sinceramente, que a série não decepcione. Particularmente não gostei muito do elenco, e o roteiro tem uma trama muito frágil, não sei quantas temporadas eles vão conseguir manter com essa proposta, mas não quero agourar e, pra falar a verdade, estou apenas me certificando de começar a assistir à série sem nenhuma expectativa. Vamos torcer para que dê tudo certo, e que Ben Mcenzie se saia melhor do que eu esperava.    


[Dicas de Leituras] - Leia Mais Fantasias!

Alô, amigos Inspirados!

     Que tal viver um mundo completamente novo, com criaturas mágicas, cavaleiros em suas montarias, castelos, princesas, magos, velhos sábios... Imagina tudo isso! Agora, imagina só que isso é possível! É só procurar nos livros, tá tudo lá!
     Pensando nisso, decidi fazer uma lista com os meus 5 livros de Fantasia preferidos. Se você curte uma boa Literatura Fantástica, então vai se amarrar na listinha que eu preparei!

Dragões de Éter, de Raphael Draccon

     Começamos a lista com um dos melhores representantes da Lit-Fan brasileira do momento. Dragões de Éter, escrita por Raphael Draccon, é uma trilogia sobre as fantasias dos irmãos Grimm, mas numa releitura inédita e sensacional, com direito a romances de cavalaria, duelos contra ogros, anões, fadas, bruxas e a terrível aparição de Banshee, a bruxa que trás maus presságios e precede à morte. Temos Ariana, a jovem do capuz vermelho, os irmãos João e Maria, além de um príncipe honesto que luta pelo seu povo. Com várias referências a bandas, jogos e cenários épicos, essa trilogia tem tanto poder de encantá-lo quanto o próprio eter!




O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss


     Eu não quero me estender muito falando desse livro, porque sou suspeito pra falar. Kvothe, o protagonista da Trilogia do Matador do Rei, é um dos personagens mais incríveis que já conheci nessas minhas andanças pelo mundo fantástico, e duvido muito encontrar alguém tão espirituoso quanto ele. Se você gosta ambientação medieval alternativa, e se curte a boa e velha jornada no estilo RPG, manjadão mas muito envolvente, então O Nome do Vento é o escolhido!  

O Encantador de Flechas, de Renan Carvalho

      A gente sabe que o mercado literário brasileiro importa muita lit-fan de qualidade dos gringos, mas essa obra de mais um escritor nacional mostra que estamos mais do que prontos para alavancarmos nossa própria literatura fantástica! A saga Supernova, por Renan Carvalho, tem um enredo muito promissor e personagens cheios de simpatia. Através da manipulação de elementos, nossos heróis entrarão em uma batalha sangrenta contra os silenciadores e a opressão que gira em torno da cidade de Acigam.  





A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin



      Eu sinceramente não sei o que comentar sobre esse livro. Embora eu tenha lido só o primeiro volume da saga Crônicas de Gelo e Fogo (estou na metade do segundo livro \o) posso dizer que nunca se viu nada como isso. Pelo menos não a nossa geração. A leitura é pesada, não leia esse livro se quer se livrar de problemas, porque provavelmente você terá muitos. E não se esqueça do conselho que, implicitamente, George R. R. Martin nos deixa: não se apegue a ninguém. 




Mago, de Raymond E. Feist. 

     Uma das grandes promessas da editora Saída de Emergência se cumpriu. Pug, o nosso protagonista, ganha a simpatia do leitor no primeiro instante, especialmente quando descobrimos que um simples ajudante de cozinheiro tem um talento latente para a magia. A saga Mago conta com quatro livros, dois lançados no Brasil - "Aprendiz" e "Mestre". As surpresas são muitas, e o crescimento de cada personagem é surpreendente. Vale a pena, mesmo!

21 personagens animados decidiram cantar Let It Go, de Frozen!

Alô, amigos Inspirados!


     Se você é um(a) amante de animações da Disney e Pixar, então conhece Frozen, o atual vencedor do Oscar de Melhor Animação. Pois é, o musical conta com uma das músicas mais ouvidas da atualidade, Let It Go. O sucesso foi tão grande que geral do mundo animado resolveu fazer um Mashup!
     Confiram o vídeo de Brian Hull cantando Let It Go, com a performance das vozes dos mais queridos personagens dos filmes que fizeram nossa infância (porque ela ainda não acabou\o)! 


E aí, o que acharam? =)


5 Motivos Para Você Emprestar Seus Livros

     Alô, você que não gosta de emprestar seus livros! Sim, isso é um direito seu, mas já pensou o que aconteceria se você "abrisse" mão desse direito? Vem ver =)

1- Não seja um Smeagol!
     Sim, o maior motivo de não emprestarem o tão amado livro é o quão isso pode ser desconfortável para o coraçãozinho do leitor "possessivo". Mas imagine, nem que seja por um minuto, como pode ser bom para você mesmo poder passar um livro para outras mãos. Pense no ato nobre de poder compartilhar uma história que, em outras circunstâncias, o pedinte não teria acesso. Você pratica a virtude da generosidade e, de quebra, ainda aprende o "desapego", uma habilidade crucial pra vida! Afinal, vejam só o que aconteceu com Smeagol? Ele cobiçou tanto o anel até não ter nada além de seu precioso. Eu preciso dizer qual foi o fim do pobre sujeito?



2- Ele(a) não pode comprar? Mas pode ler!
     Tá bom, talvez se você pensar menos em você e mais no próximo, que tal? rs
     Quem nunca lamentou não ter lido um livro, que atire a primeira pedra. Pois é, emprestar um livro dá a alguém a oportunidade de ler uma excelente história, apesar de nunca poder comprar o livro. Eu não me perdoaria se alguém deixasse de ler O Nome do Vento ou Neuromancer por causa do meu apego, não mesmo!


3- Vamos falar sobre isso pra sempre!
     Sim, pessoal! Quem nunca passou por aquela triste situação de ler um livro sensacional e, ao olhar pros lados, não achar ninguém para conversar a respeito? Pois é, aí está sua chance de contar a alguém (que vá entender do que você está falando!) sobre todas as teorias conspiratórias que você criou em cima daquela trama, ou desabafar sobre como foi terrível perder aquele personagem para o câncer. Enfim, cara, é assunto pra vida toda!


4- É saudável Para o Livro
     Você sabia que as páginas do seu livro, quando são pouco oxigenadas, ficam amareladas e com "cheiro de velho" com mais rapidez? Pois é, emprestando seus livros, ele vai sentir os benefícios de ser folheado. Claro, partículas de sujeira presentes nas mãos também podem diminuir a vida útil do seu livro, mas aquela poeira que inevitavelmente se acumula na sua estante, também! Então, se é pra seu livro envelhecer, que seja fazendo algo de útil!


5- Não seja uma mamãe coruja.
      Eu me lembro de quando eu era criança e  de como doía os inúmeros NÃO's dos meus pais em respostas à pergunta "Posso dormir na casa de fulano?". Pois é, mães corujas atrasaram nosso lado em alguns momentos, e por eu saber como isso pode ser nada legal, eu não quero ser um pai coruja para os meus livros. Se eles querem viver, que vivam! Eles têm o direito a um ou outro arranhão. E quem não quer uns amassos de vez em quando? Mundos não foram feitos para ficar pegando poeira, eles foram feitos para serem viajados, não é mesmo? Pois é, deixe que outra pessoa mergulhe de cabeça nessa jornada! 



     E, pra terminar, deixo a pergunta final: Se você fosse um livro, onde gostaria de estar? Eu, por exemplo, não iria querer ficar pegando poeira numa estante.
     Sabem, eu tinha nove anos quando li meu primeiro livro. Não era meu, na verdade. Foi um empréstimo... Depois disso, eu nunca mais parei! Se eu puder apresentar a alguém esse incrível prazer que encontrei na leitura, então posso me sentir mais realizado! Leiam livros, galera, leiam muito! Mas os deixem serem lidos!   



Feliz Ano Novo, Moçada!

Alô, amigos Inspirados!
   
     O Blog Inspirados deseja a todos um feliz Ano Novo! =)





Pedro
     Alguma vez vocês já pensaram em como o tempo nos afeta? O mais engraçado é que ele nos afeta muito mais do que com rugas ou cabelos brancos. Ele nos marca. De um jeito diferente. É como traçar uma linha com lápis em uma folha, você vai fazendo isso lentamente, e chega uma hora que você olha pra trás e vê o quão longe foi essa linha. Mas imagine só a bagunça traçar isso tudo numa única folha. Por isso os anos passam. Assim a gente pode virar uma folha, começar a traçar caminhos, sonhos e o que mais for preciso em uma folha novinha, em branco, pronta pra registrar toda a nossa vida.
     É assim que o tempo nos marca. Vai fazendo do risco, nossa vida, num traço inusitado, ora suave, ora forte, cheio de ondas, tremulações. E sabe o que eu mais gosto no tempo? Ele não volta. Porque assim a gente sente aquele prazer da nostalgia, de querer voltar no passado quando, na verdade, isso não é possível.  É o que nos faz querer continuar em frente: saborear bons momentos em tempos passados, e querer repetir aquela sensação daqui por diante, como se sua história fosse a prova viva que de momentos felizes existem e que, por isso mesmo, um ano que começa e um novo marco para novos momentos como esse, porque sabemos que eles existem. E talvez seja a isso que o Ano Novo se refira: não são apenas novas experiências, mas também a chance de repetir alguns traços que fizemos em folhas passadas.
     Pois é, fico muito feliz em ver que o blog tem duas folhinhas riscadas, e que hoje riscamos nossa terceira. Com o pé direito em 2014, esperamos que todos tenham um ano incrível, com realizações, sucesso, a tão querida paz, e todo aquele clichê que faz tão bem pra alma!

Tullia
Infelizmente aqui quem fala ainda sou eu, Pedro. Não consegui pegar os votos de ano novo da Tullia, mas não poderia deixar de lembrar aqui a incrível participação dessa colunista que tanto que se empenhou durante UM ANO INTEIRO! Com a coluna Viajando Pelas Páginas, ela deu um toque diferente ao blog, e por isso, obrigado Tullinha! E seu lugar aqui ainda é certo, ok? =)
Eu tenho certeza que, se ela estivesse aqui, ela desejaria a vocês um feliz Ano Novo cheio de bênçãos e muita coisa boa! E com sorte, vocês terão uma nova coluna da Tullia em breve =)



Lari
Oi, gente! Estamos chegando ao fim de mais um ano, e nada melhor que essa época pra nos fazer refletir sobre tudo que fizemos ou deixamos de fazer. Para mim, 2013 foi um dos anos mais longos que eu lembro de ter vivido. Não no sentido ruim, mas no sentido de ter aproveitado todos os momentos possíveis, e de ter me dedicado às coisas que eu realmente gosto. Quando o ano começou, eu me fiz uma promessa, e pode até parecer piegas, mas foi a melhor decisão que eu tomei: a promessa era de me fazer feliz em qualquer lugar. Funcionou. Eu me preocupei em perceber o que eu gostava antes de me preocupar com o que os outros pensavam, e tudo fluiu muito melhor. Conheci muita gente boa, desapeguei de muita coisa que só acrescentava quantidade na minha vida, e me foquei naquilo que me traria qualidade. Acho que em 2014 eu vou manter a mesma promessa: ser feliz, e me fazer feliz, principalmente. Quando você fica bem, as pessoas ao seu redor mudam também. Em um evento aleatório que eu pensei mil vezes se devia ir eu encontrei com uma amiga. Essa amiga me apresentou a uma pessoa que vem perturbando minha vida e me divertindo como pouquissimas pessoas desde então. E é graças aquele evento aleatório e em um lugar nada comum que eu estou aqui hoje, escrevendo para vocês. A vida é mesmo feita desses pequenos acontecimentos. E eu aprendi que é muito melhor se arrepender de algo que a gente fez do que de algo que a gente não fez. Pelo menos a gente tentou. Espero que 2014 seja um ano repleto de tentativas, de descobertas e de felicidades pra todos vocês.



     É isso aí, pessoal! Tenham um lindo ano novo, com muitos livros! A equipe Inspirados agradece a sua participação no blog, é o que torna o nosso trabalho cada vez melhor!
     Fiquem na Paz! =)

RESULTADO - Promoção Dois anos Blog Inspirados!

Alô, amigos Inspirados!

     Pois é, seguindo o ritual social dos aniversários, sempre quando os convidados vão a uma festa de 2 aninhos, eles levam pra casa umas lembrancinhas. Por isso hoje estou aqui para anunciar as "lembrancinhas" que vocês, caros leitores, podem levar pra casa. É PROMO, GALERA!!!!


     Como sempre, o sistema usado será o Rafflecopter. É simples, fácil, só precisa ter facebook e curtir a página do blog para entrar na briga por dois incríveis livros! Ao curtir a página, você ganha +1 ponto para concorrer aos presentes!

     ATENÇÃO, você pode aumentar suas chances! Essas opções abaixo são opcionais, mas elas aumentam e muito a probabilidade de você ser sorteado!
     1) Para isso, é só COMPARTILHAR O BANNER DA PROMO EM SUA TIMELINE, e ganhe +10 pontos!
     2) Comentando diariamente em um post, você aumenta +10 pontos DIARIAMENTE!
     3) Se você tem twitter, basta tweetar a frase da promo uma vez por dia. Você ganha +1 ponto DIARIAMENTE!

     No aplicativo abaixo tem tudo o que você precisa para realizar cada passo da promo, é fácil e você tem a chance de ganhar esses incríveis livros:

Kit da promoção:
A Vez da Minha Vida - Cecelia Ahern
Inferno - Dan Brown
Marcadores

RESULTADO (09/11/2013)

a Rafflecopter giveaway

    Parabéns à ganhadora!
Tenha uma ótima leitura! =)

   

   


Dois Anos de Blog Inspirados!

Alô, amigos Inspirados!


     Mês de outubro é mês de soprar as velinhas! O Blog Inspirados vai fazer dois anos e, mesmo que muitos dos projetos que eu planejei ao longo desse ano para o blog não tenham dado certo, o Inspirados se manteve de pé, me dando alegria e recebendo com carinho os leitores que vinham visitar esse espaço.
     E é por isso que, essa semana, teremos alguns posts especiais a essa data - sim, amigos, novidades, promoções! Agora estamos com uma equipe muito bacana - além dos meus posts, como vocês já puderam perceber, temos as colunistas Larissa, Tullia, Jenny e Kate, ajudando a manter a qualidade do blog sempre a melhor possível! 

Vamos aos especiais dessa semana? =)

     1) Promoção Dois Anos de Blog Inspirados

    Essa semana teremos promo, galera! Por isso, se sua estante tá magrinha e pedindo por livros, hora de encher a pança. Isso aí é pra manter o clichê "o aniversário é nosso, mas quem ganha é você" sempre vivo! Aguardem!

     2) Leio, logo resenho... - NOVIDADE!

    Iniciamos, a partir dessa semana, a nova coluna que funciona assim: os escritores - nossos escritores nacionais! - fazem uma resenha de um livro que goste muito. Todo mês teremos a participação de um escritor ou uma escritora. É isso aí, hora de conhecermos mais um pouco de nossos autores e, se você tem sugestão, diz pra mim qual escritor brasuca você gostaria de ver aqui, resenhando uma história da hora!



     3)Viajando Pelas Páginas - Despedindo-se com estilo!
    Pois é, moçada! Começar alguma coisa significa que muitas terminam também. Por isso, com uma mescla de orgulho e saudade, eu digo que o último post da coluna Viajando Pelas Páginas - maestralmente feita pela Tullia - chega ao fim! Mas não se preocupem, ela não vai deixar o nosso blog assim tão fácil. Estou torcendo para podermos vê-la por aqui em breve! Por isso, não deixem de prestigiar o incrível trabalho que essa incrível colunista tem feito no blog durante mais de um ano!




4)Resenha comemorativa Novo Conceito

Para comemorar e celebrar o aniversário, a resenha de Paperboy será dedicada à NC, que tem sido uma grande parceira ao blog desde a nossa fundação. Com mais 30 títulos da editora resenhados aqui no Inspirados, nada mais justo do que uma excelente obra para aumentarmos esse número! Aguardem!




Obrigado!
Sim, porque afinal pra existir o Inspirados, tem que ter inspiração, e nós somos a fonte dela. Vocês são a fonte dela!

Fiquem na Paz!


Enquanto as Salamandras brincam


                O cheiro de dálias dançava no ar, acompanhado pelo hálito quente que brotava da garganta escura da floresta. Folhas amarelas brincaram na noite, seguindo fielmente o caminho indicado pelo vento. Pétalas azuis faziam o mesmo, misturando-se entre a fuligem cintilante. Uma carruagem, agora reduzida a carvão e lona puída, crepitava seu último fôlego de chama na encosta da estrada.  Ao lado, uma placa fincada às pressas indicava um caminho entre as árvores. “Simmeah”, era o que diziam as letras riscadas com pedras de calcário.
                Vultos disformes embrenhavam-se nas copas das árvores. Os galhos mais baixos guarneciam silhuetas humanoides cobertas por túnicas tão negras quanto a própria noite sem estrelas. Não era possível ver nada além das chamas tímidas que queimavam a madeira. No horizonte da estrada, uma luz amarela e rala aproximava-se em velocidade constante, indicando uma segunda carruagem.
                Os vultos estremeceram, e um chiado brotou da noite, como uma gargalhada rouca e malevolente. Uma coruja piou indiferente, mas bastou o ar assobiar para a ave cair dura no chão, um dos olhos perpassados por uma flecha confeccionada com penas de abutre. A carruagem aproximava-se a alegria doentia da noite aumentava.
                Já não era apenas uma luz no horizonte. As rodas de faia protestaram diante da estrada acidentada, aproximando a carroça cada vez mais das árvores cujos galhos abrigavam os vultos.  As cinzas azuladas misturaram-se na poeira levantada pelo carro e, num ímpeto calculado e já bem praticado, os vultos saltaram de seus postos, pousando no chão como se fizessem aquilo todos os dias. E bem o faziam. Não eram chamados de saqueadoras por mero capricho.
                Os cavalos assustaram-se com a aparição repentina da pequena quadrilha coberta de preto, e ergueram suas ferraduras, mas era inútil. Dois saqueadores, os maiores do bando, aproximaram-se dos animais e seguraram suas rédeas, e os cavalos cederam sem pestanejar. O Cocheiro, cujo rosto estava escondido por uma grande cartola de camurça, manteve sua cabeça baixa.
                Os saqueadores observaram a reação. Ficaram intrigados à princípio. Normalmente os cocheiros eram os primeiros a abandonarem a cena, correndo pela mata e aparecendo dias depois em um vilarejo próximo, onde passariam o resto de seus dias em uma taberna servindo brutamontes e bárbaros que lutavam em nome de seus reis.
                Mas aquele homem manteve seu posto. Um dos saqueadores aproximou-se, dando passos decididos. Ao que parecia, era o líder do bando. Sua cabeleira negra estava amarrada em um rabo de cavalo, seu rosto quadrado e áspero desenhado por um cavanhaque cheio de falhas. Seus olhos verdes e miúdos faiscavam nas órbitas, encarando o sujeito da carruagem. O líder ergueu um lampião a óleo, de forma que a luz banhasse o chão, mas mantivesse ocultas as faces, inclusive a do cocheiro.
                - Um homem de coragem – falou em tom debochado. A voz do saqueador era tão fria quanto a noite, e sua risada dizia que não se importaria em matar um cocheiro metido a herói, caso demonstrasse alguma resistência – Muita coragem, devo dizer. Mas, sabe, eu costumo cear coragem antes de uma boa noite de sono. Mantenho os covardes vivos. Normalmente eles fazem um chá de freixo como ninguém.
                Seus comparsas deram gargalhadas, e a noite inundou-se de risos estridentes. Mas nem mesmo as ameaças implícitas provocaram qualquer reação no cocheiro. Os risos cessaram, e o líder pareceu levemente irritado.
                - O que foi? – perguntou ele, adicionando uns dois passos à frente – o gato comeu sua maldita língua? Porque isso seria uma pena. Meu amigo Teru, bem aqui, adora comê-las. Mas tudo bem, diga-me para onde foi o gato, nós o defumamos e o deixamos partir em paz... Sem o seu ouro, é claro.
                Novas risadas abraçaram a floresta, e duas outras corujas piaram. Um guaxinim correu pela estrada, como se pressentisse o perigo. Na verdade, até mesmo a própria escuridão parecia se afastar da estrada, como se temesse ser engolida por algo muito mais obscuro do que o próprio breu.
                - Bem, permita-me. – o chefe da quadrilha pigarreou e desenlaçou sua capa de couro, deixando que o pano pesado caísse sobre a grama – meu nome é Felnor. O Grande Ladrao.
                E, dizendo isso, virou de costas, exibindo uma marca vermelha em sua nuca. Parecia ter sido marcada a ferro, como um gado é marcado para não se misturar aos outros. A carne avermelhada parecia pulsar.
                A cicatriz era um círculo cujo interior estava marcado por uma forma octogonal, como o brasão de um reino, ou uma infantaria. Era difícil saber, mas ainda assim, era intimidador. Felnor voltou-se para sua vítima, esperando qualquer coisa, um tremor ou uma súplica. Mas nada aconteceu. Ele esperou, e o cocheiro nada disse. De repente, seu silêncio e sua postura inquebrável parecia zombar da eficiência do Grande Ladrão e seus bárbaros.
                - Ora, seu patife! – o líder indignou-se. Nunca fora ignorado, sempre conseguia arrancar lamúrias ou protestos covardes de suas vítimas. Mas aquele homem não esboçava nenhuma reação. Estava congelado no assento. Imóvel – Quer morrer agora, ou prefere que eu arranque seus culhões e o faça engoli-los? Diga alguma coisa, homem!
                O líder ergueu o lampião, transtornado, e a luz banhou as dezenas de rostos. Inclusive o cocheiro.
Uma massa de pele. Era apenas o que havia ali. Lisa, sem olhos, nariz ou boca. Uma pele pálida e oval, como um rosto que não fora retocado com outros detalhes importantes, como a capacidade de falar, enxergar ou cheirar. Mas havia orelhas. Duas discretas fendas nas laterais do que deveria ser uma cabeça. O cocheiro, descoberto, ergueu o queixo, e a cartola escorregou sem cerimônia.
                - AREEEEEEEEEEEE!
                A floresta recebeu os gritos de espanto dos homens de bom grado. Provavelmente não queria contrariar a figura grotesca que ocupava o lugar de cocheiro. O líder, trêmulo, manteve suas mãos firmes, o lampião por pouco não caiu. Era um saqueador bem vivido, esperto, sabia como era importante a iluminação naquele momento. Se fosse preciso lutar, deveria saber onde estava enfiando sua espada.
                Lançando mão no interior de seu colete de malha de aço, Felnor desembainhou uma espada longa e fina, como um florete, porém levemente mais grosso. A espada respondeu ao movimento com um reflexo prateado dançando no ar, pronto para o ataque.
                - Criatura inferior! – bradou Felnor, nitidamente alarmado – somos muitos, não pode conter nossa fúria. Tome seu caminho, mas deixe-nos. Não nos obrigue...
                - Shhhh...
                Uma voz, não se sabia de onde, chegou aos ouvidos dos saqueadores.
                O pedido de silêncio viera do interior da carruagem, e o timbre da voz lembrava o de uma mulher, jovem e, curiosamente, morta. Eles não sabiam explicar como ou porquê, mas a sensação de estar ouvindo a voz da morte golpeou-os de forma inusitada. A novidade deixou-os aturdidos, incapazes de reagir.
                - A coragem é um elemento substituível, como o iodo em uma experiência que não deu certo – a voz feminina continuou, abafada por estar confinada dentro do carro, mas sabiamente escapava pelas frestas – um homem sem coragem alguma armado com fogo e pólvora enfrentaria um bando de ladrões. Mas a covardia... Esse elemento não se extrai de mineral algum. E ainda assim é como ferro derretido. Você pode forjar uma espada, ou pode produzir algemas. Pode usá-lo como arma, ou se prender na própria fraqueza.
                Os homens não ousaram responder. A maioria por ser burra demais para acompanhar o discurso sombrio. Felnor, por outro lado, sabia muito bem que a mulher, fosse quem fosse, usava de suas palavras para zombar do bando. O cocheiro estremeceu, e sua face lisa enrugou levemente, como se... Temesse algo.
                A porta da carruagem rangeu, e a fuligem fugiu de encontro às raízes das árvores. A voz soou, dessa vez mais nítida:
                - Peço que não se incomodem com Holt. Meu fiel cocheiro não pode vê-los, nem mesmo sentir o fedor de vocês. Mas consegue ouvi-los perfeitamente. Pode até ouvir o que estão pensando.
                A cabeça de Holt inclinou-se, afirmativamente.
                - Quem... – Felnor tentou buscar sua voz em algum lugar. Seu estômago formigou e ele suspeitou que estivesse ali, mas logo percebeu que estava com medo. Petrificado de horror – Quem é você?
                Um sapato vermelho reluzente tocou a terra úmida. O salto cravou em uma folha, galhos estalaram e a barra de um vestido vermelho e escarlate escorregou para fora da carruagem. A mulher acabara de deixar seu assento confortável no carro de faia. Ao fechar a porta, revelou-se uma jovem.
                Cabelos negros tão intensos que seu brilho azulado parecia vivo e indiferente à luz tosca dos lampiões, agora acessos por vários saqueadores assustados. Sua pele era branca como poderia ser o próprio mármore. Linhas arroxeadas revelavam veias pulsantes em seu rosto, assim como suas mãos e braços nus. Apenas um espartilho de couro cobria seu tronco, sustentando uma silhueta que, se não fosse em tais circunstâncias, seria sedutora. O vestido arrastava-se no chão a medida em que ela dava passos suaves à frente. Seus olhos estavam ocultos por uma máscara de ferro, cujos parafusos pareciam ter sido perfurados em suas têmporas. Uma linha de sangue seco marcava as orelhas expostas.
                Um dos homens de Felnor armou seu arco e apontou a seta na direção da mulher. Ela sorriu, encantada com a inocência do brutamonte imenso e barbado. Seu sorriso provocou a sensação de se estar vendo uma placa de gelo fendendo ao meio. Era frio, cruel e simples. Como a própria morte poderia ser numa noite como aquela.
                - Eu tenho muito ouro – a mulher falou, sua voz banhou as árvores e, em resposta, elas farfalharam – e jóias, vejam. – exibiu longos dedos finos e adornados com anéis pesados – ouro, diamante. Safiras e esmeraldas. Viajei mundo afora em busca de meu tesouro.
                - Não queremos seu ouro – falou, decidido, o líder do grupo – queremos ir em paz. Teru, abaixe essa maldita flecha.
                O grandalhão hesitou. Olhou de seu chefe para a mulher misteriosa, dos cavalos para o cocheiro sem rosto. era surreal, mas fácil. A flecha estava apontada na direção da mulher. Bastava soltar a corda, e aquela maldita voz mortiça se calaria para sempre. Era, pelo menos, o que ele queria.
                - Teru, seu imbecil – Felnor falou em tom urgente – abaixe esse arco.
                - Mas... Chefe... Eu a tenho na mira – ele murmurou, enquanto grossas gotas de suor formavam-se em sua testa porosa – é só dizer, e eu disparo.
                - Eu disse abaixe esse arco.
                Mas Teru não o fez. Seu ímpeto de guerreiro e medo inexplicável comandava seus nervos e tendões. Soltou a corda, e a flecha cantou no ar.
                Uma flecha poderia viajar muitos metros em um segundo, perfurar escudos e, com sorte, um tronco de árvore. Mas, em nenhum momento, ela poderia fazer uma curva tão sinuosa. Não como aquela. Não aquela curva rápida e irrepreensível, enquanto a seta mudava seu curso, e a ponta afiada atravessava o olho esquerdo de Teru, invadindo a órbita de seu crânio e fazendo um estrago interessante. A ponta de metal varou pela nuca. E o corpo imenso do saqueador pendeu para o lado, como um saco de feno. Bateu no chão com um baque surdo e não se mexeu mais.
                Não houve grito, ou ruído de pavor. Apenas expressões petrificadas, como se o próprio mal estivesse encarnado ali, bem na frente deles. Uma flecha não fazia curva. Homens não podiam não ter rostos... E a morte não deveria ser capaz de falar.
                - Eu não sou a morte – informou a mulher, rindo divertida – não é o tipo de cargo que me atice a tentação. Sabem, ser a morte é assumir o compromisso de respeitar as decisões, responder ao tempo certo de cada um, conforme suas escolhas. Eu... Bem, eu não me importo com o que as pessoas escolhem. Eu faço o que faço e ninguém me questiona. Eu sou Quantëe.
                Dito isso, um homem berrou. No meio do grupo de saqueadores, um dos ladrões fora arremessado para o alto, sumindo na escuridão. Todos se afastaram e, involuntariamente, Felnor abraçou sua lamparina, sentindo sua urina escorrer pela calça de pano.
                - Vocês são os homens que andam apavorando o trecho de Simmeah, não são? – perguntou Quantëe, entediada Simmeah é uma cidade maravilhosa, e me incomoda saber que outros viajantes sejam privados desse prazer, tudo porque uma escória como vocês precisam atender a caprichos gananciosos.
                - Nós não... – Felnor perdeu sua voz. Não por medo. Subitamente, sentiu sua boca formigar, e inúmeras e minúsculas perninhas escamosas começaram a tatear sobre sua língua pesada – gahhh...
                Sua voz morreu. No lugar dela saiu de sua boca inúmeras salamandras. Pequenas como uma jóia, reluzentes como os próprios cabelos de Quantëe, porém asquerosas como a própria morte o seria em seu estágio mais apavorante. Felnor sentiu seus joelhos cederem e, sem resistência, caiu. Tentou apoiar-se com as mãos, mas elas também formigavam. Sua pele revolvia como um lençol atiçado pelo vento, inúmeras salamandras caminhavam abaixo da derme do saqueador, perfurando seus vasos e mordiscando tendões, arrebentando os músculos e roendo as cartilagens.
                Felnor desejou ser capaz de gritar, mas sua boca estava entupida de pequenos anfíbios. Os olhinhos das salamandras refletiam uma luz verde tremeluzente, e na noite densa, a impressão era de que o saqueador estava vomitando vaga-lumes.
                A terra, fofa e umedecida pelo ar molhado, iniciou uma dança, um pequeno tremor que só se podia sentir com muita observação. O solo se abriu em inúmeras fendas, e outras milhares de salamandras minúsculas caminharam pelas pernas dos ladrões, agora apavorados.
                Ninguém se incomodou com o corpo inerte de Felnor, reduzido a ossos e pele carcomida, uma figura cadavérica. As salamandras abandonaram o corpo disforme do líder e correram, travessas, para as outras vítimas, que nada podiam fazer a não ser gritar e ter suas pernas decepadas por mordidas fervorosas.
                - Vamos embora, Holt – falou Quantëe, retornando ao seu assento na carruagem – deixe as salamandras brincarem, enquanto tomo um bom banho quente. O clima dessa floresta não favorece minha beleza singular.
                Holt acenou positivamente e, num chacoalhar rápido da rédea, os cavalos iniciaram a caminhada, passando pelos corpos devorados e ignorando as salamandras que queixavam-se antes de serem esmagadas por cascos pesados.


Trecho de Sioh, O espelho de Requiem
por Pedro Almada

               

Capítulo 10 - Aparição - o Clown di Douprèe


 
            A noite caiu antes do esperado. Afinal, estiveram tanto tempo presos em uma realidade absurda que, se fosse possível negá-la, o jovem Charlie diria apenas que foi um sonho longo e realístico. Mas não era, e ele sabia disso. Charlie e o irmão decidiram que seria melhor não contarem aos pais que faltaram à aula. Se o fizesse, seria provável que o irmão mais velho arcaria com a responsabilidade, cem porcento de culpa. Não era uma situação incomum, pensou Charlie, desanimado.
            Munphus pediu que esperassem um pouco mais, e foi difícil perceber se ele estava sendo realmente caridoso ou se era simples curiosidade nos dois rapazes invasores. O bibliotecário pediu que Andrew permanecesse na sala e analisarem a mão bizarra, enquanto Charlie, Helena e Ernesto encaravam-se sobre o balcão da biblioteca já fechada.
            Na mente de Charlie, uma desculpa começou a se formar, tudo para evitar um comentário ácido do pai que se queixaria quando chegassem tarde da noite em casa. Mas a situação o fez lembrar-se do que lhe ocorrera em suas últimas mentiras. Não, não seria esse o caminho que ele queria trilhar novamente. Decidiu focar toda a sua preocupação no irmão caçula que, naquele momento, deveria estar praguejando contra o braço disforme, presente das sombras do armário.   
            - Não se preocupe – avisou Helena – meu tio ligou para sua mãe, disse que vocês ficaram aqui conosco. Disse, também, que os levaria pra casa.
            Charlie abandonou seus pensamentos por um momento, grato por não precisar mentir, mas sentindo-se culpado por ter feito Munphus mentir em seu lugar.
            - Ele não vai nos levar, ou vai?
            Ela riu, negando com a cabeça. Charlie sorriu, desanimado ao perceber que teria de caminhar a pé até sua casa. Boa, velhote, pensou Charlie. Se vai mentir, faça direito, o segundo pensamento veio com um ar de ironia.
            O silêncio poderia ter sido uma boa companhia naquela noite, mas as histórias que Charlie ouvira ainda enchiam sua mente com perguntas que desejavam uma resposta direta. Não sabia por onde começar, mas sabia que deveria começar de algum jeito:
            - Então... Quando irei ver, de fato, o Literadouro?
            Helena trocou um olhar de desdém com o primo, que fez questão de mostrar sua insatisfação com a pergunta.
            - Não tão cedo. Já não foi o suficiente encarar a Rainha de Kanwitcha?
            - Não, acho que não. – admitiu ele, surpreso por não ter tanto medo da situação quanto o medo de jamais ter uma resposta sobre o mundo que o cercara todo esse tempo e ele jamais pôde explorar - Eu tenho ainda algumas perguntas para o seu tio. Por exemplo, depois que ele descobriu quem era o verdadeiro Charlie Galahan, ele me olhou com... Hesitação, ou algo mais. Por quê? Quer dizer, é só um pseudônimo, certo?
            - Bem, acontece que você é um dos melhores escritores que o tio Munphus já viu e, quando um Inspirado escreve ou pensa, ou sonha (ou seja lá o que vocês fazem) tudo isso fica registrado no Literadouro, nos galhos da grande Árvore.
            - Grande Árvore? Que Grande Árv...
            - Não interrompa, eu ainda não acabei. – Helena fez um gesto brusco e, num pigarro, prosseguiu sua explicação - Bem, quando se usa a Inspiração, a criação torna-se real. E, de todos os personagens, o meu tio era um admirador dos seus... Grimos, os inimigos Imperador Gregorius e Rei Theodore...
            Charlie lembrou-se deles. Os dois últimos foram criados naquele dia em especial, a primeira vez em que entrou na biblioteca, sem saber o que estava escondido, quando ainda não conhecia a si mesmo.
            - Acontece que nunca vimos isso acontecer. É a primeira vez que o pseudônimo é usado em lugar do verdadeiro nome. Na sala de livros, atrás daquela porta, tem uma estante só com “histórias, pensamentos e contos de Charlie C. Galahan”. Entende, Galahan. Não Logan. Tio Munphus está preocupado, mas não podemos fazer muito, os Corsários ainda não nos deram nenhuma direção. Eles só nos trazem as mensagens quando consideram pertinentes.
            - Mas meu pai – continuou Ernesto - sempre teve muita hesitação por Charlie Galahan, por causa do...
            - Sobrenome? – completou Charlie.
            - Exato – ela murmurou, pesarosa – ele nunca encontrou Charlie Galahan em sua busca pelos Inspirados, então começou a acreditar que, talvez, se tratasse do próprio Northon, escondido, tramando alguma coisa. Acho que quando ele leu a sua carta, todas as teorias dele sobre “como Northon fugiu do Vazio” foram por terra. Mas á dúvida persiste, porque ele continua sem entender como um nome de alguém que não existe pode estar contido no acervo de criações da Inspiraçao.
            - Sinto muito...
            - Tudo bem, meu tio deve estar feliz por saber que você não é Northon. Mas acho que ele ainda desconfia de muitas coisas... Por que você adotou esse nome, é o que ele deve estar se perguntando agora.
            Charlie escondeu seu temor. Não havia uma resposta para essa pergunta se eles esperavam que Charlie a tivesse. Ainda que cavasse fundo em suas memórias, não conseguia lembrar-se de onde viera a ideia súbita de um nome fictício. Simplesmente, um dia, estava assinando um pseudônimo no lugar de seu verdadeiro nome. Seria, mesmo, algo para se preocupar? Charlie preferiu desviar o assunto para qualquer coisa que não se referisse a ele mesmo.
            - Esse tal Andarilho do Tempo... O que ele faz de tão especial?
            Helena deu um sorriso sarcástico.
            - Ele é só a Fabula Prima do Meio-Termo. Ele vagou por todos os mundos, colhendo informações, obtendo conhecimento sobre tudo, sobre todos. Ele não precisa que aconteça o Despertar do Vazio, o Doomsday ou o Hagnarock pra conhecer todos os mundos e transpor os limites que nos cercam. Ele acabou descobrindo como viajar no tempo. Alguns dizem que ele avançou no tempo, e nunca mais voltou. Ele é a forma mais fácil de se obter a resposta para o Despertar do Vazio... E como impedi-lo também.
            - Ele é do mal? – Charlie arriscou a pergunta, mas logo sentiu a infantilidade em seu tom de voz. Era patético, no entanto ele não saberia definir os lados, a não ser “bem” e “mal”. Ele logo percebeu que, em verdade, não saberia definir nada do novo mundo que estava para descobrir.
            - Claro que não! Ele nos salvou das ideias macabras de Northon! Mas não sei se isso faz diferença. Ele nunca mais foi visto. Alguns se atrevem a dizem que o Andarilho é só um mito bobo. Mas eu acredito. Sei que o Andarilho está por aí, em algum lugar...
            Charlie pôde vislumbrar uma luz intensa nos olhos de Helena, uma mescla de esperança e medo, traços de sentimentos que ele tão bem entendia.
            O rapaz aproveitou o silêncio para absorver a informação. O rapaz não se lembrara da última vez em que exigira tanto de sua sanidade e equilíbrio psicológico, e temeu não tê-los em quantidades suficientes. Mas poderia ele escapar dessa situação? Depois do ocorrido com Ophelia, ele duvidou disso.
            - O que vai acontecer com meu irmão, agora? – perguntou Charlie em nítida preocupação. Não importava que suas intenções tivessem sido as melhores possíveis quando abandonara o irmão no corredor da escola. Tudo o que ele queria era proteger o irmão caçula, mas ao invés disso, deu a Andrew um sofrimento inesperado.
            Dessa vez foi Helena quem deu de ombros.
            - Não tenho ideia do que seu irmão tem. Nunca vimos nada parecido. As sombras vivas, como vocês disseram, são novidades para todos nós.
            - Provavelmente meu pai está lendo suas histórias nesse instante – falou Ernesto – procurando pelas tais sombras.
            - Eu não as criei. – protestou Charlie, em sua defesa.
            - Logo vamos saber... Tudo o que você escreve é “arquivado” no Literadouro... Logo saberemos de onde, raios, vieram essas sombras, e se podemos ajudar seu irmão. Só espero... Oh, não.
            Ernesto parou de falar, olhando, apreensivo, em direção a uma janela da biblioteca, no ponto mais alto. Havia uma pequena fresta aberta, o suficiente para permitir a entrada um pombo. Mas não foi uma ave que passou pela janela.
            Um besouro, ligeiramente menor que os demais, sobrevoou o teto da biblioteca, parecendo eufórico demais para um inseto pacato. Girou no ar duas vezes e, por fim pousou sobre o balcão, agitando as frágeis asas brilhantes. O minúsculo animal ressoava um ruído metálico, como se agulhas chovessem sobre uma placa de alumínio.  
            - Isso é um Corsário? – perguntou Charlie, reconhecendo o totem do bibliotecário.
            - É um dos espiões dele – avisou Ernesto – papai solta alguns de seus corsários pela cidade para vigiarem as movimentações, digamos, anormais. Esse aqui está muito inquieto. Com certeza foi uma aparição.
            Charlie fez uma expressão de dúvida.
            - O Meio-Termo cuspiu alguma coisa – explicou Helena sem delongas – é nosso trabalho devolver a aparição ao seu lugar.
            - Como fizeram com o meu dragão?
            Mais uma vez, Helena e Ernesto trocaram olhares ilegíveis.
            - Isso é outra coisa que precisamos explicar depois. – avisou ela – vamos.
            - Vamos? – Charlie fitou a garota – vamos aonde?
            - Ora, você vem com a gente. Ou, por acaso, não está interessado em ver uma aparição?
            Charlie ficou de pé. Como antes, estava tomado pela curiosidade.
            - Mas vou logo avisando – Ernesto falava em tom de ameaça, apontando o dedo em direção às fuças do rapaz – fique longe, apenas olhe, e tente fingir que não está lá. Isso seria ótimo.

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            - Basicamente, eles ficam desorientados quando chegam aqui – explicava Helena, enquanto os três jovens pedalavam pela avenida principal.
            O vento estava morno apesar da noite fria, o céu salpicara-se de estrelas amarelas e a lua exibia seu perfil contorcido pelas ralas nuvens. Era uma noite paradoxal, percebeu Charlie, divagando em pensamentos ao passo em que ouvia vagamente as palavras de Helena. As bicicletas rangiam, desafiadoras ante o silêncio sepulcral da noite.
            - A mudança de ambiente pode desestabilizá-los um pouco, uma vez que o Vazio e o Meio-Termo possuem densidades atmosféricas diferentes, isso por causa da carga de Inspiração contida no ar. Quando entram em nosso mundo, ficam sonolentos, por isso, geralmente, conseguimos neutralizá-los antes que criem grandes problemas.
            - Como sabem para onde ir?
            - Siga o besouro – Ernesto apontou para o alto, onde uma bolinha verde reluzente sobrevoava apressada – mas não o perca de vista, ele não se importa se é, ou não capaz de vê-lo. Corsários podem ser muito temperamentais. Vamos, chega de papo!
            O inseto os levou até uma enorme praça, rodeada por prédios, onde centenas de pessoas caminhavam, muitas delas apressadas. O céu negro fora intimidado pelos arranha-céus de concreto, era quase impossível ver uma única estrela boiando acima de suas cabeças. As sombras das imponentes construções projetavam-se na calçada. Nem mesmo o passar das horas intimidava os nova-iorquinos, que, tranquilos, ainda enchiam as ruas da grande cidade.  
            As correntes das bicicletas chiaram um choro que minguava na medida em que desaceleravam, guiados pelo ritmo do inseto cor de esmeralda. O besouro rodopiou em um frenesi irritante, pairou alguns segundos e, enfim, ficou imóvel no ar. Charlie percebeu que esse era o sinal, a aparição deveria estar por perto.
A praça em que chegaram tinha uma fonte circular onde três belas mulheres de pedra esvaziavam seus jarros que transbordavam eternamente, ou até que a companhia de água desligasse o fluxo de água. Nas bordas da fonte algumas pessoas sentavam-se e molhavam os pés em suas águas límpidas, enquanto outras mais desocupadas atiravam moedas e sonhavam seus mais íntimos desejos. Os bancos espalhados pela praça eram todos de concreto e, por mais que as árvores se esforçassem, simplesmente não conseguiam afastar o ar extremamente urbano, o que era óbvio, se tratando de Manhattan. Ainda assim o aroma agradável de flores e grama molhada conseguia fazer-se notado.
            - O que deveríamos estar procurando? – perguntou Charlie.
            - Sinta, Charlie. Apenas sinta – avisou Helena – a vibração deles é diferente, e nós somos capazes de sentir. Apenas feche os olhos e deixe que a própria aparição o atraia. Não precisa fazer esforço algum... Basta ser guiado pela Inspiração.
            Charlie ouviu, atentamente, mas, como se o desejo fosse ainda mais forte, ele riu. Uma atitude imbecil, ele logo se deu conta, mas toda aquela tagarelice de “sinta a energia” era um clichê cuspido na cara e, ainda que sua vida em menos de uma semana tivesse sido aventuras para uma vida inteira, aquela baboseira soava infantil e tola.
            - Foi mal, galera... – ele soluçou as palavras entre risos – mas, guiado pela Inspiração? Sério mesmo? Quer dizer, eu tenho que entrar em contato com o meu chi e abrir os portões da minha aura? Isso é lindo, sabem. Lindo...
            - Esse imbecil não deveria mesmo ter vindo – Ernesto cruzou os braços, encarando Charlie com profunda desaprovação – Ele acha que isso é uma brincadeira, Helena!
            - Charlie, quando uma aparição estiver ao seu encalço, sei lá – um dragão, quem sabe! – você pode começar a rir. Se isso te ajudar, então eu vou rir junto com você!
            - Não, não foi isso que eu...
            - Você quer rir, Charlie? – Helena caminhou em direção a Charlie e, com autoridade, meteu-lhe o dedo no peito, pressionando com agressividade a cada palavra minuciosamente pronunciada – Ria quando seu irmão estiver estrebuchando com uma mão deformada, e um dragão quiser fritar o seu traseiro! Você pode rir incansavelmente quando mil sombras estiverem atrás de você! Eu tenho certeza que você que você se sairá muito melhor sem a Inspiração! Não é mesmo, Charlie Galahan?
            Não eram apenas palavras e gotas de saliva que acertaram o rosto ruborizado de Charlie. A própria ofensa se materializara a sua frente e, agora, personificada em uma ruiva atormentada, tentava furar-lhe o peito com um dedo inquieto.
            - Ok, Helena, sinto muito... – ele balançou as mãos em defesa, sentindo sincera vergonha por ter zombado da situação – eu não quis...
            - Tudo bem, Charlie – e então Helena afastou-se, agora com uma expressão leve, mas séria – Você ainda tem muito o que aprender... Só espero que sobreviva até saber o que precisa.
            Ela sorriu antes de dar as costas ao rapaz e concentrar-se em qualquer coisa que não fosse no ceticismo de Charlie. Aquele conflito fora o suficiente para que o rapaz se sentisse um trapo fedido, nem mesmo Ernesto dignou-se a chutar cachorro morto e triturado.  
            Resignado e seguindo a dica de Helena, Charlie fechou os olhos na tentativa de sentir a tal Inspiraçao. Sentiu-se um imbecil, mas saber que ninguém o observava tornou o ato menos constrangedor. Aos poucos ele foi se entregando às sensações provocadas pela noite e pela discussão acalorada, deixou que apenas sua respiração influenciasse seus pensamentos, sentindo o ar entrando e saindo pelas narinas mornas, enquanto a pouca brisa atiçava seus cabelos. A princípio, nada aconteceu, e queixou-se mentalmente por não ter uma resposta rápida. Seria ele realmente capaz de sentir a Inspiração? Afinal, isso existia de fato, ou era tudo uma fantasia que o prendia num sono profundo? Ele desejou acordar em casa, no conforto de sua cama, sabendo que mulheres-gato não comem gente e dragões só existem em contos de fadas. Mas a solidez daquele dia gritava contra esse pensamento tímido. Não havia como escapar. Munphus era um bibliotecário cheio de mistérios e, para o bem ou para o mal, Charlie fazia parte desse grande segredo escondido dos olhos curiosos do mundo.
Quando estava prestes a desistir de ser guiado pela tal Inspiraçao, foi engolfado por uma súbita rajada de ar frio, que parecia circular a sua volta, detendo-o ali mesmo. A sensação dançava pelos cabelos eriçados de seu braço, caminhava pelo pescoço e enchia seu pulmão de um ar quente. Era uma vibração tão nova, uma sensação jamais sentida antes que, ele pensou, não se incomodaria em ficar preso à esse estado pelas próximas horas. Se aquilo era a Inspiração da qual Helena falara, ele definitivamente gostava.
            - Estou sentindo algo! – Charlie sorriu, eufórico, com os olhos abertos e em alerta. Pela primeira vez, sentiu-se diferente, destoante de seu mundo normal e com sentimentos previsíveis, uma experiência nova que mexia com todos os seus sentidos de forma sobrenatural – uma brisa! Ela está ganhando todo o meu corpo! É incrível
            - É o nosso alvo! – avisou Ernesto – vamos, sigam a corrente!
            Eles começaram a correr pela praça, fazendo caminho em meio às pessoas que esbarravam, e retribuíam com um palavrão. A presença da aparição condensava-se e, a cada passo, tornava mais real. Era como se Charlie mergulhasse numa banheira cujo sabor das águas despertassem no paladar um gosto jamais conhecido pelos homens. Não importava se jamais pudesse ver uma aparição sequer. A simples presença dela dava-lhe a certeza de que seu mundo era muito mais extraordinário por trás das cortinas da normalidade.
            - Lá! – exclamou Helena, detendo os dois rapazes pelo braço – vejam!
            Logo à frente, havia uma mulher com uma criança num carrinho de bebê. Ambos estavam próximos a uma árvore de galhos longos e recheados de folhas abertas. Mãe e filho eram entretidos amistosamente por uma figura curiosa. A aparição era um homem coloridas e espalhafatosas, com tiras de tecidos presas nas mangas compridas do collant berrante. Seu pescoço comprido e magro dava a impressão de uma cabeça flutuante. Suas costas eram adornadas com penas azuis e amarelas, semelhantes à cauda de um pavão. As feições da aparição lembravam a de um palhaço de circo, porém de forma bastante escandalosa. Os lábios finos eram exageradamente pintados de preto, o rosto alvo como floco de neve era maculado por duas bolas amarelas pintadas nas bochechas, enquanto as sobrancelhas eram vermelhas e grossas, como uma lagarta.
            - É ele? – Charlie perguntou – Ele não parece muito... Humano.
            - E não é mesmo... Vamos, temos que ser cautelosos, não sabemos o que ele é capaz de fazer.
            - É uma aparição do Meio-Termo, com certeza – falou Helena, decidida – O Vazio não costuma mandar aparições tão dóceis.
            Enquanto caminhavam em direção ao palhaço, a mulher se despedia com um sorriso, empurrando o carrinho do bebê. A aparição fez uma reverência cordial e acenou, contente com o riso da criança. O rosto do palhaço iluminou-se de contentamento e, alheio ao trio que caminhava em sua direção, girou pelos calcanhares em comemoração.
            - Ele me parece gentil – comentou Helena.
            A criatura sentou-se ao lado de um homem e pôs-se a fazer gestos com as mãos, lembrando muito a linguagem de sinais. Para espanto do trio, o homem respondeu da mesma forma, gesticulando com habilidade e, logo perceberam, travara-se um diálogo entre aparição e homem, uma linguagem silenciosa, mas cheia de sentido. Então o habitante forasteiro de um mundo fantástico também sabia falar com surdos-mudos, além de mulheres e crianças! Aquela figura não era mais um mistério para Charlie. A aparição representava tudo o que o rapaz queria conhecer, tudo o que sempre sonhara. Suas mentiras, suas complicações trazidas pelas invenções imaginárias exageraras, nada disso era real. Suas mentiras, afinal, não eram mentiras. Charlie sentiu-se, pela primeira vez, como a pessoa que deveria ser.  
            - Hei! – gritou ele, correndo em direção ao alvo, num impulso instintivo – Hei, senhor...
            A figura o encarou, confusa.
            - Não se aproxime dele, Charlie!
            O aviso de Helena não foi ouvido. Charlie saiu em disparada, desvencilhando-se da mão alerta de Ernesto. A aparição recebeu o rapaz com um sorriso simpático, dando a ela um aspecto ainda menos humano. Mas isso não foi um fator para afugentar Charlie. Era, agora, a única coisa que o jovem Inspirado queria, conhecer um pedacinho, ainda que ínfimo, do mundo que tornara dele alguém importante, e não um mentiroso problemático.
            - Jovem encantador... – as palavras do palhaço soaram gentis e suaves, como se cantasse, assim que Charlie aproximou-se da aparição – Que bela presença tens!
            A reação do ser fantástico surpreendeu Charlie. Seria assim, tão simples, conviver com as criaturas do Meio-Termo? Charlie desejou viver nesse novo mundo.
            - Ahn, obrigado – Charlie sorriu, sem saber o que dizer, ou mesmo se deveria dizer alguma coisa – eu digo o mesmo.
            - Charlie! – a voz de Helena ecoou ao longo da praça, afugentando as aves dorminhocas que se aninharam na copa das árvores.
            - São amigos seus? – perguntou a figura – Pois são belos e de presença fantástica! Como a sua própria! Lindos, vocês são! Esse mundo é lindo, se me permite dizer.
            Charlie riu. Não por haver uma explicação, ou por achar engraçada a forma singular como o palhaço conversava. A simples presença da criatura parecia ser um motivo para se estar feliz, e logo Charlie percebeu que, talvez, fosse um dom natural do ser tão espetacular à sua frente.
            - Olha, senhor... – Charlie começou a dizer, sem delongas – Sei que o senhor deve estar admirado com o meu mundo, mas... Nós viemos te buscar, se não se importa.  
            O palhaço o encarou mais uma vez, não tão confuso como antes.
            - Oh, então é verdade! Não estou em Douprèe, estou?
            O rapaz fez que não com a cabeça, sem saber, ao certo, o que, exatamente, era Douprèe.
            - Aqui é Manhattan.
            - Oh... Manhata? – a voz do palhaço soou etérea e divertida - Lindo nome, tem gosto agradável.... Manhata, Manhata, Manhata... É doce, não? Lembra-me lírios, mas não brancos, pois estes crescem em nas terras longínquas de Garssaf. Lembra-me muito Doroteia, mas sem as mulheres de pedra, aquelas que jogam fora toda a água de seu povo...
            Charlie não pôde evitar o segundo desejo de rir. O palhaço mostrou-se ainda mais divertido diante da reação do rapaz.
            - Chamo-me Clown di Douprèe, ao seu dispor. Vim das colinas de Miohratnak... – a aparição apontou para o céu numa reverência exagerada, lançando ao negro da noite um olhar cheio de generosidade - Eu estava dançando para os jovens da vila, quando, de repente, uma luz enorme e igualmente encantadora me cegou. Foi como se me levassem para longe... E eu acordei aqui... Vossa Bondade seria capaz de me mostrar o caminho de volta?... Gosto do povo de Manhata, mas... Quero voltar pra casa. Não me sinto bem aqui, ainda que seu povo seja bastante acolhedor e de fáceis sorrisos.
            - Tudo bem – Charlie falou, enquanto Helena e Ernesto paravam diante deles – Vamos ajudá-lo, não é, pessoal?
            O Clown fitou o trio, em especial para a ruiva que ofegava , e com um gesto de submissa reverência, agradeceu.
            - Eu seria eternamente grat...
            - Charlie! – berrou Helena, furiosa, ainda arfando devido ao esforço – nunca mais faça isso!
            - Fazer o qu...
            Charlie não completou a frase. O colarinho de sua camisa fora brutalmente agarrado por duas mãos furiosas. Ernesto deteve Charlie com uma facilidade que assustou até mesmo Helena, mas ela não se queixou, estava exasperada com a atitude irresponsável do amigo.
            - Eu avisei! – Ernesto trincou os dentes, e Charlie percebeu que o primo de Helena fazia mais força para conter o ímpeto de socar o rapaz no rosto do que erguê-lo pelo pescoço – Eu avisei para agir como se não estivesse aqui! Mas você não ouve! Voce sim-ples-men-te não ouve!
            - Cavalheiros, cavalheiros! – Clown di Douprèe aproximou-se, alardeado, segurando os jovens pelos ombros – um soco dura um segundo, mas reverbera o corpo por dias, se me permitem dizer. Seria mais fácil resolver os problemas com uma música, não seria?
            - Música? – Ernesto ignorou Charlie por um segundo, fitando o palhaço com desdém – vou te mostrar a música, seu pomposo, quando enfiar meu pé no seu trasei...
            BAM!
            Foi o som surdo que interrompeu o discurso colérico de Ernesto. O acontecimento que se seguiu foi tão repentino, não houve meio de reagir ante a situação.
            Clown de Douprèe caiu, estatelado, com o rosto pregado no chão, puxado pelos calcanhares. Charlie nem percebera o que acontecera até visualizar a cena: uma densa mancha negra cobria todo o chão e estava arrastando o Clown o mais longe possível do trio.
            - Hei! – gritou Charlie – Que droga... As sombras! Helena, as sombras!
            O palhaço começou a ser arrastado ao longo da praça, como se puxado por uma corda invisível enganchada no seu calcanhar. Tão logo Charlie reconheceu. As sombras estavam envolvendo as pernas do Clown di Douprèe.
            - Salva-me, criança! – berrava o palhaço, chamando a tenção dos transeuntes, que  assistiram à cena, atordoados – Não deixe que me levem! Isso dói!
            Um rastro de sangue começou a ser deixado por onde o Clown passava. Estavam ferindo a pobre aparição, e as sombras eram completamente apáticas às queixas de dor de Clown. Charlie empurrou Ernesto para longe e correu em disparada, rumo à aparição. Era como, pela segunda vez, ter roubado pelas sombras o direito de ser ele mesmo, o direito de viver o mundo que a Inspiração lhe prometia. Charlie não queria permitir que isso acontecesse novamente, mas seu corpo era fraco demais para alcançar as sombras ágeis e sorrateiras. O palhaço fora lançado em direção aos arbustos, e a aparição foi completamente coberta pelas folhagens.
            - Não! – berrou Charlie, se lançando contra os arbustos.
            Enfiou a mão entre os ramos, revirando tudo. Arrancou galhos, cortou a palma das mãos, mas nada encontrou. Ernesto e Helena estavam ajoelhados ao seu lado, afastando os galhos e procurando pelo palhaço do Meio-Termo. Mas não havia nada. A aparição, simplesmente, sumira.
            Todos à volta começaram a aplaudir, alguns paravam sua habitual caminhada para se admirarem com o espetáculo. “Como fazem isso?”, murmuravam uns. “Esses artistas de rua... Gostam de se exibir...”, outros mais amargurados diziam.
            O que ninguém havia percebido, no entanto, era que não se tratava de uma encenação. Literalmente Clown di Douprèe fora tragado pelas sombras.
 
Base feita por Adália Sá | Editado por Luara Cardoso | Não retire os créditos